sexta-feira, 13 de setembro de 2019

464.Memórias da Era Vargas

(escrito para minha sobrinha neta, Joana)

Nasci em maio de 1926, pouco depois da eleição, em março daquele ano, de Washington Luís para a presidência do Brasil, carioca de Macaé, mas com raízes políticas paulistas, pois fora prefeito da cidade de São Paulo e presidente do Estado de São Paulo.

Naqueles tempos, chamados de Primeira República, o Brasil era uma República Federativa de Estados, com ligação bem frouxa entre os Estados Federados, tanto que cada Estado era governado por um presidente, “20 feudos”, criticavam os tenentistas, corrente política oposicionista à do presidente do Brasil, de 1922 a 1926, o mineiro Arthur Bernardes..

Washington Luís, como candidato paulista, lograra a eleição para substituir na presidência do Brasil a Arthur Bernardes, mineiro, conforme o pacto, frouxamente observado, da política “café com leite”, intercalação de paulistas e mineiros na presidência do Brasil, instituída pelo Presidente Campos Sales no final do século XIX.

A década de 1920, quando emergiram o movimento tenentista e a Coluna Prestes, foi muito turbulenta no Brasil. Washington Luís pretendeu realizar governo progressista abrindo estradas para conectar os Estados brasileiros e teve, durante certo tempo, como Ministro da Fazenda, Getúlio Vargas, político do Rio Grande do Sul.

Naquele final da década de 20 do século passado, a minha cidade natal Parnaíba, no Piauí, era uma das mais ricas e importantes cidades do Brasil, mais rica e importante que a própria capital do Estado do Piauí, Teresina. No litoral norte do País era o quinto mais importante polo de comércio internacional, precedido por Manaus, Belém Fortaleza e São Luís. Empresas inglesas e alemãs nela tinham filiais ou representações, e a Alemanha possuía um consulado, já provido de ligação radiofônica com a Alemanha na década de 30. O Banco do Brasil construíra belo edifício de dois andares na principal praça da cidade, a Praça da Graça, para abrigar a sua agência que era uma das muitíssimo poucas no país dotadas de Setor de Câmbio, a 13ª.

Para essa praça, de canteiros floridos, provida de artística pérgula ampla e iluminada, com piso de pedregulho limoso, cortado por veios d’água reluzentes que fluíam murmurantes, habitat de minúsculos peixes coloridos e animais outros anfíbios, o teto apoiando-se sobre quatro formosas e brancas colunas dóricas, todo o conjunto envolto por trepadeira de folhas intensamente verdes, afluía a população à tardinha dos domingos, depois da sessão de cinema do Cine Eden, outro lindo edifício da Praça da Graça. para passear ao redor desta,  ao som da banda de música municipal, localizada no coreto central, ocasião de maravilhoso congraçamento da comunidade em que os idosos se relacionavam com os amigos, as crianças brincavam em conjunto e os jovens flertavam e namoravam à vista dos pais!

A Panair e a Condor, aquela companhia aérea norte-americana e esta alemã, mantinham linha aérea ligando a cidade ao País com seus hidroaviões, e até o famoso avião alemão DOX, de doze motores, transitou por Parnaíba, em sua histórica passagem pelo Brasil em 1931. Eu o vi, por acaso, porque o ano de 1931foi o ano de falecimento do papai, e ele, já doente terminal, e eu, o filho caçula de cinco anos, fomos os únicos que ficamos em casa naquela ocasião, já que todos os outros familiares, inclusive a criada, nove pessoas, haviam saído para assistir pessoalmente ao pouso da aeronave em Amarração, hoje cidade de Luís Correa, o local de aterrissagem dos hidroaviões.

Papai se posicionou sentado na rede em que faleceu, armada no quarto de trás, contíguo à sala de refeição, de tal forma que através das duas portas, a do quarto e a do corredor, se abria vista sobre o quintal por onde se viam transitar as aeronaves no seu voo de partida, sobrevoando as mangueiras de nossa casa. Assim, ele e eu, atrás dele, sentado no chão de soalho e encostado na parede, pudemos ver a histórica aeronave. É uma das mais antigas memórias, jamais apagadas de minha mente! O DOX, eu e meu idolatrado pai, querido pai, inesquecível pai, meu grande heroi!

Essa memória do DOX é precedida por outras, certamente de 1930, como a do entusiástico comício, realizado pela caravana política da Aliança Liberal  no Largo da Santa Casa, na confluência das Ruas Pedro II e Coronel Pacífico, num início de noite daquele ano, quando Batista Luzardo, magnífico tribuno gaúcho, pronunciou eloquente discurso frequentemente aplaudido com palmas  e  gritos de apoio pela assistência, expondo o programa de governo que Getúlio Vargas, candidato pela Aliança, prometia realizar, se eleito fosse presidente do Brasil. Meses passados, caminhão, entulhado de revolucionários, portando lenço vermelho no pescoço, transitava barulhento pela rua em frente de minha casa, que certamente eram partidários da Aliança Liberal, comemorando a vitória da Revolução de 1930, chefiada por Getúlio Vargas, candidato no pleito para a Presidência do Brasil derrotado pelo candidato paulista, Júlio Prestes, mas empossado presidente depois de chefiar a vitoriosa Revolução de 30, que centralizou e modernizou a República Brasileira.

Papai, filho de latifundiários do interior do Piauí, pai e mãe, foi atraído, ainda na adolescência, pela vida comercial e social pujante de Parnaíba, e veio morar e trabalhar com abastado parente, que mantinha uma das mais importantes casas comerciais de varejo da cidade. Logo ele se tornou capaz de montar uma das duas principais lojas de varejo da cidade, a dele e a Loja da Chaleira, equivalentes aos supermercados de hoje. A loja de papai vendia no varejo produtos que a empresa de comércio internacional de meus tios, José de Castro e Áudax, importava da Inglaterra, Alemanha, Holanda, França e Estados Unidos, bem como produtos que os primos latifundiários de Miguel Alves, Esperantina, Barras, Campo Maior, Piracuruca, Periperi e Cocais exportavam.

A ampla residência que ele edificou para moradia era amostra dos negócios que ele fazia e do amplo conhecimento agrícola que adquirira na sua adolescência. O teto da casa e o assoalho eram de madeira de lei do interior do Estado. O revestimento das paredes, os móveis e todo o utensílio de casa eram de origem estrangeira. O amplo quintal era um pomar com um jardim na entrada. Os filhos e os amigos vizinhos, divertíamo-nos à sombra do mangueiral. Saboreávamos manga de chupa, de massa, espada e rosa; banana, araticum (a mais saborosa fruta do mundo, quando adoçada com açúcar!), romã, caju, laranja, lima, limão, tangerina, sapoti, umbu, tamarindo, ata, goiaba; na época de chuva plantávamos milho e feijão. À  tarde, deitava-me num degrau da escadaria da entrada da casa para olhar o movimento das nuvens e extasiar-me com a modificação de seu desenho, ou, mais á tardinha, fruir do maravilhoso odor exalado pelo jasmim, em meio às dálias, margaridas e rosas do jardim, aguardando, às seis horas, os sinos da Igreja Matriz, do autoritário, apavorante e verboso vigário, Padre Roberto, badalar os sons que alertavam para a hora de proferir a reza diária da Ave Maria, em louvor da mãe de Deus.

Entende-se, pois, porque meus pais eram bem relacionados na cidade, e porque minha mãe, viúva já, foi convidada pelo compadre José Narciso, certamente pelo ano de 1931 ou 32, para participar do jantar em homenagem ao General Juarez Távora, um dos principais líderes do movimento tenentista e o líder da Revolução de 30 no Norte do Brasil, que estava passando pela cidade em campanha política e se hospedara na casa do compadre, chefe político da Revolução na cidade. Mamãe participou da homenagem, acompanhada da filha mais velha, a jovem e brilhante normalista Edmée, afilhada de José Narciso, e retornou para casa impressionada com a estatura do homenageado, cuja cabeça, dizia ela às amigas, excedia, de muito, ao cimo do espaldar da cadeira de embalo em que se achava sentado.

O Piauí era governado por um interventor, nomeado por Getúlio Vargas, o militar cearense Landri Sales, homem de confiança do General Juarez Tavora, e também figura proeminente na Revolução no Norte do País. O Coronel José Narciso, que já fora prefeito da cidade, e Hugo Napoleão do Rego, primo e deputado federal, falecido papai, trataram de amparar a família de mamãe, obtendo a nomeação, de minha irmã Edmée, que já concluíra o curso normal, para secretária do Ginásio Parnaibano que, com a União Caixeiral, eram os dois estabelecimentos de mais alto nível de ensino da cidade naquela época. João, o filho primogênito, viajou até Belém, onde foi hospedado, enquanto se submetia ao concurso para o Banco do Brasil, pelo tio Jorge, irmão de papai, que possuía uma rede de açougues naquela capital. Aprovado, foi nomeado para trabalhar em João Pessoa na Paraíba. Conseguiu permutar a localização com um paraibano que fora nomeado para trabalhar em Parnaíba. Mamãe e meu irmão Einar liquidaram a loja de comércio de papai. Assim, a família estruturou a renda de sustento, a partir de então: a renda da aplicação da  soma, resultante do valor do seguro de vida, que papai fizera, com o da liquidação da loja, em farmácias, acrescida do salário dos dois filhos mais velhos. Nada comparável com o nível que papai mantinha quando vivo.

Naquela época, uma Estrada de Ferro ligava Teresina a Parnaíba. A linha férrea seguia pela principal via pública da cidade, a Avenida Getúlio Vargas, nome que lhe foi aplicado após 1930, replicando medida, assumida por muitas cidades brasileiras, de assim nomear uma de suas vias públicas, a partir da Revolução. A ferrovia, pois, findava na mole do cais do Porto Salgado ou Porto das Barcas. Era ali que se localizava o coração pulsante da economia parnaibana e piauiense naqueles tempos: centenas de canoas, dezenas de barcaças entulhadas de mercadorias, veleiros, navios gaiolas motorizados, que faziam o trajeto total do Rio Parnaíba nos dois sentidos, até o porto marítimo de Tutoia, já no Estado do Maranhão. Lá existiam armazéns, estaleiros e a alfândega. Era uma azáfama de trabalhadores, estivadores e marinheiros, com que se misturava a meninada da cidade, porfiando por perpetrar o mais ousado e acrobático mergulho nas águas barrentas de correnteza portentosa do Rio Igaraçu, o braço do Delta do Parnaíba que banha a cidade de Parnaíba, saltando do alto de algum daqueles veículos.

Aquele ambiente já começara a ser agitado pela atividade do Partido Comunista, comandado nacionalmente pelo ex-militar Carlos Prestes, e nos meados da década de 30 dirigido, na cidade, por Aldy Mentor, advogado maranhense, orador brilhante e inflamado. No lado oposto do espectro político, funcionava a Ação Integralista Brasileira, orientada pelo lema Deus, Pátria e Família, fundada pelo escritor Plínio Salgado, e adotando táticas de arregimentação e atuação importadas do fascismo italiano e nazismo alemão. Em Parnaíba, ela era chefiada por meu tio, Zeca Brandão, exímio farmacêutico, proprietário da melhor farmácia da cidade, localizada também na Praça Jonas Correa, a linda e pequena praça do mercado, como a loja de papai..

Naqueles  primeiros anos da década de 30 e do Governo Revolucionário, o ambiente operário vivia a euforia da nova política que  criara os Ministérios do Trabalho e da Educação, as autarquias previdenciárias e leis trabalhistas geradoras de um elenco de direitos mundialmente admirado, tanto que, em 1936, aqui no Rio de Janeiro, em discurso no Palácio do Itamaraty, Franklin Delano Roosevelt, Presidente dos Estados Unidos, o Presidente do New Deal e do Welfare State, o maior vulto da História mundial no século XX, não teve pejo de confessar que nada mais fizera que trilhar caminhos abertos e indicados pelo Presidente brasileiro!

Por vezes, logo no início da manhã, depois de degustar o café, sempre servido com muito carinho e quitutes variados e saborosos por uma tia de mamãe que, viúva sem descendentes, aceitara o convite de residir com meus pais, e meu irmão José alcunhara de “Mãe Minha”, a tia Carlotinha, eu ia assistir à chegada do trem em sua viagem diária que se iniciava em Teresina. Aquele ano de 1932 gravou-me indelével na memória a chegada de um vagão apinhado de jovens militares carregando mochila e cantil, empunhando fuzil, que deveriam seguir para o sul e combater os revoltosos paulistas, autointitulados constitucionalistas.

Normalmente, nos dias de semana, de manhã cedo, após o café, a partir de 1933, e, já alfabetizado por minha linda e suave mãe, a mais adorável mãe que já existiu no Mundo, juntava-me a meus dois irmãos, José e Izabel, para ir assistir às aulas no Grupo Escolar Municipal Miranda Osório, a mais conceituada escola primária da cidade, dirigida pela severíssima Dª Raquel, irmã do delegado de polícia da cidade, a qual punia cada erro com um dolorido bolo de palmatória!  Logo no ano seguinte, transfiro-me para o Grupo Escolar Municipal João Cândido, que se abrira, quase defronte da casa de meus pais, num lindo e amplo sobrado, de dois andares, de paredes amarelas e grades verdes. Ele era dirigido pela  linda Professora Ester Sampaio, futura freira e superiora de convento, irmã do lindo, sábio e queridíssimo Padre Antônio Sampaio. Minha professorinha, cuja meiga e linda fisionomia ainda hoje me encanta, me ensinava com muito carinho, e, sussurrava-se, era namorada de meu irmão Einar. No vasto terraço ladrilhado da entrada do edifício, assistíamos perfilados ao hasteamento  da bandeira nacional no início dos trabalhos diários, cantando o Hino Nacional e o Hino à Bandeira, e, no meio da manhã, fazíamos exercícios de ginástica. Nas grandes datas nacionais, Independência e República, desfilávamos pelas principais vias públicas da cidade.

Numa tarde de1934 ou 1935, minha mãe me conduziu pela mão, o filho caçula, até o Porto Salgado para acompanhá-la, na despedida do primo, Ademar Neves, filho da meiga, loira e rosada tia Madalena, que todos os anos mamãe nos fazia visitar, eu e meu irmão José, e ela nos recebia com indizível carinho e presenteava com deliciosas guloseimas, na sua casa na Praça Jonas Correa, aquela mesma praça onde papai tinha a sua loja e outro filho de tia Madalena, Anísio, mantinha “O Paraíso das Noivas”, fina loja de produtos que as mulheres precisam adquirir para a festa de casamento. Ademar, comerciante, professor, poeta, musicista, compositor, prefeito de Parnaíba entre 1931/34, cuja brilhante administração lhe granjeou o título de “O Remodelador da Cidade”, compositor da música do Hino da Parnaíba. estava partindo para o Rio de Janeiro, e acenava com um lenço, da amurada de um navio fluvial, após encerrar discurso de despedida, para a grande multidão que lhe fora prestar homenagem de gratidão pela bela administração da cidade, que perfizera.

Naqueles anos, um dos mais importantes habitantes de Parnaíba era o bisavô de Joana, Celso Nunes, sócio de James Frederick Clark, tetravô de Joana, na Casa Inglesa, a maior empresa do Estado do Piauí de então. Grande amizade ligava Celso Nunes a Henrique José Couto e filhos, os famosos neurologistas Deolindo Nunes Couto e Bernardo Nunes Couto. Henrique José Couto, piauiense, desembargador no Maranhão, fundador e professor da Faculdade de Direito da Universidade do Maranhão, Secretário Geral no Governo de Magalhães de Almeida, governo que reorganizou o Poder Judiciário maranhense, era sobrinho do grande jurista brasileiro Clovis Bevilaqua, autor do primeiro Código Civil brasileiro, em cuja residência viveu, enquanto estudou Direito, até formar-se na Faculdade de Direito de Recife. Henrique José Couto foi eleito Deputado Federal pelo Maranhão para a Assembleia Constituinte, que em 1934 proporcionou nova Constituição para o Brasil, onde se previa um Poder Legislativo formado de um grupo de representantes políticos e outro de representantes  classistas, como a constituição fascista italiana.

Nesse ínterim, forma-se a Aliança Nacional Libertadora, de maioria comunista e socialista, que promoveu em 1935 uma revolução no Nordeste, violentamente sufocada pelo Governo. Inicia-se, então, viés crescente de repressão e violência estatal. Promulga-se a Lei de Segurança Nacional. Criam-se a Comissão Nacional de Repressão ao Comunismo e o Tribunal de Segurança Nacional. O Governo fecha a Aliança Nacional Libertadora. Aldy Mentor desaparece da cena política de Parnaíba. Ouvia falar que havia sido preso. Acredito que sim, já que a repressão ao Comunismo era de tal violência que, em 1936, narra o historiador Bóris Fausto, a polícia invadiu o Congresso para prender cinco deputados que haviam apoiado a Aliança Libertadora ou simplesmente manifestado simpatia por ela.

De fato, recordo-me do verdadeiro pavor e enorme ponderação que sentia envolver as conversas entre as pessoas adultas de minha família, quando, naqueles anos, eventualmente, muito raramente, pois, era imperioso evita-lo, o assunto era político, por mais tangencialmente que fosse. Notícia política se transmitia, mesmo no interior das casas, aos cochichos, com receio de que o som ultrapassasse os limites da residência, e algum passante, cogitando ter ouvido alguma conspiração, levasse ao conhecimento da autoridade, o fato da conversa, imaginando ter auscultado alguma conspiração. No ano de 1937, transferi-me de Parnaíba para a Escola Apostólica dos Padres Jesuítas em Baturité, no Estado do Ceará, onde, recluso e dedicado aos estudos, vivi anos alheio aos assuntos sociais e políticos do País. Dez anos, porém, transcorridos, aqui no Estado do Rio de Janeiro, num sítio em  Monerat, local de férias dos jovens religiosos estudantes jesuítas de Nova Friburgo, tive o ensejo de participar de uma conversa com o Deputado Bandeira, que doara o sítio aos Jesuítas, na qual relatou violências cometidas pela censura do Governo Vargas, na imprensa escrita e falada, onde chegava ao paroxismo de quebrar maquinismos, arrestar livros e jornais, prender e espancar jornalistas, bem como da polícia de Filinto Müller, que se subordinava diretamente a Getúlio Vargas, o qual o manteve durante horas encerrado numa geladeira simplesmente pelo fato de  expressar opiniões  opostas à política do Presidente Getúlio Vargaas.. 

Em 1937, eu já isolado em Baturité, ocorre  no Rio de Janeiro a intentona de partidários da Ação Integralista contra o governo de Getúlio Vargas. Violentamente reprimida, o partido político é declarado extinto e meu tio Zeca Brandão, que a chefiava em Parnaíba, sente-se coagido a transferir-se de Parnaíba para Recife, onde  vence concurso para catedrático da Faculdade de Farmácia da Universidade de Pernambuco. Poucos anos decorridos, ele morre quando se dedicava à pesquisa na área de antibióticos, área essa franquiada com a então recente  produção da penicilina, que salvou a vida de milhões de vítimas da Segunda Guerra Mundial.




quinta-feira, 5 de setembro de 2019

463.Opinião Solicitada Sobre Reportagem da Televisão Alemã.


Um fulaninho da televisão alemã fez, recentemente, ousada crítica à pessoa, ao governo, e, sobretudo, à política econômica do Presidente brasileiro, Jair Messias Bolsonaro, no tocante à Amazônia Brasileira. Um vídeo dessa reportagem anda rolando por este Brasil e chegou ao meu computador, com solicitação de opinião sobre o conteúdo.

A Alemanha é país com longa e brilhante tradição de conhecimento científico. O nível médio de conhecimento de sua população é dos mais altos do mundo.  Esse vídeo provoca-me a suspeita de que também o povo alemão apresente a mesma deficiência que, diz-se, é dela afetado o povo norte-americano: culto, mas deficiente nos conhecimentos geográficos e históricos mundiais.

Com efeito, o Brasil é um país do hemisfério sul. A Amazônia Brasileira acha-se totalmente no hemisfério sul. As geleiras do Polo Antártico aí estão robustas, intactas. As geleiras que se derreteram foram as do Polo Ártico, e, de tal monta que os lindos ursinhos brancos estão experimentando muita dificuldade de sobrevivência,  porque não mais encontram gelo em quantidade suficiente para sustenta-los na superfície alvíssima e solitária do Oceano Ártico.

É-me difícil entender, com o pouco que conheço de Termologia, que as fogueiras de São João e São Pedro, ora acesas na Amazônia, principiem por liquefazer o gelo do Polo Ártico, prejudicando a existência dos ursos lá longe, no extremo norte do planeta, deixando sólido e robusto para o desfrute de pinguins, focas e lobos-marinhos o gelo do Polo Antártico!

Muito mais contíguas ao Polo Ártico, a geografia econômica me localiza destruidoramente escancaradas as gargantas das fornalhas industriais e domésticas do Canadá, Estados Unidos, México, Inglaterra, Irlanda, Islândia, Irlanda, Reino Unido, França, Alemanha, União Europeia, Países Escandinavos, Rússia, China, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Índia e Japão, movidas a carvão, a energia mais poluente, e petróleo também consideravelmente poluente, bem como os motores de seus milhões de  veículos  que rolam sobre as estradas, cruzam os mares e riscam de negro o azul do ceu.

Penso que mais ameaçadora para a Vida, neste planeta, que tudo isso, é a utilização da energia nuclear, especificamente como arma de guerra, que se disseminou. Mas, não deixo de considerar ameaça, mesmo o seu uso pacífico, como esse, que está promovendo a Rússia, de uma estação energética atômica agora circunavegando precisamente o Polo Ártico, mesmo após a explosão da cidade de Cernobyl, há poucos anos,  e, na semana passada, a explosão de uma unidade da marinha russa, aparelhada de arma nuclear,  no norte daquele país, nas vizinhanças da região ártica!

Merkel reclamou? Macron iniciou um processo de convocação mundial para desarmar o mundo, pelo menos de artefatos bélicos atômicos? O insignificante jornalista alemão tentou ridicularizar Putin, Trump, Merkel, Macron?

A resposta é respeito ao poder destruidor? Interesse? Vantagem? Medo? Ou covardia?

A história da Europa é uma história de devastação da vegetação (Nederland, Holanda, significa terra de floresta, onde hoje só existe água!) e de guerra fratricida. Creta e Tebas foram destruídas pelos gregos; Esparta e Atenas se arruinaram numa guerra fratricida; a Grécia foi transformada em Império Helênico por Alexandre; o Império Helênico foi ampliado em Império Romano pelos romanos; os povos germânicos destruíram o Império Romano; os principados cristãos levaram a destruição ao mundo muçulmano, inundando de sangue até o joelho dos combatentes o próprio famoso templo cristão de Santa Sofia; o mapa político europeu foi construído mediante guerras de 100 anos, 30 anos e 10anos. Os europeus saíram pelo Mundo pilhando, matando e escravizando orientais, africanos e ocidentais, inclusive devastando florestas. Recentemente, no século passado, transformaram suas querelas regionais em duas conflagrações planetárias com dezenas de milhões de mortos e devastação ecológica; nos últimos séculos promoveram ideologias a pretexto das quais eliminaram milhões de pessoas.   

A França, o país governado pelo Presidente Macron, o líder da Cruzada contemporânea contra o Presidente Bolsonaro, do Brasil, registra varias  páginas gloriosas na História da Civilização, como o Iluminismo e a Revolução Francesa, mas igualmente outras deprimentes, entre elas, a  Cruzada das Crianças, no século XIII, quando um visionário arregimentou umas 50.000 crianças, que atravessariam a pé o Mar Mediterrâneo para destruir as muralhas de Jerusalém, ao som de trombetas, como abatidas teriam sido as muralhas de Jericó, e essas crianças acabarem mortas ou escravizadas pelos muçulmanos, transposto o mar em embarcações; o martírio de sua maior heroína, santa Joana d’Arc da Igreja Católica, padroeira da França, sentenciada à morte, queimada numa fogueira; a guerra fratricida religiosa, católicos contra huguenotes, com milhares de vítimas; a morte na guilhotina de um rei e uma rainha; um período de governo apelidado de Terror, quando milhares de cidadãos foram guilhotinados simplesmente  por terem nascido nobres; um militar que, no olho do furacão democrático da Revolução Francesa, se arvorou a rei, disseminou a morte de centenas de milhares de pessoas pelos campos de batalha da Europa, para retornar da Rússia, humilhado e derrotado, para seu país; país que enriqueceu e se tornou potência mundial promovendo, durante séculos, expedições  de pirataria pelos quatro cantos do planeta; formou um império colonial ao redor do Mundo, exterminando e escravizando populações militarmente desprotegidas; nação que colaborou para erradicar quase que a totalidade da Mata Atlântica brasileira;  e, em pleno, século XX, um general, herói nacional e presidente da França, renunciou ao seu direito por acordo internacional do sistema monetário, acomodando-se a abusivo ato de descumprimento pelo presidente dos Estados Unidos, de tal monta que provocou a substituição do sistema monetário internacional!.

Especificamente, nesse assunto de economia sustentável, entendo que os países centrais, o punhado deles que manda no mundo e orienta os acordos no sentido dos seus interesses, de fato miram redução da poluição atmosférica e da elevação da temperatura mundial, mas sem prejudicar a marcha do seu progresso, enquanto impedem o próprio desenvolvimento e exploração das potencialidades pelas nações periféricas desarmadas, pacíficas como o Brasil, tolerando concomitantemente que as nações periféricas armadas façam o que bem entendam sem qualquer reação inibidora da parte deles, salvo quando se sentem efetiva e claramente ameaçados, como são os casos das tensas relações dos Estados Unidos de Trump com a Coreia do Norte e o Irã.

O Brasil é um país pacífico por opção, por idealismo, por norma constitucional, o artigo 4º:
“A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: 
I - independência nacional;
II - prevalência dos direitos humanos;
III - autodeterminação dos povos;
IV - não-intervenção;
V - igualdade entre os Estados;
VI - defesa da paz;
VII - solução pacífica dos conflitos;
VIII - repúdio ao terrorismo e ao racismo;
IX - cooperação entre os povos para o progresso da humanidade;
X - concessão de asilo político.

Parágrafo único. A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações.”

O Brasil, que optou pelo Estado da Civilização, está sendo ameaçado pelo poder econômico e bélico dos povos bárbaros da Europa, açambarcadora da riqueza mundial numa época da História e atualmente munida de poder atômico capaz de destruir o planeta Terra! É possível que antes disso se assista à deglutição da União Europeia pelos atuais invasores, os povos bárbaros da África e do Oriente!...

O Brasil ufana-se de sua Constituição e de governos que cumprem os compromissos internacionais justos e que permitem desenvolver suas potencialidades econômicas para o bem dos brasileiros e da Humanidade, direito que cada nação detém, não restrito a apenas algumas, as mais militarmente poderosas, que ora abusam desse poder militar e político, prejudicando o bem estar dos países periféricos.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

462.Opinião Solicitada Sobre Vídeo do Dr. Paulo Guedes



Há duas orientações básicas na Economia: a liberal e a social. A liberal segue o famoso lema: "deixa fazer; deixa negociar". A social segue o princípio: "todos são obrigados a trabalhar e receber, pelo menos, renda suficiente para subsistência digna, com segurança".

A liberal já experimentou vários fracassos: em 1929 (a Grande Crise), 1969 (a ruptura do padrão ouro, De Gaulle x Richard Nixon) e agora em 2017. A social experimentou a grande crise de 1980. 

O bravo Marechal De Gaulle, herói da resistência francesa, não teve ousadia suficiente para ir arrancar dos cofres de Washington o ouro a que a França tinha direito por contrato internacional básico de funcionamento do mercado mundial de bens e serviços, em 1969! Ao passo que o inexpressivo presidente francês, Macron, neste momento, tem bravura suficiente, na presidência da irrelevante França do século XXI, para promover cruzada pela internacionalização da Amazônia Brasileira e de ofender de mentiroso o Presidente brasileiro. Como faz falta uma arma atômica, neste mundo contemporâneo do século XXI!

A política liberal se rege por um princípio: o indivíduo humano sempre busca a sua felicidade, a sua maior vantagem a cada instante. Logo, o princípio básico social e econômico é liberdade: deixa todos fazerem o que bem entenderem e todos serão felizes e contentes, e a sociedade será rica e feliz!

A política social se rege pelo princípio básico de que o indivíduo humano é construção, construído pela sociedade,  por si mesmo  e pelas circunstâncias, inclusive genética e ambientais. Por isso a sociedade é uma construção regida pelo princípio: "paz, trabalho e capital". O dever básico do homem hígido é trabalhar. Esse trabalho precisa ser cada vez mais eficiente usando o capital (as ferramentas de trabalho mais eficazes) e em ambiente de paz (as brigas, a insegurança da vida, da sobrevivência, o açambarcamento dos bens pelos mais fortes com prejuízo dos mais fracos, são os grandes entraves ao progresso, ao bem-estar, à riqueza de todos e de cada um).

Paulo Guedes opta pelo liberalismo. A Constituição Brasileira optou pela Social Democracia.

Eu prefiro a Social Democracia da Constituição Brasileira.

O importante mesmo é que se evitem os excessos. O desastre liberal foi a liberdade excessiva que degenerou em anarquia e inviabilidade econômica. E o desastre Social Democrático foi excesso de intervenção estatal que engessou a economia.


quinta-feira, 22 de agosto de 2019

461.O Homem, Esse Animal Insaciável



A Humanidade é um verme terráqueo! Vive num ponto insignificante, indistinto, desse vasto espaço universal sob a ameaça de destruição de todos os tipos, desde os mortíferos ataques dos microrganismos, passando pelas ameaças de suas próprias armas de guerra atômica; pelo elevadíssimo nível da temperatura climática, atingível, segundo previsões de alguns entendidos, ainda em pleno intervalo da expectativa de vida da jovem geração humana atual, grau abrasante do hábitat natural que condicionou a explosão da própria vida humana sobre a paisagem terráquea; até pelos prováveis gigantescos impactos de asteroides; e findando nos mais que antevistos formidandos entrechoques galácticos; ou em hipercolossal tragada do vizinho  buraco negro da Via Láctea..

O destino da Humanidade é com certeza o fim, numa data, espera-se, longínqua, se a Humanidade, sobretudo, as lideranças políticas, tiver sensatez suficiente, e os pesquisadores científicos e os técnicos inventores possuírem a competência exigida para o perfeito exercício de suas atividades desbravadoras do desconhecido e construtoras do progresso. É, por isso, que não me canso de valorizar o profundo pensamento estoico de Virgílio, o monumental vate latino: “Feliz o homem que compreende a existência e controla toda a sua angústia, o inelutável destino e a tragédia da morte!”

O Homem é verme terráqueo de tremendo poder imaginativo que, destaca Yuval Noah Harari, conseguiu utilizá-lo para eliminar outras espécies animais até fisicamente muito mais poderosas e outras espécies humanas, e, assim, reinar soberano neste minúsculo e insignificante ponto do Universo! Esse poder imaginativo, que elabora instituições de formidável poder criativo e adequado a circunstâncias e propósitos, explica toda a História da Humanidade, especialmente esta última fase, a atual, a Era da Modernidade, estes últimos seiscentos anos dos já duzentos mil anos de existência do Homo Sapiens.

E esse extraordinário poder imaginativo é utilizado permanentemente na tarefa ininterruptamente empreendida para sua sobrevivência, de sorte tal que, no estudo da Economia, afirma Thomas Sowell, a primeira lição é sobre a escassez, observação comprovada na exposição dos manuais dos grandes mestres atuais da matéria, como Krugman e Mankiw. Fato esse explicável por aquele outro, que já consideramos em texto anterior, a Economia radica-se na Psicologia.

Como escassez, se hoje os celeiros se acham abarrotados de alimentos e os armazéns repletos de todo tipo de produtos, até mesmo o vizinho espaço aéreo e a estratosfera são ocupados continuamente pelo Homem e seus mirabolantes artefactos, que satisfazem até os mais estranhos desejos humanos?! É que o homem é um ser insaciável, que passa de um desejo a outro, em permanente estado de necessidade. Até no sono, estado de inconsciência, está em processo de satisfação de uma necessidade. Cada instante da vida humana é a fruição de um bem, a satisfação de uma necessidade, a consecução de uma vantagem. Até o suicídio é a fruição de uma vantagem, de uma utilidade! A Economia se enraíza profundamente no fenômeno psíquico da motivação, aspecto sob o qual os livros modernos de Psicologia estudam as decisões humanas, alheios estes ao conceito tradicional do livre arbítrio, conceito fundamental da Economia liberal, do liberalismo econômico!

O liberalismo econômico funda-se num fenômeno psíquico cuja engrenagem anatômica e fisiológica o homem ainda nem sabe explicar perfeitamente. A vida humana é entendida pelo economista como continuo encadeamento de decisões por obter vantagens, as coisas mais úteis para realizar a vida da forma mais plena e feliz a cada instante, após ponderar o que usufruir e o que renunciar a cada momento da vida, exatamente porque a cada instante da vida há um limite de fruição: não posso tudo fruir ao mesmo tempo. O tempo é limitado para o exercício pleno da vida! O tempo é o bem escasso por excelência!  

A vida é um encadeamento de decisões, de opções, de aquisições e de renúncias. A Economia, a produção e a distribuição dos bens, é dele consequência, na forma que hoje existe, a economia de mercado, da troca de bens entre os indivíduos, e fulcra-se exatamente nesse ponto nevrálgico das relações humanas: o homem sábio procura a cada instante extrair a maior utilidade do momento presente. Lucro máximo a cada decisão, a cada instante da vida!

Exatamente a máxima que outro grande vate latino, Horácio, legou imorredoura à posteridade e, já adulto, com ela me deparei esculpida no alto da parede de entrada de pequeno negócio em modesto shopping center de Copacabana: “carpe diem!” Usufrui ao máximo do dia de hoje! 

Ciência e arte poética se agregam para fundamentar, em ainda obscura área do conhecimento psicológico e neurológico, toda a doutrina do liberalismo econômico que determina a estrada da vida para bilhões de pessoas, vida feliz, com a satisfação de todos os desejos para alguns, ou vida infeliz, com a privação da satisfação das necessidades mais básicas da vida para muitos!!

A Vida é luta permanente, de todos os instantes, contra a tragédia cotidiana da incerteza! A vida é a angústia, de todos os instantes, da fruição de um presente feliz, o mais feliz, que se prolongue por um futuro de dimensão irremediavelmente incerta!  A morte é certa, certo o fim dessa maravilhosa cornucópia  de incessante turbilhão de luzes, cores, sons, odores, sabores, realizações, fantasias e passatempo, em que consiste a Vida, construção e conquista individual de cada ser humano, mas incerto o seu instante!







quinta-feira, 15 de agosto de 2019

460. A Jovem Ciência Econômica


Há múltiplas definições da ciência econômica. Uma delas é o estudo da produção e da distribuição dos bens e serviços.

A economia, tal qual existe hoje, nem sempre existiu. Durante 130.000 anos, os homens viveram ao relento ou entocados em grutas, e eram meros coletores de frutos e caçadores de animais. A Terra praticamente tudo produzia. Passaram-se outros 20.000 anos, em que o homem aprendeu a comunicar-se através de símbolos, da linguagem, a Revolução Cognitiva.  Transcorreram outros 40.000 mil anos e os homens aprenderam a criar animais, plantar vegetais e guardá-los para satisfazer necessidades futuras, a Revolução Agrícola. A Terra ainda praticamente tudo produzia. Por fim, mais uns 4.000 anos decorridos, ocorre a Revolução Civilizatória, o Homem aprende a viver em grandes grupos, em cidades e a escrever, a comunicar-se por símbolos gráficos representativos de símbolos vocais e de estados interiores da mente. Durante uns l2.000 mil anos, o Homem Civilizado viveu, sobretudo, do que a Terra, propriedade de uns poucos, produzia, coadjuvada pelo trabalho de outro numeroso grupo de homens, os escravos, propriedade daqueles, que negociavam, trocavam entre si, os excedentes a suas necessidades pessoais e familiares. Mais 1.500 anos transcorreram, o primeiro milênio e meio da Era Cristã, em que, sobretudo a Terra produzia e uns poucos eram ricos, os proprietários da Terra, para os quais uma multidão de outros homens trabalhava em troca do sustento para a sobrevivência, em regime de servidão.

Nos últimos séculos desse período, cidadãos de cidades do norte da Itália e, logo posteriormente da Suíça e dos Países Baixos, descobriram que poderiam ser ricos, igualmente tão possuidores de minerais preciosos, dinheiro e bens de todo tipo desejados, valorizados e procurados, quanto os proprietários de terra, somente negociando os bens produzidos pela Natureza e  pelo Homem, produtos agrícolas e manufaturas, até mesmo o dinheiro e os contratos de compra e venda. O comércio enriquece! Um lampejo de liberdade comercial! A produção humana e o comércio livres enriquecem! A produção humana se desenvolveu.

Em 100 anos, os comerciantes ricos das cidades construíram marinhas mercantes que transpuseram os mares interiores da Europa e construíram o mercado planetário. Em 100 anos os países dos comerciantes ricos, Inglaterra e Países Baixos, constroem uma marinha de guerra que transfere a hegemonia política e econômica mundial da Espanha para a Inglaterra. Em 200 anos, os países e principados dos comerciantes ricos, Inglaterra, França, Países Baixos e Norte da Itália consolidam o desenvolvimento do conhecimento científico. Em 300 anos, os comerciantes ricos dos Estados Unidos formam o primeiro país, depois da cidade-estado de Atenas, sem rei, e os comerciantes ricos da França, os burgueses, induzem o povo a decapitar o rei, revolta essa que propaga pelo mundo esse novo estilo de governo, o governo democrático, a Revolução Política. Em 400 anos, os comerciantes ricos transferem grande carga de trabalho dos ombros dos homens, do lombo dos animais, do vento, das quedas d’água, para a máquina a vapor, a eletricidade, para o motor deslocável movido a petróleo, comunica-se instantaneamente pelo telégrafo por fios sobre a terra e sob os oceanos, fala com outras pessoas ausentes, á distância, pelo telefone sem nem as ver, vive à noite em cidades iluminadas feericamente pela eletricidade e entrevê um mundo de divertimento e encanto cinematográfico. O Homem, assombroso feito, já produz mais do que a Terra! O citadino produtor e comerciante é mais rico que o proprietário de terra e deste adquire terra para produzir matéria prima para sua indústria e para enriquecer vendendo seus frutos.

A produção humana construiu palácios, catedrais, fortalezas, armamentos, exércitos, países, marinhas comerciais e bélicas, internacionalizou o Planeta, e até mudou a agricultura, fez as mesas mais fartas e as casas mais opulentas! A atividade comercial humana fez a Terra mais fértil. Revolução industrial! Laissez faire! Laissez passer! (Deixa fazer! Deixa passar!) Produção livre! Comércio livre! Esta foi a revelação assombrosa que provocou o surgimento dessa nova ciência, a Economia: o trabalho humano livre de controle, sem coordenação (laissez faire! laissez passer!), enriquece e faz poderosas as nações! A estupefação de Adam Smith gerou o seu livro famoso, considerado marco inícial da investigação científica, denominada Economia: A Riqueza das Nações! Como pode a  anarquia, a ausência de governo, a desordem gerar a fartura, a opulência, a riqueza, o poder das nações?!

Toda essa fabulosa história recente de poucos séculos passados é, na minha opinião, o que embasa esse mais breve e importante artigo da Constituição Brasileira, e tanto, que também constitui um capítulo, o primeiro, do mais importante título dela, o último, o Título VIII – Da Ordem Social, que enfeixa a fixação do fim para que o Povo Brasileiro decidiu conferir existência ao Estado Nacional, o artigo193:  A ordem social tem como base o primado do trabalho, e como objetivo o bem-estar e a justiça sociais.Como eu amo essa Constituição e como venero esse monumental artigo193!



quinta-feira, 8 de agosto de 2019

459. Economia e Psicologia



Abro o livro “O Livro da Economia”, editado em 2012 na Inglaterra por um grupo de estudiosos, interessados em assuntos econômicos. Leio, nas páginas iniciais da introdução a seguinte citação de Galbraith, prolífico economista canadense, que prestou relevante contribuição para o êxito da monumental atividade econômica  norte-americana durante a Segunda Guerra Mundial: “Na economia esperança e fé coexistem com grande pretensão científica e também um desejo profundo de respeitabilidade.”

A respeitabilidade, no meu entender, reside no fato de que a economia é uma ciência que surge numa sociedade em que se decide acabar com a pirataria, com a violência, com a extorsão. O solo social, onde viceja a Economia, é o da convivência pacífica, onde todos os homens se aglomeram abdicando do uso da violência. Não há lugar para o príncipe poderoso e esperto de Maquiavel. Foi essa a grande, e ainda hoje respeitada intuição de Bismarck, ao erigir o instituto da Previdência Social: pacificar para existir, sobreviver e progredir. A Previdência é valioso meio de construção da sociedade!

A Economia, portanto, é uma ciência que analisa o comportamento de uma sociedade altamente civilizada, de uma sociedade que soube aglutinar multidão de desiguais, e é competente para permanentemente sanar descontentamentos e estancar surtos de desagregação, ocorrências inevitáveis, porque a sociedade é a convivência de milhões de desiguais, em contínua expressão de desejos, convergentes ou divergentes, gerando milhões de complacências e também de conflitos: a mesma alimentação, ou não; o mesmo trabalho, ou não; o mesmo descanso, ou não.

De fato, Galbraith realça com razão, que a ciência econômica se nutre, fincando suas raízes nas regiões da mente em que imperam esperança e fé robustas na capacidade humana de construir uma Humanidade, onde convivam, civilizadamente, sem desconfianças mútuas, abdicando de armamentos genocidas, Trump. Bolsonaro, Maduro, Merkel, Isabel II, Putin, Xi Jimping, Kim Jong-Um, Benjamjn Netanyahu e aiatolá Hassan Rohani.

Mas, a Economia não se ocupa em analisar o conteúdo mental desse comportamento. Isso é o objeto próprio de estudo da Psicologia. A  Economia assume como realidade a autonomia humana individual, a tão falada e tão sagrada liberdade humana, apanágio da dignidade humana individual! Essa questão é debate entre psicólogos e neurocientistas. A Economia prescinde da disputa investigativa sobre a realidade do livre arbítrio humano. Concorda-se sobre o óbvio: todo ato humano é predeterminado. Tudo que fazemos é produzido por ação imediata de uma força. E as forças, conscientes ou inconscientes,  atuam aos milhões, aos bilhões no interior de nosso organismo gerando insaciáveis e incessantes necessidades e provocando ações direcionadas a assegurar a persistência na vida ou melhorá-la, progredir.

A Economia concentra-se em conhecer como funciona esse mecanismo básico de produção e distribuição de bens para satisfazer as necessidades mais básicas dessa pirâmide de oito níveis que Abraham Maslow identificou na mente humana: sobrevivência e segurança.

Razão, pois, assiste ao grande pensador Galbraith em afirmar que a Economia é uma ciência envolvida em fé, fé no relativo valor do conhecimento humano, fé na Psicologia e na Neurologia, e, sobretudo, esperança em que possa contribuir para um futuro mais feliz e esplendoroso para a Humanidade.

Costumamos lançar confiante olhar de esperança e reverência para a  Ciência médica, porque nos conserva a vida reparando os desgastes anatômicos e fisiológicos do corpo e da mente.  Não menor reverência merece a Economia que nos assiste cotidianamente, persistentemente em preservar e melhorar a vida, fornecendo-nos tudo de que precisamos para tentar sobreviver, até o remédio e o médico, porque a Vida é aquela que nós os homens a fazemos, EU E MINHAS CIRCUNSTÂNCIAS, como ensinou Ortega Y Gasset.

A Economia é uma conquista, uma conquista de todos, eu e minhas circunstâncias! Fé, Esperança e trabalho, de TODOS!







quarta-feira, 31 de julho de 2019

458. A Felicidade do Cidadão Grego



Logo que o Capitão Jair Bolsonaro foi eleito presidente da República do Brasil, o noticiário jornalístico propalou que o ex-Presidente do Brasil,  Fernando Henrique Cardoso, erudito de nível internacional, manifestara a opinião de que o Brasil praticara movimento de regressão política. Não sei, é óbvio, o que o ínclito personagem de nossa história nacional e sul-americana retinha na mente quando e se, de fato, emitiu tal opinião.

Não me parece estranho que a haja proferido, embora haja sido ele um dos constituintes mais ativos na redação da atual Constituição nacional, que foi conscientemente implantada sem o referendo popular e relutantemente introduzida por uma homenagem à Divindade.

O fato concreto é que o governo do Capitão orienta-se por um princípio propositadamente ostensivo, que pretende focar para a estrada que deve seguir ao longo de seu período governamental: “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos.”

Claro que esses dois princípios chocam um sábio profundamente informado da evolução social por que passou o mundo político em permanente mutação. O mundo político hoje é um mundo intensamente universalizado. Até a Coreia do Norte e o Irã ameaçam o mundo com armas de longo alcance precisamente teleguiadas e efeitos mortíferos universais.  Sente-se vivamente a necessidade de uma harmonia universal, porque o mundo hoje é habitação única, sem separação geográfica e natural,  de uma espécie animal, o Homem! Implantou-se a Liga das Nações em 1919, substituída em 1945 pela ONU, com a pretensão de agregar toda humanidade numa convivência civilizada, humana, pacífica, onde todas as discordâncias se resolvessem com justiça, a igualdade das diferenças, a harmonia dos interesses discrepantes, a paz entre o eu e o outro, de Lacan, ou o a união entre o sim e o não de Hegel no presente que é mutação, não é passado nem futuro, simplesmente é, a união entre o indivíduo e o Estado, o indivíduo feliz e o Estado rico, próspero.

Esse projeto se acha consagrado no minúsculo artigo 193 que, solitário, é o capítulo I do título VIII – Da Ordem Social. a finalidade da Constituição brasileira, a finalidade do Estado, a razão de ser do Estado brasileiro, harmonia entre os interesses privados e publico, harmonia entre o indivíduo e a coletividade:

Esse projeto se acha expresso na bandeira nacional, a única bandeira nacional que exibe um dístico, “Ordem e Progresso”, dístico que é parte da expressão maior em que Augusto Comte, um dos luminares da Humanidade, resumiu o que ele entendia ser uma sociedade humana, uma sociedade civilizada: “A Fraternidade como fundamento, a Ordem como meio e o Progresso como objetivo.” Ali está não apenas como lembrete permanente do que queremos, mas igualmente como ostentação do orgulho que sentimos em realizar esse projeto grandioso, a realização de uma coletividade feliz e progressista, onde todos os indivíduos se sintam realizados e confortáveis, mens sana in corpore sano, “sem dor no  corpo e sem angústia na alma”.

Não me permito, pois, entender os propósitos do combativo militar e político brasileiro, hoje Presidente da República como um regresso à época dos soberanos absolutistas do século XVIII, L’État c’est moi”! Muito menos uma regressão à Idade Média, ao final do primeiro milênio aos tempos do Papa Nicolau I, o Papa, Vigário de Deus, e Imperador do Mundo, Soberano do Sacro Império Germano Romano!

Entendo que Jair Bolsonaro, o revoltado capitão, que personificou o desconforto do povo brasileiro em desesperançoso momento de depressão profunda, esteja apenas tentando reconduzir a nação para trilha pavimentada por aquele ideal quase trimilenar de civilização que a Humanidade viu bruxulear, no paradisíaco território grego e que ora pervade os quatro cantos do planeta.

A Civilização Ocidental, essa que ora ocupa a totalidade do planeta Terra e nutre a convivência de toda a Humanidade, brotou como cidades-estados, notadamente a de Atenas, assim chamada porque se julgava protegida pela deusa da temperança, da medida, da justiça, da inteligência, da reflexão e da sabedoria. Nela, os cidadãos, que se julgavam civilizados, se viam diferentes dos bárbaros, isto é, egípcios, persas, líbios, citas, porque eram livres e sábios. O cidadão grego não se submetia a outro homem, somente à lei que ele entendia ser a ordem universal que Zeus, o deus supremo, impusera ao Universo, inclusive  a deuses outros e aos homens, a vontade divina, justa e sábia. Dessa forma, o cidadão grego nada mais fazia que dedicar-se à ginástica e à dialética, para aperfeiçoar o corpo e a alma, e, assim, são de corpo e alma, tornar-se o guerreiro habilidoso e corajoso, apto para defender a Cidade contra os inimigos e o político sábio, capaz de atingir o conhecimento das leis divinas que regem a Cidade no trabalho dialético de investigação da Justiça no diuturno convívio harmonioso e feliz dos cidadãos. Cidade feliz e cidadãos felizes.

Síntese perfeita do indivíduo e do Estado, da liberdade e da ordem, da liberdade na ordem para o progresso nacional e universal, bem como para  a felicidade e a realização pessoal.