sábado, 1 de agosto de 2020

505. Jean Charles Leonard Simonde de Sismondi


            Jean Charles Leonard Simonde de Sismondi foi cidadão suíço, filho de um pai abastado e religioso, que perdeu a fortuna. As vicissitudes da vida fizeram-no viajar. Foi bancário na França. Morou na Inglaterra. Foi produtor rural no norte da Itália e retornou a Genebra, sua cidade natal, onde se tornou escritor, historiador, economista e partícipe da administração citadina. Na História da Economia, ele antecedeu a Karl Marx, influenciando no pensamento econômico deste, que o menosprezava, todavia, como pensador burguês.
Culto e abastado, percebeu o alcance do pensamento econômico de Adam Smith, e escreveu um livro, “De la Richesse Commerciale”, expondo-o: “...os interesses particulares assim que se veem livres, conduzem naturalmente ao bem-estar geral... de todos os obstáculos que detêm o avanço da indústria entre os povos da Europa moderna, aqueles que lhe causam maior dano são nascidos da mania de quase todos os legisladores em almejar dirigir o comércio.”
O amplo conhecimento histórico adquirido ao longo dos anos e a observação constante do ambiente social vivenciado, no entanto, alimentaram discordâncias da teoria do livre mercado, e fizeram percebesse que a mão invisível do mercado juntamente com o abastecimento do mercado, promove desarmonia, discrepância do interesse individual com o interesse coletivo. E provocaram, assim, a produção de sua obra prima, o “Novos Princípios de Economia Política”, que expõe as posteriores discordâncias com relação à teoria econômica de Adam Smith, pretendendo ser a teoria econômica correta: “Depois de quinze anos que escrevi sobre a Richesse Commerciale, pouco li os livros de economia política; mas não cessei de estudar os fatos. Muitos deles pareciam-me rebelar-se contra os princípios que eu havia adotado. De um momento para o outro, porém, eles passaram a se encaixar, a explicarem-se uns aos outros pelo novo rumo que dei à minha teoria.”
Sismondi; contrariando a própria percepção que de si tinha – “Partirei desse mundo sem haver deixado nenhuma impressão e nada será feito” - deixou seu nome imortalizado contribuindo para o consenso científico de que o progresso econômico não é marcha tranquila e constante para o progresso, mas escalada aventurosa, entre deflação e inflação, recessão ou depressão e expansão, ou como se expressa o Livro da Economia, de forma lúdica, corriqueira e intuitiva, de que “a Economia é um iô-iô. Naquela época, século XIX, o pensamento de Sismondi se opunha ao de Say, enquanto hoje os pensamentos desses dois autores se conciliam nos manuais de Economia, aquele  tratando da Economia num contexto de curto prazo (os ciclos econômicos), e este no de longo prazo (a tendência para o equilíbrio).
A teoria econômica de Sismondi se fundamenta na sua concepção de que a atividade econômica objetiva a felicidade de toda a população de um país: “Os italianos buscavam o bem de todos, não apenas dos senhores às expensas dos escravos ... A partir do momento em que eles formaram seus próprios governos, e os formaram para o bem comum, eles prosperaram: enquanto as demais nações sofriam, eles elevaram-se em inteligência e virtude”, enquanto a economia do livre mercado, fulcrada numa produção capitalista sempre superior à demanda, superabundância produtiva coexistente com subconsumo, somente funciona desequilibrada, proporcionando o bem estar a restrito número de capitalistas, e a desventura de ampla maioria de outras pessoas, principalmente da classe dos trabalhadores: “O lucro do empresário não é outra coisa senão uma espoliação do trabalhador que ele emprega. Ele não ganha porque sua empresa produz muito mais do que ela lhe custa, mas porque ele não paga tudo o que ela lhe custa... que se suas teorias tendiam a tornar os ricos mais ricos, tornavam, também, os pobres mais pobres, mais dependentes e mais espoliados...Esta opulência nacional, cujo progresso material nos ofusca a todos, terá, por acaso, trazido, finalmente, alguma vantagem para o pobre? De jeito nenhum...  Cuidado com essa perigosa teoria do equilíbrio, que deveria ser estabelecida automaticamente. Um certo tipo de equilíbrio, é verdade, é restabelecido a longo prazo, mas é após uma quantidade assustadora de sofrimento". 
Essa desigual partilha da produção se processa, em decorrência da própria engrenagem da concorrência, que incita o capitalista a permanentemente prosseguir, até mesmo nas épocas adversas: com sua produção: “Enfim, o próprio fabricante precisa de sua indústria para sobreviver e ele não renuncia a ela de bom grado; ele está sempre inclinado a atribuir a causas acidentais o declínio de seu comércio durante o ano anterior; e quanto menos ele ganha, menos se dispõe a se retirar dos negócios. A produção, portanto, prossegue ainda por muito tempo após ter satisfeito a demanda; e quando finalmente ela vem a cessar, não o faz senão após ter causado, a todos que a fizeram nascer, uma perda de capitais, de rendimentos e de vidas humanas que não se pode calcular sem estremecer “
                Com efeito, a mão invisível do livre mercado não esparge apenas benefícios, ela proporciona igualmente malefícios: “Peço, pois, que me prestem atenção: não é contra as máquinas, nem contra novas descobertas, nem contra a civilização que se voltam as minhas objeções, mas contra a moderna organização da sociedade, organização que, ao despojar o homem que trabalha de toda e qualquer propriedade, com exceção de seus braços, não lhe dá nenhuma garantia contra a concorrência, contra uma competição exacerbada que se faz em seu prejuízo, e da qual ele é necessariamente a vítima. Suponhamos que todos os homens partilhem igualmente entre si os produtos do trabalho para o qual concorreram e que toda nova descoberta na indústria represente, então, um benefício para todos eles, pois, após cada progresso na indústria, eles poderão, sempre, escolher entre ter menos trabalho e um repouso mais longo ou o mesmo trabalho e mais coisas para usufruir. Atualmente, não é uma nova descoberta que constitui um mal, mas a injusta partilha que o homem faz de seus frutos... a riqueza sempre tem por pressuposto a pobreza, e só se desenvolve na medida em que promove a pobreza...”
                Por sua vez, a economia capitalista propende, por sua própria natureza, â produção suberabundante  de bens de primeira necessidade:   “A multiplicação indefinida dos poderes produtivos do trabalho não pode, portanto, ter outro resultado que não o aumento do luxo ou dos prazeres dos ricos ociosos...  O prosseguimento de tal discrepância entre as respectivas composições da oferta e da demanda reverteria então numa disponibilidade excessiva de mercadorias seguida pela luta por mercados externos, dificuldades de venda, falências e desemprego, configurando uma crise de abarrotamento (engorgement) geral dos mercados. É extremamente importante observar que enquanto o efeito do aumento dos capitais é em geral concentrar os trabalhos em manufaturas muito grandes, o efeito das grandes riquezas é excluir quase totalmente os produtos dessas manufaturas imensas do consumo dos ricos ... Assim, portanto, pela concentração das fortunas em um pequeno número de proprietários, o mercado interior se estreita sempre mais e a indústria é permanentemente empurrada a buscar saída nos mercados estrangeiros, onde as maiores reviravoltas o ameaçam .”
Por fim, a intensa obtenção da produtividade via incremento de tecnologia maquinal  provoca o infortúnio da classe trabalhadora, aviltando-lhe o salário e lançando-a no desemprego: “Eles [os poderosos] devem perceber que existe na sociedade uma classe já numerosa e que tende cada dia a aumentar, para quem a presente ordem de coisas não proporciona quaisquer dos frutos da associação; eles são homens que, criando a riqueza pelo trabalho de suas mãos, jamais dela participam.”
                Assim Sismondi entende que o Estado tem um papel a desempenhar na área econômica, a de supervisionar o funcionamento da atividade econômica e tomar providências para que os desvios da normalidade sejam evitados ou corrigidos, a fim de que o desejado equilíbrio econômico de produção e consumo não seja prejudicado. Ele é precursor e inspirador do  pensamento econômico de John Maynard Keynes. Outro glorioso papel histórico de Sismonsdi é ser precursor e inspirador do Estado do Bem Estar Social. Ele advogava a interferência do Estado na defesa dos  economicamente fracos e pobres, legalizando os sindicatos, regulamentando o trabalho, fixando o salário-mínimo e o horário de trabalho, abolindo o trabalho infantil bem como obrigando os empregadores a garantirem aos trabalhadores os meios de subsistência em caso de desemprego, doença e velhice. 











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