sábado, 16 de novembro de 2019

472. Os Primórdios da Atual Economia de Mercado


A História das Ideias reporta-se a um período com o nome de Renascença, que abarca, de modo amplo, os séculos XV e XVI da Era Cristã, fim do século XIV e começo do século XVII. É o período de transição da Idade Média para a Idade Moderna, Renascença ou Renascimento, isto é, reinício de uma mentalidade em que a Humanidade, como nos áureos tempos das cidades gregas, do helenismo e do Império Romano, se orienta  na sua vida individual e nos seus relacionamentos individuais e grupais, pelo objetivo da fruição de uma boa vida terrena.


Findara-se a época das Cruzadas. Restabelecera-se o comércio das cidades italianas com o mundo árabe. Quando, então, se falava em Mundo inteiro entendia-se o Mundo Mediterrâneo, limitando-se, a Leste, às terras às margens do mar Negro e mar Cáspio, e à Rússia Europeia, onde se incluíam China e Índia; a Sul, à Ásia Menor e o Norte da África; a Norte, às terras às margens do Mar do Norte e Mar Báltico; e, a Oeste, às Ilhas Britânicas e às costas marítimas do Oceano Atlântico. Esse Mundo estava ocupado por cristãos em quase toda Europa e por muçulmanos na África, Ásia Menor e parte da Espanha.

Na virada do primeiro milênio da Era Cristã, apogeu do mundo feudal, a Europa, inclusive suas cidades, era propriedade de uns poucos reis, sustentados por grande número de senhores feudais aos quais doaram terras num pacto de defesa da soberania real. Esses feudos eram, pois, propriedades fortificadas de guerreiros e mosteiros (estes possuíam terras por doações dos proprietários que pretendiam assegurar, quando mortos, o ingresso no Reino dos  Ceus), que abarcavam até mesmo as antigas cidades do Império Romano, que haviam entrado em decadência, provocada pela insegurança diante dos ataques dos conquistadores bárbaros e árabes.

Como se vê a vida humana naqueles tempos medievais corria imenso e permanente perigo da parte da bandidagem local e da pirataria estrangeira de húngaros, normandos e árabes, inclusive nas cidades. O indivíduo humano sujeitava-se à servidão para garantir a sobrevivência. A vida das pessoas, pois, se circunscrevia ao âmbito do feudo, onde tudo o que se produzia era propriedade do senhor feudal. O mercado era, pois, reduzido ao escambo local e marginal de bens sobrantes dos reduzidos e necessários para a sobrevivência dos servos e a opulência dos senhores seculares e religiosos.

No século XIV essa situação já se modificara no Norte da Itália com a cessação das Cruzadas e das invasões normandas. Comerciantes das cidades do Norte da Itália já haviam voltado a viajar para comprar produtos onde eles eram mais baratos e vender onde eles eram mais caros, ou para produzir bens de que a população necessitava. O comércio cresceu, a indústria cresceu e a vida nas cidades se tornou mais livre e confortável que no campo. O surto econômico italiano contagiou o Mundo inteiro.

No curso de três séculos mudou a economia. A economia não era mais local, de sobras, e de escambo. Ela era mundial, monetária, capitalista, exercida por pessoas especializadas, que gozavam de vida abastada nas cidades, os burgueses, ou por associações de trabalhadores, que proviam a subsistência dos trabalhadores. Os comerciantes transportaram essa nova economia para toda a Europa, através de rios e mares, de barco impulsionado pelo vento, mas, sobretudo, a remo, ou por carroça puxada a cavalo por vias mal carroçáveis.  Os capitalistas fabricavam mercadorias em indústrias movidas a energia hidráulica ou eólica, os moinhos hidráulicos ou de vento. Brotaram as cidades nos estacionamentos das vias de transporte, nas encruzilhadas, nas vizinhanças dos mosteiros e dos castelos. O mundo inteiro da Renascença era um mercado mundial. Os banqueiros viabilizavam o pagamento nas diversas praças mercantis do mundo e financiavam o poder do papa sobre os reis, e dos reis sobre os senhores feudais, bem como suas guerras de extensão terrestre da soberania e acúmulo de riqueza.

O trabalho agrícola granjeou maior qualificação com nova modalidade de repouso da terra, mais extensão da tração bovina do arado, início do emprego da tecnologia do enxerto, e, sobretudo ampliou-se com a  derrubada das florestas (toda floresta da França foi abatida) e conquista de terras ao mar e o controle dos cursos d’água.

A sociedade modificara-se. Não mais se restringia a senhores e servos, nobres e plebe, ricos e pobres. A terra não mais era a origem única da riqueza. O comércio com ela competia, e até a suplantara. Existia, agora, a nobreza (reis, clero e senhores feudais seculares), burgueses (comerciantes e banqueiros ricos), trabalhadores associados, súditos e servos. Os burgueses já eram mais  ricos que os senhores feudais e até adquiriam terras dos fidalgos. Trabalhadores e súditos tinham condições de subsistência superiores às dos servos. Associações de trabalhadores, hunas e guildas, empolgavam o poder político das cidades, conquistavam-lhes a liberdade e democratizavam nível de vida superior para toda a população, inclusive a seguridade social, subsistência e saúde, para os inválidos. A burguesia se aliava aos reis para submeter os senhores feudais e conquistar a independência para as cidades. A vida na cidade era mais aprazível que nos feudos rurais e permanente atrativo para os servos.
A mentalidade da sociedade humana também se modificava. “A transição foi tão gradativa que somente depois de mais um século é que os homens começaram a sentir-se em um mundo diferente.”, afirmou Wiil Durant.  Dante Alleghieri, o último grande vulto literário da cultura medieval, é marco histórico da mentalidade agostiniana da Idade Média, com sua Divina Comédia, redigida em italiano, o idioma do povo, não em latim, o idioma dos literatos: o homem nada é, deus é tudo; o homem tem natureza perversa e propensa para a maldade, degenerada pelo pecado, mas Deus o ama e quer que pratique o bem e pode fazer praticá-lo; esta vida, pois, é época de prova e de expiação do pecado, abstendo-se da fruição dos prazeres da vida, e dedicando-se à adoração da Eucaristia nas vinte e quatro horas do dia; através da infusão da graça, Deus regenera a natureza dos eleitos e nele opera maravilhosas coisas boas, de modo que, uma vez mortos, ressuscitarão para a vida eterna feliz, no Ceu, na companhia de Deus, provavelmente passando por um período de purificação no purgatório, enquanto a multidão dos reprovados, que levarem a vida praticando o mal e esbaldando-se nos prazeres mundanos, passará a vida eterna nos mais tremendos e insuportáveis castigos existentes, no fogo do Inferno; a vida terrena é época de provação, de expiação dos pecados e preparação para a vida futura feliz na contemplação de Deus, no Ceu, após a morte; o cristão é cidadão da Cidade Celeste, ensinou Santo Agostinho.  

Nada obstante, Dante, essa grande personalidade de mentalidade profundamente medieva,l já emitia no século XIII sobre assunto político ideia dissonante da que o Papa abraçava. Ele escreveu o livro De Monarchia, onde defendeu a soberania do Imperador do Sacro Império Romano nos assuntos terrenos, limitando-se sua sujeição à soberania papal nos assuntos religiosos. Segundo Dante, a atividade humana distintiva é a atividade intelectual. Esta só se desenvolve em sua plenitude num ambiente de paz. A paz só se consegue através de um governo universal, único para o mundo inteiro. O governo universal é imagem terrena do governo celeste. Cristo nasceu sob o governo de Augusto para aprovar o governo universal, então, quase completamente realizado, cuja autoridade foi aprovada pelo próprio Jesus Cristo: “dai a César o que é de César.” Assim, a autoridade do Imperador do Sacro Império Romano não deriva do Papa, mas sim, da lei natural que põe a ordem nas coisas, e é a vontade de Deus em exercício. O Imperador do Sacro Império Romano, portanto, só se subordina ao Papa em matéria religiosa, sendo soberano nos assuntos da esfera terrena. Esse livro póstumo teve grande repercussão, foi queimado em público por ordem papal, permaneceu no Índex dos livros proibidos pela Igreja durante quase seis séculos.

Filipe, o Belo, rei da França decidiu impor tributo sobre o clero. O Papa discordou. O rei francês provocou a transferência da corte papal de Roma para a cidade francesa de Avignon, onde permaneceu por um século (o cativeiro de Avignon), provocando a existência simultânea de dois papas, sustentado cada um por santos da Igreja, e até três papas.

O frade franciscano Guilherme de Ockham afirma, naqueles tempos, que o universal não existe, só existe o individual. O universal é mero signo, sinal, nome. Ficou, então célebre, com a expressão de um princípio, que é básico no sistema científico hodierno, “a navalha de Ockham”: “não se devem multiplicar os seres desnecessariamente”. Não existe o movimento, existem coisas moventes; não existe substância, existe conjunto de qualidades; não existe causa eficiente nem causa final. Entre duas teorias científicas satisfatórias, a mais simples é preferível. Essas ideias individualistas de Ockham estão na origem do pensamento político liberal e da ciência experimental que hoje se praticam. E Ockham aplicou-as à disputa política do Papa e do Imperador: o Papa não recebeu de Cristo a plenitude do poder; se a tivesse recebido, ela seria a mais ampla escravidão possível, o que contraria o Evangelho, a mensagem da libertação. Não é o Papa nem os Concílios que formulam os dogmas cristãos, mas a Igreja, isto é, a comunidade dos fieis que os determina, pois esta é que é iluminada pelo Espírito Santo. Teocracia e aristocracia não se coadunam com a Igreja. Ockham se acha na origem do princípio do primado do indivíduo (a liberdade individual, a autonomia do indivíduo) que embasa o espírito ds modernidade, que gerou o direito subjetivo e a ciência do direito civil.  Suas teses foram condenadas e sua leitura proibida em Paris.

Em 1304 nasceu Petrarca, o Pai da Renascença, sobre o qual escreveu Will Durant: “O primeiro homem moderno, não só redescobriu o mundo clássico, como desviou o foco do sobrenatural para o mundo natural... moderadamente devoto, uma vez ou outra interessado na outra vida, ... criou o espírito da Renascença focado no homem e na terra, na legitimidade do prazer dos sentidos e na glória da morte como substitutivo para a imortalidade do indivíduo. Admite-se ter sido o primeiro humanista, o primeiro escritor a defender com clareza e vigor o direito de o homem a interessar-se por esta vida, de gozar e aumentar suas belezas e de esforçar-se por merecer o respeito da posteridade....” E Will Durant continua:  Em “De Vita Solitaria” louva a solidão como remédio que curava, mas não alimentava... Provocou o ódio da classe médica, exortando o Papa a precaver-se contra as receitas médicas. Acusava os advogados de criarem litígios sobre questões triviais. Esteve na iminência de ser excomungado pelo Papa. Escreveu De Otio Religiosorum e pensou ser monge... Em Trionfi, livro de poesias, exalta o triunfo do desejo sobre o homem, da castidade sobre o desejo, da morte sobre a castidade, da fama sobre a morte, do tempo sobre a fama, e da eternidade sobre o tempo. Pediu perdão pela sensualidade de seu amor. Escreveu “Do dever e das virtudes de um imperador”, “Remédios para a boa e má sorte”,  “De viris illustribus”, “Epistola ad pósteros” (autobiobgrafia). Em “De republica optime administranda” aconselha o senhor feudal não ser amo, mas pai, para seus súditos, amá-los como filhos; drenar os pântanos, prover o abastecimento de víveres; manter igrejas; cuidar dos enfermos e pobres; e proteger os literatos de cuja pena depende sua fama.

Will Durant prossegue esclarecendo: a Itália fora divida em cidades rivais pela história e assim a lava do ódio derramou-se por todas as avenidas da vida. Os homens pensavam em termos de  sua cidade e somente uns poucos filósofos, como Maquiavel, ou um poeta, como Petrarca, é que pensavam na Itália como um todo. Petrarca alimentava a esperança de que Rienzo uniria a Itália; quando essa esperança se desfez, voltou-se, como Dante, para o chefe do Sacro Império Romano teoricamente o herdeiro secular de todos os poderes temporais do Império Romano pagão no Ocidente. Petrarca procurou-o em Praga..., mas sem que tivesse conseguido resultados significativos para a Itália.

Will Durant adverte: não é preciso exagerar para se apreciar o grau em que Petrarca e Boccaccio escreveram em italiano, o idioma do povo, e prepararam a Renascença. Encontravam-se ambos ainda presos às ideias medievais... Mas de novo seria um erro exagerar as contribuições dos tempos antigos para aquele apogeu da Itália... Por conseguinte, todas as bases da Renascença foram lançadas ao tempo da morte de  Petrarca.                                                       

Boccaccio foi contemporâneo e amigo de Petrarca. Em Amorosa Visione, Boccaccio assim se expressa: “Não tenhais tanto receio de dizer que tendes um marido e que as leis sagradas e o juramento de fidelidade vos proíbem tais coisas. Isso não passa de conceitos inúteis e de objeções frívolas contra o poder de Eros, pois, à semelhança de um forte e poderoso príncipe, ele estabelece suas leis eternas; pouco lhe interessam as outras leis de estados inferiores, as quais considera disposições baixas e servis.”

O mais famoso livro de Boccaccio, o Decamerão (deca=dez, hemera=dia, dez dias, em grego) foi escrito sob o impacto emocional da peste negra, importada do Oriente com as pulgas dos ratos que acompanhavam as mercadorias importadas, e que devastou a população da Itália naquela época. São cem histórias, narradas, dez por dia, por um grupo de dez jovens, sete jovens italianas, nobres e ricas, que, após a missa, combinam fugir da contaminação da peste, fazendo uma excursão até uma vila no campo, em companhia de três belos e educados  jovens, ardentes no fogo do amor, que tinham acabado de entrar na igreja, em busca da suprema consolação, encontrar-se com três delas, suas namoradas. Levantada a hipótese de escândalo, essa objeção é repelida: “Sendo minha vida honesta e tranquila a minha consciência, pouco me importa a opinião dos outros.” Os jovens vivem dez dias de maravilhoso convívio numa linda região em uma maravilhosa na vizinhança de Florença, narrando cada um uma história por dia, sob esta norma: ”proibida a transmissão de qualquer notícia que não seja alegre.”

Já se disse sobre o Decameron: “O tema principal, sem dúvida, é sexo e adultério, mas sempre de uma perspectiva leve. .. .A obra, chamada por alguns de A comédia do sexo, foi desafiadora para a Idade Média ao mostrar a natureza humana como nunca antes na trajetória da literatura... É, por isso, considerada um marco literário na ruptura entre a moral medieval, em que se valorizava o amor espiritual, e o início do realismo, iniciando o registro dos valores terrenos, que veio redundar no humanismo; nele não mais o divino, mas a natureza, dita o móvel da conduta do homem...Boccaccio não está preocupado com dimensões divinas ou religiosas: seu tema é a vida humana tal como ela se apresenta, e nas cem novelas contidas no Decameron vemos abordados todos os seus aspectos.” 

Will Durant continua sua crítica: aos 37anos, Boccaccio não era cristão dogmático. Sua tolerância contrasta com a amarga intolerância de Dante, o qual condena Maomé a vivissecções no inferno. Na segunda história, o judeu Jehanar converte-se ao cristianismo com o argumento de que deve ser divina porque sobreviveu, não obstante as imoralidades e simonias praticadas pelo Clero. Boccaccio ridiculariza, não obstante o ascetismo, a pureza, a confissão, as relíquias, os sacerdotes, os monges, as freiras, e até mesmo a canonização dos santos. Uma das histórias narra que o Frade Cipolla, para obter boa coleta, promete apresentar aos ouvintes sacratíssima relíquia, a pena da asa do arcanjo Gabriel que caíra na câmara da Virgem Maria durante a Anunciação. A mais obscena das histórias conta como o jovem e viril Masetto satisfez todo um convento. Noutra após narrar o caso de adultério de Frei Rinaldo, o narrador interroga “Quais os monges que não praticam tais coisas.?” As damas do Decameron coram um pouco com tais histórias, porém divertem-se com seu espírito relesiano e chauceriano.

Boccaccio foi criado naquela alegria desprendida de Nápoles e quase sempre pensava no amor em termos sensuais. Conquanto se tivesse casado duas vezes, parece que acreditava no amor livre. Após contar uma série de histórias hoje inconvenientes faz um dos homens dizer às damas: “não notei nenhuma ação, nenhuma palavra, enfim nada que fosse digno de censura, quer de vossa parte, quer de nós, homens.” Concluindo o livro, o autor revela certas críticas feitas sobre a licenciosidade nele empregada e especialmente “porque “escrevi, em vários lugares, a verdade acerca dos frades.” E congratula-se com seu “longo labor, inteiramente realizado com o auxílio do favor divino”.

Will Durant resume sua análise: O Decameron continua sendo uma das obras-primas da literatura universal. Fama devida mais à sua moral, que à sua arte. Perfeitamente elaborado, estilo ainda não ultrapassado pela literatura italiana. Prosa, às vezes envolvente e florida, porém, em sua maior parte, eloquente e vigorosa, pungente e vivaz e clara. É um livro de amor à vida. No maior desastre que desabou sobre a Itália em mil anos, Boccaccio ainda assim encontrou em seu íntimo coragem para ver a beleza, o humor, a bondade e a alegria palmilhando a terra. Às vezes mostrou-se cínico, como  em sua cruel sátira às mulheres, no Corbaccio; no Decameron, porém, foi um alegre Rabelais que saboreava... os altos e baixos do amor e da vida.

Contemporâneo de Petrarca e Boccaccio, Coluccio Salutati,chanceler da República de Florença, escreveu: “Afirmo corajosamente que... deixo para ti e para quem eleva ao ceu a pura especulação todas as outrs verdades, desde que se me deixe a cognição das coisas humanas. Podes permanecer cheio de contemplação, mas que, ao contrário, eu possa ficar rico de bondade. Podes meditar por ti mesmo, procura o verdadeiro e regozija-te ao encontra-lo,,, que eu, ao contrário, esteja imerso na ação, voltado para o fim supremo. Que toda a minha ação sirva a mim, à família, aos parentes e, o que é ainda melhor, que eu possa ser útil aos amigos e à pátria, e possa viver de modo a  servir à sociedade humana pelo exemplo e pelas obras.”

Já no século XV, Paggio Bracciolini, igualmente chanceler de Florença, sustentava que ”cada um é artífice da própria sorte” e “a verdadeira nobreza é aquela que cada um conquista”. Leon Battista Alberti contrapunha as investigações morais às teológico-metafísicas  que considerava vãs. Exaltava o homem faber, a atividade humana voltada para o bem do indivíduo e também para o benefício da cidade, de todos os homens.: o homem nasceu “não para murchar jazendo, mas sim para estar de pé fazendo” e “a fortuna subjuga apenas a quem se lhe submete.” Lourenço Valla conclui o “Discurso sobre a falsa e mentirosa doação de Constantino”, sobre o qual a Igreja fundava a legitimidade   de seu poder temporal, fonte de corrupção, assim “ Que eu possa um dia ver... o Papa sendo apenas vigário de Cristo e não também de César!” Já se afirmou:  “Para Valla... a língua é a encarnação do espírito dos homens e a palavra é a encarnação do seu pensamento... Daí a sacralidade da linguagem e a necessidade de respeitar a palavra...Com Valla, o humanismo alcança uma de suas conquistas mais elevadas e duradouras.” E Pico dela Mirandola sintetiza sua teoria da dignidade do Homem: “A grandeza e o milagre do homem estão no fato de ele ser artífice de si mesmo, auto construtor.”

No domínio das ideias políticas o Renascimento é marcado principalmente pela influência do epicurismo e do estoicismo. A teoria aristotélica do Estado como ser natural é cada vez mais abandonada em proveito da teoria epicurista do acordo social. Já no século XVI, Maquiavel enaltece o governo forte e sem escrúpulos morais: o Estado é construção do homem, não é planejamento divino, organização, criação divina. O homem não nasce rei. Ele se faz rei.

6 comentários:

  1. TEXTO "1"

    Prezado Dr. Aristophanes, colegas de blog,

    [...] Os fundos de pensão acumulam contribuições calculadas sobre os salários e vencimentos, e seu objetivo declarado é assegurar aos assalariados, depois de aposentados, uma pensão regular e estável. [...] A escolha em favor desses sistemas foi e é mais do que nunca uma escolha política, escolha em favor dos mercados financeiros, cujas conseqüências, hoje, são conhecidas. (19)

    O fragmento de texto acima é de autoria do economista francês François Chesnais... Após a leitura do referido fragmento de texto chegamos a duas conclusōes:

    (1) Conclusão externa ou aparente : o objetivo declarado dos fundos de pensão é assegurar aos assalariados, depois de aposentados, uma pensão regular e estável.

    (2) Conclusão interna ou real: [...] A escolha em favor dos fundos de pensão foi e é mais do que nunca uma escolha política, escolha em favor dos mercados financeiros, cujas conseqüências, hoje, são conhecidas. Qual conclusão na prática vai predominar: a externa? Ou, a interna?

    Para tentarmos responder as duas perguntas acima, inicialmente parece-nos oportuno a leitura do seguinte fragmento de texto encontrado em trabalho de nossa autoria, que ora estamos finalizando :

    [...] Os dois primeiros fragmentos de texto, acima mencionados, foram retirados de duas obras do economista francês André Orléan. O primeiro fragmento de texto (28) consta de obra que teve sua divulgação inicial no ano de 2004, ao passo que o segundo fragmento de texto (18) teve sua primeira apresentação ao público no ano de 2011. As diferenças entre os dois fragmentos de texto estão apenas nas expressões em maiúsculo. Assim, no primeiro fragmento de texto (28) encontramos em maiúsculo a expressão "INTERESSE DOS ACIONISTAS". Por outro lado, no segundo fragmento de texto (18) temos em maiúsculo a expressão "INTERESSE DOS DETENTORES DAS AÇÕES". Tal distinção entre os dois fragmentos de texto evidencia a sutil evolução do pensamento do economista francês André Orléan de 2004 (28) para 2011. (18)

    Em outros termos, tal transgressão inicialmente concebida como de “INTERESSE DOS ACIONISTAS” (2004), passa alguns anos depois a ser concebida como de “INTERESSE DOS DETENTORES DAS AÇÕES” (2011), pelo mesmo autor. Em igual sentido, o terceiro fragmento de texto (9), disponibilizado ao público em 2009, está em sintonia com a interpretação encontrada no segundo fragmento de texto, qual seja: “INTERESSE DOS DETENTORES DAS AÇÕES”, pois a esses últimos foi concedida a “alocação dos recursos”, conforme podemos ler no terceiro fragmento de texto. Semelhantemente, parece-nos uma conclusão externa o "INTERESSE DOS ACIONISTAS", conforme antes vimos. Por outro lado, parece-nos uma conclusão interna o INTERESSE DOS DETENTORES DAS AÇÕES, conforme igualmente antes vimos.

    Continua

    ResponderExcluir
  2. TEXTO "2"

    Neste sentido, a figura dos “detentores das ações”, acima mencionada, é conhecida pelo nome de “agentes”. Entretanto, nos fundos de pensão os “agentes” são igualmente conhecidos por meio da expressão “proprietários MATERIAIS da poupança concentrada coletiva”, doravante “pMdpcc”. Entretanto, cabe-nos aqui chamar a atenção que em tal instituição social são figuras distintas os “detentores das ações” e os “acionistas”. Assim, nos fundos de pensão os “detentores das ações” são os executivos do fundo de pensão (“pMdpcc”), pois a esses foi concedida à alocação dos recursos, como antes vimos. Por outro lado, nesta instituição social os “acionistas” são os associados do fundo de pensão (ativos, aposentados e pensionistas), os quais são conhecidos igualmente por meio da expressão “proprietários FORMAIS da poupança concentrada coletiva”, doravante “pFdpcc”.

    Prosseguindo em nossa abordagem, no terceiro fragmento de texto encontramos a seguinte afirmação: “[...] e, principalmente, o destino das riquezas produzidas que, cada vez mais, se concentram em poucas mãos.” Compreender por que “[...] o destino das riquezas produzidas [...] cada vez mais, se concentram em poucas mãos” é o próximo passo de nossa abordagem.

    Neste sentido, outro ponto que observamos no terceiro fragmento de texto é de extrema importância para conhecermos um pouco mais daquilo que antes denominamos de “conspiração”, qual seja: o que define a propriedade é o “poder de alocação”. Entretanto, tal “poder de alocação” encontra sua principal fonte de alocação na figura dos títulos bursateis de “grande liquidez”, como vimos na primeira hipótese. Por seu turno, tal “fonte de poder” nos títulos de “grande liquidez” é encontrada nos mecanismos endógenos da liquidez. Neste sentido, o seguinte fragmento de texto antes mencionado na primeira hipótese:

    [...] A autonomia de que a finança goza neste plano (entretanto, de forma necessariamente passageira), baseia-se nos mecanismos internos de precificação dos preços dos títulos próprios aos mercados financeiros. Estes mecanismos, que são endógenos à liquidez, têm como efeito aumentar o valor nominal dos ativos ou créditos em virtude da vontade única do mercado, sem qualquer ligação com o verdadeiro estado dos indicadores “fundamentais”. (29)

    Continua

    ResponderExcluir
  3. TEXTO "3"

    Assim, a expressão “[...] e, principalmente, o destino das riquezas produzidas que, cada vez mais, se concentram em poucas mãos”, que antes vimos no terceiro fragmento de texto, quer nos parecer que está relacionada a certa expressão que acima vimos: “[...] em virtude da vontade única do mercado, sem qualquer ligação com o verdadeiro estado dos indicadores fundamentais”.

    Neste sentido, na primeira hipótese sustentamos que os extravagantes preços alcançados pelos títulos de “grande liquidez” eram fruto exclusivo de dois ingredientes: de uma “liquidez continuada” e dos “interesses dos agentes”.

    Por outro lado, parece-nos oportuno retornarmos à leitura do seguinte fragmento de texto encontrado no item anterior:

    [...] O retorno ao real nos devolve, em última instância, a exploração dos trabalhadores*, que é o verdadeiro “fundamento” da Bolsa. (22)

    *Se equiparam aos trabalhadores aposentados e pensionistas

    [...] Neste ponto de nossa tratativa parece-nos oportuno fazer uma pausa para colocarmos uma pergunta importante: por que o “retorno ao real” nos conduz ao verdadeiro “fundamento” da Bolsa: a exploração dos trabalhadores?

    - Porque a “manutenção em carteira” dos títulos bursateis de “grande liquidez” pelos fundos de pensão de forma quase que permanente é de interesse exclusivo dos “pMdpcc”, como veremos a seguir. Neste sentido, “o que define a propriedade é o poder de alocação”, como antes vimos. Entretanto, o “poder de alocação” pertence aos “pMdpcc”, como igualmente antes vimos. Logo, não nos parece equivocado sustentarmos que quanto maior for o tempo de alocação das ações de “grande liquidez” pelos “pMdpcc”, mais riquezas serão transferidas para tais “agentes”.

    Em outros termos, a “manutenção em carteira” pelos fundos de pensão de forma quase que permanente dos títulos de “grande liquidez”, listados na Bolsa de Valores brasileira, é um primeiro e forte indício de que o verdadeiro “fundamento” da Bolsa de Valores brasileira é a exploração dos trabalhadores. Neste sentido, a literatura técnica sustenta que são divergentes os interesses dos “pMdpcc” e dos “pFdpcc”, conforme adiante veremos. Esse é um primeiro indício de que tal instituição social é uma indústria ineficiente.

    [...] Frente a tais conclusões, não nos parece equivocado sustentarmos que a “poupança concentrada coletiva”** é uma indústria ineficiente. (21) Em outros termos, o fundo de pensão não é uma instituição eficaz, pois não faz as coisas certas. Portanto, o fundo de pensão não é fim; é meio! Logo, não nos parece exagerado começar a pensar na extinção de tal instituição social.

    **Fundo de pensão

    ResponderExcluir