segunda-feira, 12 de abril de 2010

146. O Estado Grande

Estamos criando uma sociedade onde a Cultura e o Conhecimento não figuram entre os principais de seus valores. Até não se tem pejo de, desprovido de Cultura e formação superior, candidatar-se ao exercício daqueles postos que detêm os poderes políticos supremos de decidir o futuro de toda a sociedade.
Não advogo o governo aristocrático. Acho que qualquer cidadão tem o direito de pretender governar o seu país. Perfilho aquele pensamento de Churchill: “A democracia não é uma forma perfeita de governo, mas até hoje a Humanidade não concebeu forma alguma de governo melhor que ela.”
Não é que os países, cuja forma de governo seja a democrática, consigam sempre atingir seus objetivos, ou mesmo sobreviver. Não. O que a democracia tem de bom é que iguala os direitos de todos os cidadãos – todos podem eleger e ser eleitos -, consagra a liberdade de expressão do pensamento, as minorias têm o direito de serem ouvidas e, ao menos em tese, coloca a origem do poder no povo e não na força, na riqueza, nem mesmo no saber.
Acho que o mais modesto cidadão tem o direito de candidatar-se aos mais altos postos políticos de seu país. Mas, nos tempos modernos, ninguém deveria pretender exercer esse direito, sem se preparar para exerce-lo. E essa preparação inclui, a meu ver, cultura ampla, abrangendo informações consistentes sobre os principais debates que a Humanidade já empreendeu nas áreas da Filosofia, da Sociologia, da Ciência Política e da Economia, pelo menos.
Isso serviria, ao menos, para se ter um pouco de prudência ao manifestar-se em público; para se mostrar menos afoito em doutrinar sobre coisas de que não entende nem sequer suspeita que, há séculos, milênios até, a Humanidade sobre elas debate sem as elucidar definitivamente; para não assumir atitudes professorais nessas questões controversas em público e nos diálogos com pessoas de formação cultural notoriamente superior; e para, sobretudo, decidir o que convém ao povo, cujos destinos governa.
Recentemente se disse neste País que se precisa de Estado Grande, porque ele evita a recessão e a depressão econômica. No entanto, o que a doutrina e a história da Ciência Econômica ensinam é que, na Economia de Mercado, o processo econômico sofre oscilações: há os tempos favoráveis e os tempos adversos.
Estado algum acabará com a recessão e a depressão na Economia de Mercado. Diz Paul Krugman que ela é característica do mundo industrial dos nossos tempos. Mas, outros economistas dizem que também na sociedade agrícola existem tempos favoráveis e tempos adversos, em razão de perturbações como as secas, as inundações, os terremotos, os maremotos e outras.
Já a Economia de Comando não conduz à riqueza nem ao progresso no longo prazo, exatamente porque freia a competição, a liberdade e a criatividade. Exemplos recentes da Economia de Comando terminaram ou na mais estúpida conflagração da História, ou no colapso político, ou no colapso econômico, ou em ambos.
Resta-nos o exemplo exitoso da China, economia de mercado sob a diretriz de um Estado Grande. É esse o exemplo que parecem querer seguir os líderes de vários países da América do Sul. Por enquanto, o Estado Chinês, prepotente e superpotência militar nuclear, consegue atrair capitais internacionais, ampliar o mercado doméstico, dominar o mercado mundial de bens de consumo sem notório escrúpulo com respeito às normas do comércio internacional e, até mesmo, controlar a insatisfação popular e reprimir a expressão livre de opinião. Mas, muitos economistas e cientistas políticos encaram a experiência chinesa com dúvidas sobre o sucesso definitivo do projeto híbrido, de economia de mercado e doutrina política única, que as autoridades chinesas vêm executando.
Seja como for, penso que o Estado existe só porque a sociedade dele precisa. As dimensões do Estado, portanto, têm limite: a necessidade da sociedade. E a sociedade existe para que cada indivíduo conquiste uma vida feliz. E a socidade pode precisar de mais e de menos Estado, na medida em que os indivíduos são ou não suficientemente educados para conviver. Na medida em que os indivíduos melhor saibam conviver, menos necessidade de leis, isto é, de Estado, tem a sociedade. O tamanho do Estado está na relação inversa do nível de moralidade da sociedade.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

145. Eu Sou Eu e Minhas Circunstâncias

Por que existimos? Há várias respostas. Eu prefiro a da convergência de circunstâncias favoráveis. Por que sobrevivemos? Prefiro aquela das circunstâncias favoráveis, juntamente com a iniciativa pessoal. Vivo nesta época em que a Humanidade goza de maior longevidade. Habito uma cidade onde não ocorrem terremotos nem tsunâmis. O trânsito ainda não me armou ciladas. Sobretudo, a Natureza me equipou com esse maravilhoso aparelho de informações, que é a Mente. E eu procuro usar a minha Mente para descobrir o que me faz bem, a fim de obte-lo, e o que me faz mal, a fim de evita-lo.
A Mente é estranho e precioso aparelho de informação. Ela nos faz conhecer o meio ambiente, sob o estímulo de energias geradas pelos objetos circundantes, as quais a atingem e provocam a reação cognitiva e a de preservação pessoal. A minha mente é muito parecida com a de todos os outros homens que existem e que existiram. Mas, a Mente não é um aparelho que se replica igualzinho em todos os indivíduos.
A Mente se modificou ao longo do tempo. Já houve a mente do homem das savanas africanas. A mente do homem das cavernas. A mente do homem andarilho. A mente do homem do fogo e da linguagem. A mente do homem místico das pinturas rupestres. A mente do homem da caça e da coleta. A mente do homem nômade do pastoreio. A mente do homem agrícola e da matemática. A mente do homem urbano e da escrita. A mente do homem da arte e da cultura. A mente do homem filósofo e político. A mente do cenobita. A mente do homem burguês. A mente do homem das descobertas. A mente do homem científico. A mente do homem industrial. E temos hoje a mente do homem do conhecimento, da informação e da comunicação.
A mente do homem de hoje é o estuário de todas essas mentes, as mentes que evoluíram, adaptando-se ao meio ambiente, e conseguiram, inclusive com a solidariedade de outros animais, o sucesso na corrida competitiva pela sobrevivência. Várias outras mentes humanas se extinguiram por carência de adaptação. Nós não temos garantido o sucesso na corrida pela sobrevivência. Nós temos que consquista-la, adaptando-nos e conseguindo parceiros que nos auxiliem nessa tarefa básica da sobrevivência. O sucesso na competição pela sobrevivência, também conta com parceiros, isto é, com iguais através do sentimento de amizade, da concórdia, isto é, do compartilhamento do mesmo coração, do espírito de grupo.
Assim, como existe uma Mente para cada época da História, também cada indivíduo humano tem a sua mente, parecida com a de qualquer outro indivíduo humano, mas também muito diferente da mente de qualquer outro indivíduo. A mente de cada indivíduo é formada por todas as circunstâncias que o envolvem, desde a fecundação até a morte. A mente do indivíduo humano é a sua história, que é indiscutivelmente única, singular. Cada indivíduo humano é o produto de indiscernível tessitura de infinitas circunstâncias, que produziu sua constituição genética, e da seqüência constituída por todas as experiências existenciais próprias. A mente humana é um processo. A cada dia, a cada hora, a cada instante ela se modifica.
Essa afirmação da Neurociência parece abstrata e inócua. Mas, de fato, ela é prenhe de resultados práticos e cotidianos. Ela é poderosa para a compreensão e cura das divergências e dos desentendimentos entre os indivíduos humanos. Ela é esclarecedora e corretiva dos comportamentos anti-sociais. Ninguém é dono da Verdade. Nós possuímos opiniões, conhecimentos subjetivos da realidade, que até podem ser conhecimentos bem fundamentados. Haverá sempre convergências e divergências entre as mentes de duas pessoas. Conviver é saber administrar as divergências. É querer enriquecer a própria mente compartilhando a visão do Mundo construída pela mente alheia. Conviver é ampliar os horizontes da minha representação mental do Universo.
Essa afirmação da Neurociência, portanto, esclarece a respeito da força poderosa de construção da harmonia social que é a Educação e, sobretudo, do poder modelador de indivíduos superiores, que é um meio ambiente social pacífico, cooperativo e progressista. Ela nos informa sobre a riqueza da coletividade humana, do espetáculo que é a singularidade do indivíduo humano. Ela esclarece quão difícil é conhecer-se e compreender o outro, mas que isso interessa à sobrevivência pessoal e da coletividade humana.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

144. Política Demográfica

Assombra-me país como o Haiti. Assombra-me a maioria dos países africanos. Assombra-me desastre como esse das regiões mais lindas do Estado do Rio de Janeiro e aquele de regiões tão operosas como as cidades do leste de Santa Catarina. Assombram-me favelas como em muitas das cidades brasileiras. No Haiti e na África, fome, ignorância, doença e morte. Vida sem qualidade. Isso não é vida. É náusea. Já é morte. É pior que a morte. Nas cidades brasileiras, fome, ignorância e proximidade de oportunidades de trabalho.
A fome no Brasil, encaro-a até como ignorância ou atitude sarcástica dos homens mais esclarecidos e, sobretudo, dos políticos brasileiros. Todos sabemos que muitos políticos por esse Brasil afora são pouco mais que alfabetizados, ou nem mesmo atingem esse nível. Há, ainda, em grande número, os que são políticos para se locupletarem. A filosofia básica desse tipo de pessoas resume-se nisto: só existe esta vida, salve-se quem e com o quanto puder. Noutras palavras, viver é poder. É a sociedade do Super Homem de Nietzsche. Ao Super Homem tudo, tudo mesmo, é permitido. O Super Homem está acima do Bem e do Mal. Para ele não existe direito nem moral. Melhor, o Super Homem faz a sua lei e o seu direito. É dono absoluto de seu destino.
Vejam bem. O Brasil possuiu o cientista que refletiu com maior clarividência sobre o fenômeno da fome, Josué de Castro. Ele achava que a Humanidade detém os meios de erradicar a fome. Ele não entendia como se podem empregar tantos recursos em construir arsenais de guerra cada vez mais sofisticados e mortíferos, enquanto pouco se aplica em eliminar a fome. Ele não entendia como se pode colocar a felicidade na adoção de estilo de vida de acerbado consumismo, enquanto se destrói o próprio meio ambiente que possibilita a vida e a existência humana.
O Homem é uma fase do processo evolutivo, que é a existência, a Natureza. Ele é produto do Cosmos, mais particularmente, de Gaia, como imaginavam os gregos. Um dia, a Terra acabará. Isso é inevitável. Mas, o Homem moderno está acelerando a marcha para esse término. Destruído esse útero, que é Gaia, desaparece a Terra Azul, desaparece o feto Humanidade. Ontem mesmo, sábio político brasileiro colocou o problema atual da Humanidade no seguinte dilema: ou se restringe o consumo ou se muda a matriz energética do planeta. Anteontem, ele se vangloriava de que o Brasil, com a descoberta das reservas energéticas do pré-sal, se tornará um dos maiores produtores e consumidores de combustível fóssil, em uma década!
Josué de Castro, de fato, como disse acima, admitia o fato básico da Economia: os recursos do planeta Terra são limitados. Ele também entendia que existe uma correlação, cujos limites são intransponíveis, como já pensava Malthus, no século XVIII, entre população e extensão geográfica, entre população e riqueza nacional e mundial, entre população e tecnologia. Afinal de contas, nada mais é que o princípio básico econômico dos rendimentos decrescentes.
Os gregos, há quase quatro mil anos, antes mesmo que surgissem os filósofos e os cientistas, entendiam que o Mal é resultado da hybris, do descomedimento, do descompromisso, e o Bem, resulta da Temis e da Diké, do comedimento e do compromisso, da Justiça e do Direito. A vida ruim é o estilo bárbaro de viver, do Homem Lobo de Thomas Hobbes, do Príncipe de Maquiavel (que mata até o mais longínquo descente do adversário) e do Super Homem de Nietzsche. A vida boa é a convivência, a vida civilizada, o estilo urbano de vida.
Por isso, Josué de Castro não ousava dizer que o Brasil é capaz de alimentar o mundo, incondicionalmente, seja qual for a população mundial ou o estilo de vida da comunidade humana mundial. Não podemos continuar abatendo florestas nem abrindo buracos no Brasil, na Ásia e na Austrália para construir Xangai ou Dubai. Não podemos explorar de forma superintensiva os recursos da terra brasileira para sustentar o estilo de vida tresloucado de norte-americanos, europeus, asiáticos, africanos, latino-americanos e brasileiros.
As vias terrestres, marítimas e aéreas suportam tráfego excessivo. Não se aumenta a população global nem se aumenta a produção de alimentos, como se faz hoje, impunemente sem avançar sobre as florestas e sem avançar sobre as terras férteis construindo megacidades inviáveis. Nascido o ser humano, incontrolavelmente ele se lança na luta pela sobrevivência e irá habitar onde puder usufruir condições de existência e adotar estilo de vida que as garanta, até mesmo, se preciso, encarando a coerção da lei. Não me admiro quando leio, hoje, que 57% da população da cidade de São Paulo, insatisfeita com os problemas das grandes cidades, nutre o desejo de mudar-se para cidade mais habitável.
Acho, portanto, que além da mudança do estilo de vida, faz-se também imperiosa a compatibilidade entre população e área terrestre, entre população e riqueza mundial, entre população e tecnologia, como pensava Josué de Castro. Sobre isso e sobre a mudança da mentalidade consumista para a mentalidade holista, os políticos não apreciam se pronunciar. E nesses famosos encontros internacionais, os políticos não discutem de boa fé. Eles são negociadores. Curioso que Hermes, o deus grego dos negociantes e dos jornalistas (do marketing), era também o deus dos embusteiros e dos ladrões.
Mas, Josué de Castro colocava no colo dos políticos, como não podia deixar de ser, a solução da fome. Ele achava, como também Kenneth Galbraith, que só a Educação seria o instrumento capaz de mudar a mentalidade das pessoas, e destarte se eliminasse a expansão demográfica e a sociedade consumista se fizesse substituir pela sociedade holista e humanista.
Josué de Castro divergia de Malthus e rejeitava o controle da natalidade. Da minha parte, não encaro a política de controle da natalidade como algo desumano e amoral. Acho que existe um tipo de controle da natalidade, digno de uma sociedade civilizada. Existe no mundo de hoje, países que utilizam meios desumanos para o controle da natalidade. Mas, outros existem que usam sistema inteligente e democrático de controle da natalidade. O importante, todavia, é, como também assim o pensa Anthony Giddens, que não se transpõem impunemente os limites de sustentabilidade dos recursos do planeta Terra.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

143. A Sociedade Que Queremos

Nenhum povo foi mais democrático que o da cidade-estado de Atenas. Lá houve democracia. Democracia direta. O povo reunia-se na ágora. Debatia o interesse público. Fazia as leis de acordo com o consenso obtido. Nomeava os delegados que ficavam incumbidos de aplicar as leis no período de governo subseqüente. Tanta era a democracia que o ateniense podia dizer pela voz de Péricles: Sou livre. Obedeço à Lei que eu fiz. Não obedeço a homens nem a leis feitas por outros homens.
Gregos famosos não apreciavam a democracia. Platão foi um deles. Aprendeu a apreciar a aristocracia com o maior dos gregos e o mais famoso filósofo de todos os tempos, Sócrates, que, por isso, foi condenado à morte. Sócrates foi considerado divulgador entre a juventude da ideia de que os deuses da Grécia e as normas democráticas da sociedade ateniense, recebidas de Atená, deveriam ser abandonados. A juventude ateniense deveria ouvir a respeito desse assunto ao deus que lhe habitava a mente, o daimon, e que lhe falava orientando como proceder. Sócrates propugnaria o individualismo. A supremacia da opinião própria em relação ao consenso da sociedade. Era assim que ao menos as autoridades de Atenas consideravam o grande filósofo. E daí a pena do suicídio. É significativo que a Apologia de Sócrates consista também na exposição de seu profundo apreço pela sociedade ateniense, a quem afirmou dever tudo o que era e tudo o que tinha.
A civilização ocidental de nossos tempos não admite outro sistema de organização política que não seja o democrático. Essa atitude é convencional e, enquanto entendo, foi assumida por circunstâncias históricas e culturais, fundamentada, sobretudo, na concepção filosófica da igualdade de todos os indivíduos humanos. Nada de reis, nada de nobres, nada de classes, todos os indivíduos humanos são iguais. Se todos os indivíduos humanos somos iguais, todos temos os mesmos direitos, todos mandamos e todos obedecemos, todos fazemos as leis e todos cumprimos as leis. Todos somos livres como Péricles.
Isto não é uma verdade absoluta. Nem Maquiavel nem Nietzsche a aceitariam. Acredito que na Coréia do Norte, na China, em Cuba e em muitos outros países esse princípio também não seja atualmente aceito, ou pelo menos ele é escamoteado. Insisto: a democracia é um valor social atual, porque a sociedade hoje acha que ela é o único sistema político condizente com a dignidade de um indivíduo humano livre. E talvez mais ainda, porque se pensa que não se pode obter uma sociedade, isto é, uma convivência pacífica entre indivíduos humanos, a não ser considerando que todos somos iguais. Por que eu iria aceitar conviver com o Príncipe de Maquiavel ou com o Super Homem de Nietzsche? Dessa forma, não se constrói uma sociedade, ela é imposta. Não se convive, subjuga-se.
Assim, a democracia é adotada porque ela é a mais justa, a mais digna e a menos constrangedora das formas de organização política. Isso não significa que seja a mais eficiente. Nas décadas de 30 e 40 do século passado, a Inglaterra foi tomada por uma onda de opinião favorável ao sistema econômico de comando, ante o exemplo de desenvolvimento alcançado pela Alemanha hitlerista. O Road to Serfdom de F. Hayek foi escrito em reação exatamente a essas idéias da economia de comando, que haviam conduzido a Alemanha e a União Soviética a elevado nível de desenvolvimento econômico. O Brasil também nunca alcançou desenvolvimento tão rápido quanto no período dos governos militares. E tudo do que o Brasil hoje se orgulha teve seu início e fundamento sólido naquela época. Os grandes investimentos públicos deste País foram feitos naquela época. E mesmo as grandes conquistas na área das instituições financeiras foram obtidas naquele período. E os historiadores afirmam que declínio político e econômico das cidades-estado gregas se deve, em grande parte, à democracia, dominada pelos interesses de comerciantes sem grande visão e morosa em tomar decisões que exigiam o consenso da população.
Compreendo, por isso, a preocupação dos democratas com tudo aquilo que significa cerceamento da liberdade de imprensa e da liberdade religiosa, desfazimento de acordos pregressos que dizem constar de certo projeto de planejamento social elaborado pelo Governo atualmente. Mas, não posso compreender como se pode reagir, numa sociedade que se diz democrática, a qualquer plano de tornar mais democrático o governo, abrindo espaço para a participação popular direta na elaboração das leis e no julgamento das infrações das leis.
Bertrand Russel e Chomsky acham que os representantes do povo incontrolavelmente se erigem em classe superior, privilegiada e dominante. E, por isso, o Governo deveria tender cada vez mais a desaparecer, o que seria o ideal. O próprio Jean Jacques Rousseau, aquele que acabou se tornando o grande formulador da criação da democracia representativa do mundo contemporâneo, dela dizia: “Os deputados do povo, portanto, não são nem podem ser seus representantes, são apenas seus delegados; não podem resolver nada definitivamente. Toda lei que o povo não ratificou pessoalmente é nula; não é absolutamente lei. O povo inglês pensa ser livre, mas engana-se fortemente; só o é durante a eleição dos membros do parlamento; tão logo esses são eleitos, ele é escravo, não é nada.”
Essa democracia direta funciona em pequenas cidades norte-americanas e suíças. Em Estados dos Estados Unidos da América o plebiscito é utilizado com freqüência para a aprovação de leis. A Constituição Brasileira prevê o plebiscito. Não entendo, portanto, a reação a que o povo brasileiro assuma o seu papel de legislador e governante. Será que temem o nível de instrução do povo brasileiro? Será que se teme a erradicação de privilégios? Será que se teme a decadência do País? É preferível uma democracia limitada como já se falou neste País? Será que se deseja que a democracia brasileira seja uma farsa, um faz-de-conta como tantas coisas importantes neste País? Não sei.
Sei que a democracia representativa é a convenção adotada pela sociedade ocidental no que diz respeito a sistema político. Sei que em vários países o povo tem maior participação direta na atividade de elaboração e promulgação de leis. Entendo que democracia genuína, de fato, é a democracia direta. Sei que a democracia é um risco, quanto menos instruído é o povo e mais descompromissado é o comportamento do povo com o bem da coletividade. Mas, que democracia é o governo do povo, isso eu sei que é, quaisquer que sejam as conseqüências.
E para aqueles que dizem que o sistema político da democracia direta é impossível, lembro as palavras de Albert Einstein: Algo só é impossível até que alguém duvide e acabe provando o contrário.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

142. O Mito

É óbvio que o mito é uma forma de pensar. Forma imaginativa de pensar. Também a Ciência, saber caracteristicamente racional, é uma forma imaginativa de pensar.
Conhecer é saber explicar as coisas que compõem o Cosmos, inclusive o próprio Homem. Nunca se pode dizer que se tem o conhecimento total, perfeito, completo, absoluto dos acontecimentos que nos rodeiam e dos que nos consubstanciam. O processo mais perfeito, que o Homem usa para explicar as coisas, consiste basicamente em imaginar uma explicação e observar se de fato ela explica as coisas para as quais ela foi imaginada. Consiste em construir um mapa mental imaginário e verificar se na realidade as coisas funcionam de acordo com esse mapa. Kant afirmou que este é o único conhecimento válido e que, portanto, o conhecimento humano verdadeiro e certo se limita àquele que pode ser comprovado pelo experimento.
Entendo, por isso, que a mitologia grega constituiu um dos primeiros e tímidos passos nesse processo, que é a construção do conhecimento humano. Os povos gregos primitivos eram agricultores, artesãos, piratas, navegadores, supersticiosos e propensos a reflexões. O povo grego tinha um fascínio pelas explicações dos fenômenos naturais e humanos. Essa propensão às explicações das coisas e do homem acabou conduzindo-o a produzir uma civilização, caracterizada pela atividade da razão na explicação do Cosmos e pela produção de uma arte marcada pela beleza idealizada.
O início desse processo, que durou praticamente um milênio, teve a sua primeira manifestação na produção de deuses humanizados, isto é, o panteão de deuses que nada mais são do que homens superdotados e imortais. Os gregos fabricaram deuses à sua imagem e semelhança para explicar o Cosmos.
Por que os gregos abandonaram aquela primeira intuição do Caos divino, fonte de emanação dos seres e desviaram o processo lógico para o ser inteligente, o Homem superior, fabricante da máquina cósmica? Exatamente, por isso, porque eles passaram a entender o Cosmos como gigantesco e perfeitíssimo mecanismo. Na rotina da vida cotidiana, era o artesão que fabricava as coisas novas, as novidades, que a Natureza não produzia. O artesão fabricava os artefatos agrícolas, as armas de guerra, os barcos, as jarras onde se guardavam o alimento e o óleo, as lamparinas que lhes iluminavam as noites. Os homens formavam bandos organizados de piratas, que partiam até para terras distantes, como a ilha de Creta e a cidade de Tebas, sob o comando de chefes inteligentes, disciplinadores e estrategistas exímios. Os homens construíam os agrupamentos humanos, as vilas e as cidades. Organizavam e governavam as cidades. Estabeleciam as leis e as normas de convivência urbana. A beleza, a justiça, a ordem, o bem estar e a organização da vida humana em convivência, a maravilhosa integração e convivência humana, nasciam da mente humana, da Razão.
Os gregos perceberam que havia no Universo formidável regularidade. A sucessão dos dias e das noites, o sol nascendo e pondo-se diariamente, a duração do dia e da noite modificando-se com regularidade. A sucessão regular do aparecimento e desaparecimento da lua, a sucessão regular dos meses. A sucessão regular e cíclica das estações. A sucessão regular dos anos. As fases e a regularidade da atividade agrícola. Os fenômenos extraordinários do nascimento e da morte. O processo regular de desenvolvimento dos indivíduos humanos, dos animais e das plantas. E a sucessão das gerações. Uma infinidade, enfim, de regularidades que fazem a existência das coisas viável e, quando captadas pelo Homem, tornam-lhe viável a existência.
Todos os fenômenos maravilhosos que constituem o Universo lhes pareceram seguir processos regulares, funcionando de forma tão perfeita, que eles o apelidaram de Cosmos, um universo organizado submetido ao comando dos deuses. Zeus comandava os deuses e os homens, o Céu (a região supraterrestre) e a Terra. Poseidon comandava os oceanos. Hefestos comandava o Tártaro (as regiões subterrâneas). Apolo, o sol, iluminava o Homem com a cultura, a ciência e as artes. Hera, esposa de Zeus, se intrometia na vida de Zeus e dos deuses, e também se enchia de ciúme irado contra as parceiras do esposo infiel. Atena, governava Atenas com o moral de chefe guerreira e a sabedoria de quem nascera da cabeça de Zeus. Deméter governava a produção agrícola. Marte determinava e comandava as guerras. Têmis distribuía a justiça, atribuía a cada um a parcela que lhe cabia por seus méritos ou deméritos. Colocava cada um no lugar que merecia, fazia o fogo e o ar ascender para seu lugar lá em cima, bem como a água e os corpos pesados descerem até em baixo. Os ventos eram deuses humanizados. As fontes emitiam os sons de suas Ninfas. O futuro era governado pelas Moiras. O panteão helênico era constituído de uma infinidade de deuses, um deus humanizado para cada fenômeno da natureza e para cada fenômeno da mente humana.
Essa mentalidade e essa religião estavam tão arraigadas no Ocidente que dominou a cultura ocidental durante um milênio. Nem os filósofos gregos conseguiram fazer com que a cultura helênica, aquela que dominou o mundo conhecido onde se originou o Império Romano, a ultrapassasse. Ao contrário, o Estado ateniense aplicou a pena de morte ao maior dos filósofos de todos os tempos, Sócrates, e forçou a fuga de outros, entre os quais o monumental Aristóteles, sob a alegação de que propagavam a descrença nos deuses da Cidade. Até o próprio Império Romano adotou o panteão helênico. Os exércitos romanos subjugaram a Grécia. Mas, a cultura grega e a religião politeísta grega subjugaram Roma. O panteão grego só foi destruído pelo Cristianismo, que chegou prometendo a fraternidade terrestre de homens divinizados e imortalizados, através do sangue derramado de um deus humanizado, Jesus Cristo, a concluir-se numa apoteose dos irmãos divinizados de Cristo na segunda, final e iminente vinda do Deus-Homem.
Mas, essa ideia de que o Cosmos é uma máquina admirável, que só pode ter sido produzida por uma mente semelhante à humana, mas muito superior a ela, uma mente portentosa, constitui tradição que já vem alimentando uma corrente filosófica por cerca de dois mil e quinhentos anos. Voltaire e Auguste Comte admitiram até uma religião natural que cultuasse o arquiteto do Universo. A prova da existência de Deus com base na existência da perfeição e harmonia cósmica ainda parece válida para muitos filósofos em nossos dias.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

141. O Cosmos


A ideia de que o universo é gigantesca máquina organizada vem, pelo menos, desde os primórdios da Grécia. Os grandes filósofos gregos estavam imbuídos da ideia de que o mundo era um Cosmos, isto é, gigantesco e organizado complexo de coisas.
Eles estavam evidentemente influenciados pela própria tradição de sua cultura, que sorviam no berço junto com o leite materno, através das explicações fornecidas pela mitologia grega. A primeira ideia curiosa nessa crença de um mundo cósmico consiste em colocar exatamente a origem do Universo no Caos. O Cosmo não foi criado nem mesmo gerado. O Cosmo não foi produzido do nada por um ser inteligente, um arquiteto portentoso, como afirmou Descartes e insistia Voltaire.
Não. Por mais absurdo que hoje isso nos pareça, para os inteligentes, mas crédulos gregos primitivos, o Cosmo, o gigantesco complexo de todas as coisas organizadas, originou-se exatamente do caos, do caos mais profundo que se possa imaginar. A organização poderia surgir da mais completa desorganização, a ordem podia surgir da desordem, a regularidade da anarquia, o determinado do indeterminado.
E mais surpreendente ainda, esse caos infinito era um Deus, sem forma alguma. Tão sem forma que era explicado como um grande vazio, um abismo infinito, ilimitado, uma escuridão sem limites. Mas, era uma escuridão que apenas significava a completa invisibilidade pela carência de forma, uma escuridão metafórica. Escuridão muito maior que a da Noite, que só surgiu em seguida, e possui, de alguma maneira, alguma forma. Nem a forma da escuridão da Noite o divino Caos dos gregos possuía.
Mas, esse Caos era energia, era força emanadora. E assim do Caos emanaram Geia e Eros. Geia, a Mãe-Terra, a fecundidade. Eros, a força de atração, a força fundamental do mundo, diz Junito de Souza Brandão. E o Caos, esse deus indefinido, sem a mínima forma e a mínima norma de ação, deu início ao processo de formação do Cosmos, o complexo gigantesco e organizado de todas as coisas. Mas o Caos era um deus, era energia produtiva.
E fico a sopesar a formidável potência imaginativa dos gregos, quando leio os atuais cosmólogos afirmando que no início somente existia toda a matéria hoje existente do Universo, condensada num ponto infinitamente diminuto, o plasma, a matéria informe, sob a formidanda potência infinita de energia, o Big Bang, o primeiro fenômeno cósmico, na origem do Universo, captado mediante os instrumentos de experimentação existentes. Segundo a ciência atual, exatamente como para os primitivos gregos, o Universo tem origem num processo energético de evolução organizadora. E Energia que possui na Massa sua ambivalência.
A própria Matéria, pois, passa do caos, da anarquia, para a organização, passo a passo, cada vez maior, sob as forças de atração e repulsão, ao sabor das circunstâncias, que criam possibilidades que o acaso concretiza e consolida, ou não, por certo tempo.
O Cosmo seria auto-suficiente? Seria eterno? A Ciência experimental deteve-se no Caos, esbarrando na Massa infinita ou na Energia infinita, que seriam o mesmo. Esse, pelo menos no momento, é o limite no tempo para a Ciência. Ela afirma que no início era o Caos, a energia infinita ou toda a massa no ponto espacial infinitamente pequeno, na forma plasmática, isto é, sem forma. Energia cuja essência é processo, é movimento, é difundir-se, como o Caos, o deus primordial da mitologia grega. Se o Caos é o próprio processar-se, precisaria ele de princípio? Precisaria ser ele ser feito, criado? Ele é o próprio fazer-se, transformar-se, processar-se, devir. Ele seria auto-suficiente, como afirmou Spinoza.

domingo, 8 de novembro de 2009

140. O Que É a Inteligência


A mente humana é insondável mistério. Os psicólogos narram que certa criança, chamada Alex, com claro desenvolvimento mental retardado, de repente, em razão de obstáculo às tentativas de ligar um ventilador, descobriu subitamente a razão de seu fracasso, e proferiu o discurso de estréia: Jesus Cristo! Esse ventilador não funciona! Desde aquele momento em diante, um discurso desenvolvido e parecendo adulto jorrou da boca de Alex como se tivesse sido armazenado lá, completo e prontinho para usar, apenas esperando pelo momento certo para irromper. Aos nove anos, seu vocabulário e seu domínio da gramática, sintaxe, modulação e ênfase eram tão bons quanto de qualquer adulto. Desde então, ele tinha ficado extraordinariamente confiante e extrovertido, circulando nos salões como um diplomata experiente em um coquetel. Em termos de conteúdo, porém, sua conversa nunca se tornou mais conseqüente que sua observação sobre o ventilador. E, bem provavelmente, nunca ficará. A síndrome de Williams é causada por uma mutação genética que produz acentuado retardo mental..., juntamente com extraordinária aptidão lingüística. Embora frequentemente exibam incrível intuição e empatia, o QI médio de pessoas com a síndrome de Williams fica entre 50 e 70... (transcrito do livro Mente, de Rita Carter, tradução portuguesa, editado por Ediouro).
Outros psicólogos descrevem as características físicas dos portadores da síndrome de Williams: baixa estatura na idade adulta, problemas odontológicos, voz rouca e problemas de postura (cifose e lordose).
Não tenho a pretensão de formular qualquer diagnóstico nem tenho autoridade científica nem profissional para tanto. Até mesmo concordo com a observação de que se estaria forçando o enquadramento.
Apenas acho que seja, em verdade, difícil definir-se o que seja a inteligência. Há várias teorias a respeito da inteligência. Alguns dizem que a inteligência é uma capacidade especializada e inerente ao organismo humano de decifrar e resolver os problemas práticos e teóricos com que o indivíduo humano se depara. Seria uma dádiva da natureza: o indivíduo nasce com ela. A maioria dos que defendem a teoria naturalista afirmam que uns nascem com mais inteligência e outros com menos inteligência. A Natureza produz o carisma, os líderes. E parece que essa abordagem é que está sendo, no momento, adotada por interessados, neste País.
Essa teoria já causou recentemente vítima entre os ganhadores do Prêmio Nobel de Medicina, quando James Watson foi constrangido a demitir-se do Laboratório de Cold Spring Harbor, simplesmente porque disse que ia pesquisar a relação entre inteligência e raça, já que suspeitava existir conexão da inteligência com o DNA. Nada há de democrático nessa abordagem. Ela é elitista. Nada mais distante do materialismo-histórico-dialético e da mentalidade dos progressistas e esquerdistas nacionais. Ela afirma que uns nasceram para mandar, para ser reis, e outros nasceram para serem comandados, para ser povo. É um retrocesso na História. Regride-se à Idade Média.
A afirmação de que inteligência é carisma não pode caber no discurso de quem é democrata e esclarecido. E é aí que a Universidade faz falta. Falta o conhecimento que a Universidade fornece para que o indivíduo tenha total noção do que está falando e fazendo. Sem Universidade torna-se difícil possuir o domínio sobre o próprio discernimento. O discurso varia conforme as circunstâncias e os interesses tal qual a biruta se move ao sabor dos ventos. Quem desconhece a Cultura, porque não se aprofundou através do estagio universitário, pode achar normal que se tenha um discurso quando se é oposição e outro quando governo, sobre a mesma matéria. Conhecimento faz parte da inteligência humana. Conhecimento é o processo mental metodicamente conduzido pela cultura acumulada pela Humanidade, ao longo de quinhentos milênios. O falecido líder esquerdista Leonel Brizola apreciava jactar-se de que sempre teve um discurso político coerente. Penso que ele queria dizer que tinha um conhecimento sólido, consciente, esclarecido dos assuntos de interesse público.
Sobreviver é socializar-se. E socializar-se é infundir a cultura no indivíduo humano, a cultura que nada mais é que o conhecimento acumulado por toda a Humanidade ao longo dos quinhentos milênios de sua existência. O indivíduo, que despreza a Universidade, renega todo o conhecimento humano – presente e passado – e se erige num ser humano quase divino, tal qual os gregos imaginavam os seus heróis. É simplesmente ridículo.
Outra abordagem dos que adotam a teoria da inteligência natural é a dos psicólogos progressistas radicais. Eles imaginam que todos nascem com a mesma capacidade mental, isto é, todos têm a mesma mente ao nascer. As influências do meio ambiente, interno e externo ao indivíduo, é que desencadeiam o processo de diferenciação da inteligência individual. Todos os fatores internos e externos, físicos e sociais, moldam a inteligência e determinam-lhe a dimensão. Essa teoria sócio-histórica é adotada por psicólogos da PUC de São Paulo. Teria sua origem com o psicólogo Vigotski, na ex-União Soviética, e teria sido aplicada no Brasil em Educação por Emília Ferreiro e na Psicologia Social pela professora Sílvia Lane. Essa abordagem parte, portanto, da nada óbvia constatação de que todos nascemos idênticos. O indivíduo humano nada mais é que o resultado da socialização. Socialização idêntica, indivíduos humanos iguais e sociedade humana democrática. Nada de carismas, nada de predestinações. O povo em sociedade, e só o povo em sociedade, é que comanda as transformações. Esta teoria, portanto, não se coaduna com a mente dos que, ao menos no discurso, deslustram o valor da cultura e da Universidade.
A maioria dos psicólogos estão com Ortega y Gasset: Eu sou eu, e minhas circunstâncias. Cada indivíduo humano nasce com o seu organismo e com a sua mente inconfundíveis com o organismo e a mente dos outros indivíduos humanos. E cada processo existencial individual é diferente de todos os outros. Mas, tudo isso que é inconfundível, é também muito semelhante. Eu nasci com uma mente muito semelhante a de todos os outros, mas não igual, assim como é a mesma cultura que me foi infundida através da socialização, embora em circunstâncias muito próprias minhas. Daí os indivíduos humanos diferentes e semelhantes, capazes de conviverem e necessitando da convivência para sobreviver e, sobretudo, para conquistar uma convivência em grau de excelência.
Aí, sim, há lugar para o carisma e para a democracia. Tudo na vida, com efeito, só existe, porque existem todas as condições favoráveis para que aconteça. Assim, o processo de desenvolvimento humano individual e social segue as coordenadas das condições favoráveis. É o resultado do esforço histórico da Humanidade, algumas vezes desabrochando através de uma individualidade carismática como Albert Einstein ou como Mozart, ou como Carlos Magno, mas sempre resultado do amadurecimento do esforço da Equipe Humana, que mais tarde ou mais cedo teria de ocorrer, permanecendo os mesmos estímulos ambientais.
A cultura e a Universidade valem muito. A cultura e a Universidade são sobretudo conhecimento, entre outras coisas. A cultura e a Universidade são inteligência acumulada, sim. Não podemos, de modo algum, separar indivíduo e sociedade. O bem do indivíduo não é dádiva de nenhum outro indivíduo, não é favor. O bem do indivíduo é conseguido na sociedade e na medida em que ele se integra à sociedade. Assim, pode-se bem afirmar: a inteligência é cultura, é sociedade, e é Universidade.