sábado, 7 de fevereiro de 2009

27. Tudo Novo?!... Tudo diferente?!...


Querida irmã.
Sua carta se posta aqui, à minha frente, onde lhe admiro a maravilhosa caligrafia, comparável àquela outra de nosso irmão Einar! Ela me dá a oportunidade para divagar sobre o assunto de outra crônica - “Cárcere?!” -, que compõe o seu livro “Primavera”. Era minha intenção tecer comentários sobre sua expressão - “Nada de novo, nada diferente” - na minha primeira correspondência, mas omiti-os porque a considerei já excessivamente longa.
Aquela sua expressão me transportou para a época de Parmênides e Heráclito, filósofos gregos anteriores a Sócrates e contemporâneos de Buda, século VI AEC. Parmênides afirmava que tudo é imutável porque o que é é, não pode vir a ser nem deixar de ser. Portanto, o fluxo das coisas e dos fatos é ilusão. Suas idéias lembram as dos brâmanes e Buda. Suspeita-se que houve influência mútua entre o pensamento hindu e o grego. Os brâmanes acreditavam em Mara, a deusa da ilusão, da variedade, das desgraças e infelicidade. Há pintura dessa deusa negra, sorridente, a exibir-se sobre o dorso de um elefante. Como me surpreende haja pais capazes de dar tal nome às filhas! Ignorância?! Os gregos tinham também a explicação para o infortúnio em Pandora, a primeira mulher, obra maravilhosa produzida da argila pelo trabalho solidário de todos os deuses com o objetivo de iludir o homem e infelicitá-lo. Quando ela foi trazida do Olimpo e presenteada a Epimeteu, irmão daquele famoso Prometeu, trouxe consigo uma jarra que por curiosidade destampou e dela então se evolaram todas as desgraças que hoje infelicitam a humanidade, só restando a esperança pespegada à jarra, logo tampada por Pandora ao perceber a desafortunada conseqüência de sua curiosidade.
Já Heráclito se contrapunha a Parmênides e defendia tese de que só o devir existe: tudo passa, só o passar não passa. Ninguém pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, dizia ele.
Essas considerações me transportaram para o início de tudo, para o “big bang”, a grande explosão, ocorrida há bilhões de anos, do ylém, aquele plasma original, homogêneo, contínuo, compacto, infinitésimo, a bilhões de graus de temperatura, espécie de matéria, diferente da matéria hoje existente, onde se condensava toda a matéria atual. Ele existiu apenas alguns minutos, sem moléculas e átomos, sem elétrons, prótons e nêutrons. A explosão original estilhaçou o ylém nas partículas subatômicas, prótons e nêutrons. Apareceram em seguida os núcleos atômicos que passam a ser coroados pelas órbitas dos elétrons, dando origem aos átomos. A poeira nuclear avança pelo espaço. Tudo isso se processou em bilhões de anos! Poderia repeti-la: “Nada novo, nada diferente!” Ou então opor-lhe outra visão do processo: “Tudo novo, tudo diferente!” Para a ciência o Universo é mera transformação: “Nada se cria, nada se acaba, tudo se transforma!” Mas, as diversas visões humanas do processo dependem do prazo em que o consideramos: o curto e o longo prazo. Até hoje, e, sobretudo em Economia, a visão de curto prazo apresenta discrepâncias quando comparamos com as considerações de longo prazo. No mundo atual, porém, onde as transformações sociais e ate mesmo ambientais ocorrem muito mais rapidamente, essas duas análises já se confundem no período de uma simples existência humana.
Voltemos às transformações espetaculares às quais não assistimos, mas sabemos que se processaram e das quais somos hoje os beneficiários. Essa nébula de prótons e nêutrons, elétrons e átomos, a bilhões de graus de temperatura, continua a expandir-se e a esfriar, e começam a surgir as estrelas, o sol, os planetas e a Terra. Compõem-se as quase-moléculas e as moléculas. Há, 4,5 bilhões de anos, o sol sofre uma última gigantesca explosão nuclear e volatiliza grande parte dos elementos leves que se localizavam na parte externa do incandescente globo terrestre, estabelecendo a definitiva composição quantitativa dos elementos químicos do planeta. A Terra continua a esfriar. Torna-se gigantesca bola esbraseada, pastosa ou líquida. Forma-se a atmosfera. Inicia-se o fenômeno das chuvas. Cria-se a crosta terrestre, que, atingida pelas chuvas, propicia a formação dos rios e oceanos. Naquele espaço líquido, brotam as bactérias, nem planta nem animal. A vida evolui para as algas azuis, os primeiros vegetais. A fotossíntese impregna a atmosfera terrestre de oxigênio. Vida e oxigênio livre constituem duas anormalidades ou especialidades terrestres.
A vida transfere-se do mar para a terra através dos anfíbios e dos répteis. Répteis gigantescos herbívoros dominam a terra, até que o alimento lhes escasseia e eles desaparecem. Nesse ínterim, a vida já povoara a atmosfera utilizando-se das asas das aves. O ímpeto vital elevou os vertebrados até os antropóides e, em seguida, há cerca de 1,5 milhão de anos aos humanóides, ou homo faber, que fabricavam instrumentos de pedra para combater e caçar. Há 500 mil anos, o homo faber já homo erectus combatia e caçava com instrumentos de pedra, osso e madeira. Há 300 mil anos, ele já os produzia de pedra lascada. A descoberta do fogo permitiu que o homo faber conquistasse as terras frias, de sorte que, há 200 mil anos, o Homem Neanderthal perambulava pelas florestas da Europa. Abrigava-se em cavernas. Trabalhava a pedra, o osso e a madeira. Enterrava os mortos em sepulturas na posição fetal como acreditando que o cadáver pudesse ser reanimado. Há 50 mil anos, o Homem de Cro-Magnon, o Homo Sapiens, passa a habitar cavernas do sul da França e do norte da Espanha, em cujas paredes pintava cenas de caça famosas num contexto de ritual de magia como as “simpatias” populares contemporâneas, inspirado na crença de que aquelas representações rupestres tinham influência real no sucesso da caça. Vindo do sul, sem que se saiba precisamente o local de origem, o homo sapiens parece ter exterminado o Homem de Neanderthal, e curiosamente na gruta de Grimaldi, na França, vai-se identificar a primeira ocorrência do homem negro!
Entre os anos 10 mil e 3 mil aC., deu-se a maior revolução no estilo de vida humana, promovida, ao que se crê, pelas mulheres: a Revolução Neolítica ou Agrícola, que significou a domesticação de animais, o aparecimento das cidades e a especialização da atividade humana. De lá para cá, sabemos quanto a terra mudou! As sociedades autocráticas da China, Índia e Ásia Menor cedem a hegemonia à civilização grega democrática que se espalha em torno do Mediterrâneo para reunificar-se no Império Romano, baseado nas armas e no direito. Esse mundo mediterrâneo liga-se fracamente com as sociedades do Extremo Oriente e desconhece o resto da terra.
O Cristianismo suplanta o politeísmo greco-romano e as invasões bárbaras substituem a sociedade urbana, escravista e de poder político centralizado pela sociedade feudal, rural, servil e de poder político local. A economia de mercado do Império Romano cede lugar à economia auto-suficiente dos feudos. Maomé unifica o povo árabe numa sociedade teocrática expansionista que entra em choque com os interesses de Bizâncio e dos suseranos da Europa Ocidental, inclusive o Papa. Reanima-se o interesse econômico na Europa Ocidental que volta a urbanizar-se. A Europa nacionaliza-se sob a força da conjunção de interesses de reis e negociantes (a burguesia, a classe média). Os interesses econômicos e políticos de reis e negociantes conduzem à conquista geográfica da Terra. O capitalismo mercantil cria condições para o ressurgimento das artes e o aparecimento do pensamento científico. Formam-se os impérios e o capitalismo mercantil se expande. Gutemberg inventa a imprensa. A burguesia triunfa nas Revoluções Americana e Francesa. Inicia-se a Revolução Industrial, a segunda maior transformação por que passou a sociedade humana. A agricultura, o transporte, as comunicações e a produção se modificam profundamente ao ritmo célere das modificações tecnológicas. Inovam-se as relações de trabalho. O poder político se democratiza. Os impérios se extinguem. A população se expande. As cidades proliferam e a atividade urbana predomina sobre a atividade rural. Surgem as megalópoles. Desenvolve-se o setor de serviços. O lazer se amplia. A medicina progride. O Estado assume cunho de acentuada preocupação social. A média de vida humana se eleva. A Terra torna-se uma aldeia. O Homem dá início à conquista do Universo!
Tudo é novo?! Tudo é diferente?! Mesmo fisicamente a Terra é muito diferente! Há 2.500 anos, Grécia, Itália e Espanha eram uma grande floresta! Há 1.000 anos, a Europa transalpina era uma floresta e Holanda significa terra de florestas! Há 500 anos, os Estados Unidos e o Brasil eram grandes florestas. Uma das minhas mais impressionantes experiências pessoais foi retornar a Salvador, passados 30 anos, e constatar a violenta urbanização ali operada, inclusive na outrora bucólica ilha de Itaparica!
Nada caracteriza mais este século que “a transformação”. Iniciou-se como sociedade industrial e termina como sociedade de serviços. Principiou como economia liberal, ganhou amplo espaço em seguida a economia intervencionista (economia mista ou keynesiana) e a socialista (social democracia, trabalhismo, repúblicas socialistas e comunismo) e finda economia neoliberal. Na origem predominou a hegemonia política da Inglaterra, por várias décadas depois experimentou-se a oposição bipolar Estados Unidos (Primeiro Mundo) contra URSS (Segundo Mundo) e sente-se por fim a liderança singular dos Estados Unidos. Foi a princípio tecnologicamente um mundo terrestre (o navio a vapor, a ferrovia e as rodovias), transformou-se num mundo aéreo (a aviação) e finda um mundo extraterrestre (a Mir, as espaço-naves tripuladas ou telecomandadas). O mundo das comunicações locais deu lugar ao mundo das informações globais, e já se lança na tentativa de comunicação com possíveis civilizações extraterrestres. O mercado passou de nacional para internacional e dimensiona-se global nestes últimos anos. As empresas da contabilidade manual e da predominância da mão-de-obra cedem a vez às empresas da administração eletrônica e da produção eminentemente tecnológica.
E se me analiso, achar-me-ei sempre o mesmo ou me descubro sempre diferente? Haverá algo mais diferente que um indivíduo humano de outro indivíduo humano?!
No mundo contemporâneo, já se vive com o coração e o rim de outra pessoa. Fábricas japonesas são operadas por robôs em quantidade maior do que operários, e delas há que são movimentadas só por robôs sob a fiscalização de operários. Dizem que, dentro de algumas décadas, elas serão bem menores e postas a funcionar só por robôs. Prevêem que a agricultura será teletrabalhada das cidades que também extrairão à distância alimentos e minérios das profundezas dos oceanos. Breve far-se-ão reuniões sociais entre amigos pelo telefone-televisão. Nos Estados Unidos já há telefones que exibem a imagem do interlocutor. Quando se visitar um amigo em casa, ser-se-á introduzido por um robô, com quem se dialogará. No Citibank de New York, já no princípio da década passada, deparei-me com a substituição de contínuos e serventes por robôs (carrinhos que trafegavam pelos corredores do edifício, entravam nas salas e delas saíam, transportando documentos).
Quando, na meia idade dos 90 anos, os nossos netos adentrarem a residência, as luzes mais convenientes acender-se-ão automaticamente, as cortinas movimentar-se-ão segundo as necessidades, abrir-se-ão as janelas como desejado, a temperatura da sala adaptar-se-á às conveniências da pessoa, e até o aparelho de som por-se-á a tocar a música mais condizente com o estado de espírito deles naquele momento. Nesse futuro não muito longínquo, as secretárias de médicos, advogados e administradores serão substituídas por lindos robôs!... Defrontar-nos-emos nas ruas com robôs que nelas se misturarão com os homens e provavelmente falaremos com robôs dotados de cérebro humano!...
E aqui permaneço em minhas indagações, estimulado pela sua crônica: “nada novo, nada diferente” ou “tudo novo, tudo diferente”?!... Parmênides ou Heráclito?!
(Escrito no ano de 1992)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

26. Comportamentos Surpreendentes


O sexo é matéria de incontestável marketing. Vende revistas, livros, mercadorias e serviços de todos os tipos. Proporciona renda ao cinema, teatro, televisão, artistas e modelos. Freud disse que o humor se nutre do erotismo. Quem ousaria contestá-lo ante o sucesso do humorismo nacional, mesmo aquele destinado ao público infantil?!... A minha geração, todavia, educada que foi segundo os severos princípios da moral católica maniqueísta, surpreende-se com homens a usar brincos e coque. Choca-se com a tranqüila e ousada convicção exibida em debates televisivos por homens e mulheres, que se vangloriam de haverem feito a opção homossexual que reputam de qualidade superior.
Inquestionável é que certas áreas do pensamento moderno científico encaram o homossexualismo como um dos muitos comportamentos sexuais componentes do vasto espectro que forma o desempenho humano. O homossexualismo é constatado até entre certas espécies animais, quando os indivíduos machos são apanhados em situação crítica de escassez de alimento e espaço vital. Alguns zoólogos afirmam que certas espécies também apresentam comportamento sexual em situações normais da existência. A História registra que certas civilizações favorecem o homossexualismo.
Intriga-nos o fato de que na civilização grega, inclusive nas fases mais esplendorosas, haja proliferado esse tipo de relacionamento sexual, quando o sexo na espécie humana parece vincular-se biologicamente à procriação. Há quem atribua o fenômeno à necessidade de cerceamento da explosão demográfica que então se operava naquela sociedade, enquanto outros autores o vinculam ao continuado e estreito convívio nudista entre os efebos de corpos embelezados pelos exercícios físicos e entediados pela vida castrense. Talvez essa circunstância explique o amor entre Pelópidas, general e estadista tebano, e Epaminondas, o grande estrategista militar da Confederação Beócia, tendo Pelópidas formado o Bando Sagrado de trezentos hoplitas, todos eles amantes gregos que haviam jurado combater ao seu lado até a morte. Sócrates, o sábio pai da Filosofia, assinalado por atos de bravura nos campos de batalha, apesar de notoriamente feio, ganhou igualmente fama pelos amantes masculinos a que se ligou. Foi amante de Platão, um dos maiores gênios da Filosofia. Enamorou-se à primeira vista pelo belíssimo jovem Cármides e veio a morrer ingerindo cicuta, condenado que foi à morte por envenenamento em virtude das persistentes acusações de ateísmo assacadas por Ânito, enciumado pelo amor entre Sócrates e Alcebíades, este último sobrinho de Péricles e um dos vultos mais importantes da sociedade grega no seu tempo. Dois jovens amantes e guerreiros, Harmódio e Aristogiton, deram início, com o assassinato de Hiparco por Harmódio, ao movimento político e sedicioso que desembocou na substituição da tirania psistrátida pela democracia de Clístenes, instituição política apanágio das civilizações grega e moderna. Will Durant relata que o homossexualismo era tão difundido na Grécia antiga que os rapazes eram os mais sérios rivais das heteras, as lindas cortesãs de Atenas. Os mercadores de Atenas importavam formosos jovens e os vendiam para se tornarem amantes dos homens mais idosos da cidade. A própria religião grega narra o mito do rapto do jovem troiano Ganimedes por Zeus, o deus supremo, disfarçado em águia, que, enamorado da extraordinária beleza do rapaz, o transportou para o Olimpo, a mansão dos deuses, onde foi substituir a filha Hebe nas funções de copeiro, o responsável pelo regime das chuvas na Terra. O homossexualismo praticado pela poetisa Safo, a maior da era anterior a Cristo, vastamente difundido na ilha de Lesbos, deu a designação de safismo ou lesbianismo ao homossexualismo feminino. Safo foi amante de todas as suas alunas na escola de poesia, música e dança que fundou na ilha. Quando os pais retiraram da escola a jovem Átis, Safo rogou-lhe: “Vai e sê feliz, mas lembra-te de mim, pois sabes o quão loucamente te amo”. E amarguradamente confessou: “Nunca mais hei de rever Átis e seria bem melhor para mim se tivesse morrido.”
Na Roma antiga também grassou o homossexualismo. Os rapazes romanos eram naquela época os rivais das cortesãs nos amores dos homens idosos. Os homens ricos compravam amantes gregos. Horácio declara que foi “ferido pelo dardo do amor por Lisico, que em matéria de ternura suplantava qualquer mulher”. Falecendo Popéia, a dama casada por cujo amor Nero mandou matar a mãe Agripina e a esposa Otávia, o imperador apaixonou-se pelo jovem Esporo, cuja beleza o assemelhava à própria Popéia, e fê-lo eunuco para torná-lo sua mulher. A demanda por eunucos era tão grande que os preços se elevaram de tal sorte que Domiciano proibiu a castração. Também aqui a alta taxa de lucro abrogou a lei na prática. Adriano, célebre como o maior administrador dentre os imperadores romanos, ficou igualmente lembrado na História pelo profundo amor devotado a Antígoo, jovem de rara beleza, cuja amizade com o imperador o povo equiparava à de Ganimedes com Zeus. Adriano chorou-lhe a morte prematura como a de uma mulher, erigiu-lhe um templo como a um deus e edificou à volta deste a cidade de Antinoé. O imperador Cômodo apreciava travestir-se e mantinha harém de trezentas mulheres e trezentos rapazes. Elagábalo entregava-se, vestido de mulher, a quem o solicitasse, diz Ibor. O mais célebre bissexual romano foi sem dúvida Júlio César, “homem para todas as mulheres e mulher para todos os homens”, em cuja entrada triunfal em Roma os soldados desfilando conclamavam as mulheres para que mantivessem cerradas as portas de casa, enquanto ele permanecesse na cidade, a fim de evitar o assalto sexual do imperador.
A Renascença chegou à Itália restaurando o fausto e inundando até a corte papal numa onda de sexualidade. Leonardo da Vinci, o pintor genial de “A Ceia” e de “Mona Lisa”, constituiu famoso exemplo de homossexualismo. Miguel Ângelo, que legou à posteridade a maior obra de pintura, juntamente com a maior obra de escultura e a maior obra de arquitetura, desgostava das mulheres. Não casou nem teve filhos. Dormia na mesma cama com seus auxiliares. Dedicou tal afeição a um de seus criados, que lhe partilhou a cama durante muitos anos, cumulou-o de presentes e lastimou-lhe profundamente a morte. Nem mesmo o papado, àquela época, teria sido imune à mencionada conduta sexual, na pessoa de Sisto IV, o papa da Capela Sistina, de Júlio II, o terrível papa guerreiro, e de Clemente VII, o papa desafortunado.
A galeria dos reis de França contém Henrique III que apreciava travestir-se, passear pelas ruas à noite na companhia de jovens parceiros e conceder ricos presentes a seus favoritos. Ousou até recepcionar na corte, travestido com generoso decote. Nenhuma história real, porém, ultrapassa neste aspecto, a memória de Eduardo II da Inglaterra, cujo primeiro amante foi assassinado pela nobreza escandalizada. Reincidindo na prática homossexual, a mulher, Isabel de França, e o amante destronaram-no e mataram-no.
Bem recentemente, a literatura francesa e a inglesa produziram gênios que professavam sem constrangimento o homossexualismo. Marcel Proust teve inúmeras experiências com homens da alta sociedade francesa e também com indivíduos da sua criadagem. André Gide foi amante de Oscar Wilde, entre outros parceiros. E o amor público por incontáveis jovens arrastou Oscar Wilde ao divórcio, pobreza, alcoolismo, decadência profissional e até à condenação a dois anos de trabalhos forçados.
Nos tempos atuais, o homossexualismo espraiou-se pelo mundo inteiro e recebe amparo legal nos países mais adiantados. Nem me parece nada estranho esse tratamento legal, quando a ciência identifica origens anatômicas, fisiológicas e até genéticas para tal comportamento. Não creio, porém, que o legislador haja pretendido ir além do reconhecimento do fato de que a probabilidade das respostas, característica da ação humana, fornece faixas de maior coincidência, mas admite também outras mais rarefeitas. Até parece que muitos entendem e aceitam o homossexualismo como um comportamento de minorias. Isso é alardeado em épocas de propaganda eleitoral em todos os países do mundo. Dizem até que Freud explicou o homossexualismo, ao nível psíquico, como uma frustração do desenvolvimento da sexualidade, uma parada provocada por um trauma de ordem sexual, ocorrido na infância. Dizem outros que o comportamento tem origem na inexistência do banho de testosterona que, em determinado momento do processo de desenvolvimento, o feto masculino recebe. Outros afirmam que a anatomia do cérebro homossexual apresenta disparidades com relação ao do heterossexual, este muito mais comum. Há também os que afirmam que a cultura familiar e a da sociedade civil têm influência sobre a tendência comportamental homossexual.
Tendência de origem orgânica ou psíquica ou cultural, o homossexualismo, comportamento humano inequívoco, realidade humana, de minoria ou não, merece respeito e possui direitos. A sociedade humana é de todos os homens e, nos tempos modernos, se reconhece como convivência das diferenças e de comportamentos muito diversos. A lei tem de respeitar as minorias. E a sociedade tem que aceitar o convívio esclarecido com as minorias sociáveis. Os comportamentos inaceitáveis restringem-se àqueles que impedem o uso legítimo dos direitos de outrem. Seja como for, os juízos de valor são relativos, muito particulares e próprios de cada indivíduo, de modo que o julgamento sobre a bondade ou a maldade de tal comportamento depende de tudo aquilo que cada um de nós é. Mas, isso já é o âmbito dos julgamentos morais, individuais. Situa-se no santuário secreto da mente de cada indivíduo. No âmbito da Lei e do Direito, as diferenças sociáveis devem ser respeitadas.
Isso é civilização superior: a convivência pacífica das diferenças sociáveis.
(Escrito no ano de 1988)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

25. A Justiça


A sociedade ocidental herdou da civilização grega o individualismo, isto é, o princípio da liberdade. A civilização romana entendeu que a liberdade absoluta gera a anarquia e procurou estabelecer a ordem. Os ideais romanos de ordem e segurança fortificaram o Estado, que consiste naquele pequeno número de pessoas às quais a sociedade confere o poder de coagir o conjunto dos indivíduos mediante a Lei, que foi o maior legado romano à sociedade moderna.
O Estado Romano foi-se aos poucos na prática restringindo ao Imperador, alcançando o absurdo de Nero (demagogo tão amado pela plebe que lhe chorou a morte e por muitos meses lhe ornou de flores o túmulo), que ordenou a Sêneca, seu mestre e conselheiro, suicidar-se e mandou matar o irmão e a própria mãe.
Imperadores subseqüentes conduziram o Império Romano ao fastígio, voltando a governar com o Senado e sob a égide da lei. O Imperador Antonino decretou os dois princípios supremos da lei moderna: in dubio pro reo e inexiste culpado sem provas.
Diz-se que a glória da lei romana consistiu na proteção do indivíduo contra o Estado. Característica da sociedade civilizada é o livre exercício da justiça pelos tribunais competentes, imunes à coação de qualquer espécie e origem.
Reportagens televisivas recentes me trouxeram à mente tais considerações. Não retroajamos à barbárie.
(Escrito no ano de 1988)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

24. O Orçamento da União


Luís XIV celebrizou-se pelos gastos públicos, promovendo guerras e construindo o esplendor da França. No leito de morte, aconselhou ao filho e sucessor, Luís XV: “Não faça a guerra nem despesas excessivas”.
A História registra que os governos ditos progressistas costumam apresentar, entre outras, a disposição para a dilapidação dos recursos públicos. Paul Samuelson esclarece que os continuados excessos nos gastos governamentais provocam tamanhos males à economia nacional que só muito longo prazo de aplicação de severas medidas corretivas é capaz de saná-los. Milton Friedman acrescenta que, via de regra, os governos preferem a providência corretiva do aumento de impostos à alternativa do corte de despesas.
É por isso que em muitas localidades dos Estados Unidos o aumento de despesas, que envolva acréscimo de tributo, só pode realizar-se pela via plebiscitária. A imposição de tributos, mediante simples decisão do Estado onipotente, constitui subtração de matéria altamente sensível aos interessses individuais e familiares à soberania popular, inquestionável e clara, característica do regime democrático. Só pode ser tomada por governos destituídos da exata compreensão da democracia, transformando-a, consoante pensavam Sócrates e Aristófanes, há dois mil e quatrocentos anos, de soberania do povo em soberania dos políticos.
A autocracia política insiste em mandar no Brasil de forma absolutista. A Constituição Brasileira prevê o plebiscito... Poucas vezes foi usado...
(Escrito em 1988)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

23. Demagogia


Ouvem-se queixas constantes sobre o caráter demagógico da campanha da maioria dos candidatos a cargos públicos eletivos no Brasil. A demagogia norteia, em seguida, a conduta dos eleitos no desempenho do mandato, principalmente se legislativo, erigindo os maiores obstáculos à correta gestão da coisa pública por parte do executivo: lideram campanhas de desmoralização, bloqueiam tomadas de decisões saneadoras, propõem leis inadequadas à situação do País. As diversas ordens do executivo lançam-se, em geral, à elaboração e implantação de programas que não se coadunam com os recursos disponíveis.
James Buchanan, Prêmio Nobel em Economia, formulou a doutrina de que, na Política como na Economia, o homem se conduz basicamente pelas ambições egoístas. A conduta política visa, sobretudo, à sobrevivência política pessoal através do consumo dos recursos alheios, privados ou públicos, colocando em risco o mínimo de bens próprios.
A nunca assaz louvada sabedoria dos atenienses já havia descoberto essa desvantagem da democracia, assim como já lhe havia produzido o remédio: a lei da indenização política. O autor da lei era de tal modo responsável pela sua proposta que, decorrido um ano, prazo de todos os mandatos em Atenas, se os efeitos da lei fossem maléficos à sociedade, cabia ao proponente indenizá-la pelos prejuízos causados.
O Brasil carece de lei tão sábia!
(Escrito em dezembro de 1988)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

22. A Guerra dos Modelos


Leio que recente programa televisivo sobre a profissão de modelo suscitou violento debate entre as profissionais do ramo no Brasil.
A existência do modelo feminino constitui fato histórico milenar. A História relata feitos deliciosos dos modelos femininos na Idade de Ouro da Grécia.
O mais famoso foi Frinéia, modelo para as afrodites de Praxíteles e de Apeles. Sempre se apresentava em público muito bem vestida e até com véu sobre o rosto, exibindo-se totalmente apenas nas festas de Elêusis e Poseidon, quando, nua, se entregava ao banho de mar em homenagem às divindades. Com o ousado gesto de despi-la perante o tribunal, o advogado de defesa tornou óbvio o motivo oculto e verdadeiro que embasava a perjura acusação de impiedade assacada contra o escultural modelo.
Famosa frustração de vocação de modelo foi Laís de Corinto, muito recatada, que, tendo resistido a inúmeros apelos para se tornar modelo, não recusou o convite do encanecido Míron para celebrizar-se em magistral estátua de Afrodite. Quando o velho e famoso artista se defrontou com a maravilhosa plástica nua da mais linda morena da Grécia, deixou cair o martelo e o cinzel, esqueceu as barbas e cabelos brancos, e, incontinente, lançou ao soberbo modelo um convite para o amor. Laís repeliu-o e a humanidade se viu assim privada de admirar uma das mais belas obras-primas do nu feminino. Mas, Míron não desistiu facilmente. No dia seguinte, cabelo cortado e barba feita, elegantemente vestido, cordão de ouro em redor do pescoço e os dedos recheados de anéis, voltou a assediar a maravilhosa Laís que, ao reconhecê-lo, lhe disse: “Vens pedir-me hoje o que ontem recusei ao teu pai”!...
Consta que os modelos gregos foram mulheres ricas e que os mais ilustres cidadãos gregos se orgulhavam de sua companhia. Laís, que repeliu também o feio Demóstenes, apreciava ter a filosofia em sua cama, de graça, na pessoa de Diógenes, o da lâmpada.
Há dois milênios e meio tudo isso ocorreu, enquanto nesse longo intervalo, o mundo sofria profundas alterações!...
(Escrito no ano de 1989)

domingo, 1 de fevereiro de 2009

21. A Igreja Romana


Quando, nos séculos V e VI EC, os povos godos e germânicos, em grande parte cristãos arianos, entraram no Império Romano, eles encontraram uma região pontilhada de cidades romanas decadentes, com uma civilização superior a deles, governadas muitas delas por bispos cristãos, proprietários de terras, que seguiam avançadas normas administrativas, se regiam por leis escritas e adotavam técnicas agrícolas mais avançadas. Eles passaram a conviver sem maiores problemas com a população romana e a absorver a civilização romana: administração urbana, legislação escrita, técnicas agrícolas e o catolicismo romano.
Os bispos, administradores de cidades e produtores agrícolas, erigiam igrejas em suas cidades. Estas suscitavam a proliferação de monges e mosteiros. Atraíam monges e mosteiros para as cidades e vizinhanças. Os mosteiros logo se tornaram locais de oração e trabalho de subsistência. Tornavam-se centros de aglomeração de fiéis e núcleos embrionários de cidades. Os abades começaram a competir com os bispos em autoridade religiosa, poder político e riqueza. Bispos, clérigos e monges educavam o povo.
Os anglos, saxões e jutos invadiram a Britânia. Os bretões defenderam-se durante um século. Mas, no século VI EC, esses povos germânicos concluíram a conquista e criou-se a Inglaterra (a terra dos anglos). Parte dos bretões cruzou o canal da Mancha e formou a província gaulesa da Bretanha.
No século V EC, a Grã-Bretanha já estava cristianizada. E o papa Celestino estava preocupado com a cristandade daquela região, imbuída das idéias heréticas do bispo Pelágio. Enviou para lá o missionário Paládio, que parece ter pregado na Irlanda e na Escócia, e logo morreu. Para substituí-lo, a conselho de Germano, rico bispo de Auxerre, enviou outro missionário, Patrício, auxiliar de Germano em Auxerre e que fora monge de Martinho em Tours. Patrício foi o evangelizador da Irlanda: um homem converteu uma nação. Fundou muitos mosteiros e conventos. Ergueu duzentas igrejas. E discípulos seus saíram a evangelizar outras terras. São Columba fundou vários mosteiros na Irlanda e, em seguida, com doze companheiros, partiu para evangelizar a Escócia, onde fundou o mosteiro de Iona. São Finiano de Clonard fundou um grupo de mosteiros de monges missionários. Contemporânea de São Patrício e fundadora de famoso mosteiro foi Santa Brígida, filha de uma escrava e um rei, que ocupa o segundo lugar no culto do povo irlandês.
No século IV EC, os francos, povo germânico pagão, movimentaram-se e ocuparam as terras do Reno inferior. No século seguinte, Clóvis, o rei dos francos, ocupou o noroeste da França, dando início ao futuro país, França. Casou-se com Clotilde, uma cristã ortodoxa. Converteu-se ao cristianismo ortodoxo e empreendeu a conquista da Gália gótica ariana para converte-la ao cristianismo ortodoxo. Transferiu a capital do reino franco para Paris. Depois da morte do marido, Clotilde foi morar na igreja de São Martinho em Tours.
Na segunda metade do século V EC, os visigodos arianos dominavam a Espanha. No final do século VI, o rei Recaredo se converteu ao cristianismo ortodoxo pela influência de São Leandro, bispo e monge, e obrigou seu povo a adotar sua nova fé. São Isidoro de Sevilha, bispo, estudou no mosteiro de seu irmão, São Leandro, conhecido e amigo do papa Gregório Magno.
No início do século VI, Bento de Núrcia, que vivia vida eremítica em Subiaco, nas cercanias de Roma, atraiu alguns companheiros em virtude da sua fama e ali se fundaram doze mosteiros. No final da terceira década daquele século, ele se transferiu para Monte Cassino, onde fundou o famoso mosteiro de Monte Cassino, modelo dos mosteiros do cristianismo ocidental. É a origem da Ordem dos Beneditinos, cujo lema é ora et labora (reza e trabalha). O mosteiro de Monte Cassino foi tão importante para a civilização ocidental que, Bento de Núrcia, além de ser considerado o Patriarca dos Monges Ocidentais, foi proclamado Patrono da Europa. Centenas de mosteiros surgiram na Europa, que davam hospedagem e proporcionavam instrução a quem os procurasse.
Ainda vivia São Bento, quando nasceu Gregório. Prefeito de Roma, convenceu-se de que estava iminente a parusia. Vendeu suas propriedades e fundou sete mosteiros. Transformou seu palácio no mosteiro de Santo André, do qual foi o primeiro monge. Depois de servir ao Papa em diversas missões, tornou-se abade do mosteiro de Santo André. Foi feito papa a força. Reformou a disciplina religiosa nos mosteiros do Ocidente cristão, estendendo-lhes as regras beneditinas. Conferiu prestígio e poder ao papado. Ampliou os Estados Pontifícios. Submeteu os bispos rebeldes da Lombardia, restaurou o catolicismo ortodoxo na África, recebeu a conversão da Espanha ariana e conquistou a Inglaterra com 40 monges, inclusive São Lourenço de Canterbury, chefiados por Agostinho, o abade do mosteiro de Santo André. Agostinho foi muito bem recebido em Kent, pelo rei Ethelbert, casado com Berta, de origem francesa e cristã. Em um dia de Natal teria batizado dez mil pessoas.
Da Irlanda partiu São Columba para a Britânia onde conquistou os anglo-saxões para o Cristianismo romano e fundou o mosteiro de Iona. Iona converteu-se num viveiro de bispos, de onde a Boa-Nova irradiou para as ilhas Orkney, Shetland, Faeroe, Islândia, propagando-se também para as regiões da Europa Central.
Da Irlanda mais uma vez, naquele século de Gregório Magno, partiu São Columbano de Bangor, o maior mosteiro celta, acompanhado por doze companheiros. Atravessou a Grã-Bretanha e a Gália, indo fundar um grande mosteiro nos Vosgues. Posteriormente, fundou outros em Fontaines e em Bobbio na Itália. No mosteiro de Luxeuil tantos eram os monges, sessenta, que ele instituiu a laus perennis (o louvor sem fim): dia e noite, sem parar, os monges revezavam-se em orações e cantos de louvor a Jesus, Maria e santos. Milhares de mosteiros na Europa logo lhe imitaram o exemplo.
O papa e monge Gregório Magno, como é conhecido, moldou o pensamento teológico que constituiu a base cultural da Idade Média e que ainda hoje dá as características da teologia do cristianismo católico:
"Adão e Eva cometeram o pecado original. Como descendentes de Adão e Eva, todos os homens nascem com o pecado original. Todos os homens, portanto, nascem com a inclinação para a prática do mal. Jesus Cristo, o Filho de Deus, segunda pessoa da divindade trina, fez-se homem para oferecer uma expiação a Deus trino e livrar o homem do pecado. O pecado original se apaga pela graça de Deus (a natureza divina), infundida na alma humana pelo batismo. Assim mesmo, a grande maioria dos homens morre no pecado e vai para o inferno eterno, um lugar de fogo e tormentos horrorosos. Uns poucos eleitos morrem na graça de Deus (divinizados). Os poucos que morrem sem pecado grave vão para o Céu, a habitação de Deus, e serão eterna e imensamente felizes. Note-se que os que morrem com pecado leve passam pelo Purgatório, antes de chegar ao céu. O Purgatório só difere do Inferno, porque é transitório, tem fim. O mais terrível nessa teoria: os poucos, que vão para o Céu, não vão por méritos próprios, mas em virtude da graça de Deus (divinização), isto é, porque são eleitos por Deus, isto é, porque assim Deus o quer! Isso é horripilante? Isso é absurdo? Não, isso simplesmente estaria acima da compreensão humana. Isso também (essa eleição de poucos) seria nada mais que um mistério, um dogma, só Deus o poderia entender! Fabuloso! A vida terrena, apesar de tudo, é transitória, é uma época de provação. A vida terrena é, portanto, a preparação da vida eterna, após a morte. A vida verdadeira, a que importa, é a vida depois da morte, no céu ou no inferno. A vida terrena deve ser vivida de conformidade com os ensinamentos e o exemplo de Jesus Cristo, explicados pela Igreja Católica, Apostólica e Romana."
A noção de vida de Gregório Magno, que se tornou a concepção de vida da Idade Média, é a vida monacal de oração e penitência. Deve-se viver na união com Deus e na companhia dos anjos e dos santos, reverenciando as relíquias dos santos, beneficiando-se dos seus milagres, obtendo-se indulgências para abreviar o purgatório e angariando proteção contra a influência dos demônios, que querem arrastar os homens para o inferno. Há íntima interatividade entre a vida terrena e a vida após a morte: aquela é resultado desta.
Essa mentalidade e essa pregação constituíram a forma em que se modelou a cultura da Europa Ocidental. O rei Oswaldo, de Northumbria, convocou uma reunião, em Whitby em 664, entre as correntes cristãs locais e romanas, que divergiam quanto à data da Páscoa. O próprio rei dirimiu a questão, dizendo: Pedro é o porteiro da entrada dos Céus e eu não o contraditarei. Eu obedecerei as suas ordens em tudo, na medida de meu conhecimento e habilidade, para evitar que, em fazendo o contrário, não haja alguém que ma abra, na hora da morte. Com essa mesma poderosa idéia, o papa Estêvão ameaçou Pepino III, rei dos Francos, no século seguinte, e induziu-o a defender o papado contra os Lombardos. A Igreja Católica, Apostólica e Romana já estava consolidada, obra concluída por Gregório Magno.
Coevo de Gregório Magno, São Martinho de Dume, nascido na Hungria e discípulo de Martinho de Tours, abriu um mosteiro em Dume, nas proximidades de Braga, de cuja diocese foi bispo, e converteu os suevos arianos ao catolicismo romano. Na metade do século VII, aí mesmo em Braga São Frutuoso abriu outro mosteiro.
No século VII, monges irlandeses e ingleses se entregaram à evangelização da Alemanha. Vilibrordo e mais doze companheiros propagaram a fé nos Países Baixos na Alemanha Ocidental. No século seguinte, Vinfrido, monge inglês beneditino, conhecido como o Apóstolo da Alemanha, adotou o nome de Bonifácio, foi feito bispo, organizou a igreja na Alemanha e fundou famosos mosteiros.
No final do século VIII e início do século IX, Carlos Magno dominava grande parte da Europa. O reino franco de Carlos Magno compreendia os Países Baixos, a França, a Lombardia, a Saxônia, a Baviera e descia ao sul até Barcelona e as ilhas Baleares. Pensava governar o seu império a exemplo de Constantino, considerando-se o representante de Deus nos seus domínios. Julgava possuir um poder soberano. Nomeava os bispos, promovia a uniformidade da doutrina cristã e protegia o papado. Nunca se perdoou, quando, posteriormente ao fato, entendeu o simbolismo da sua coroação em Roma, na véspera de Natal de 800 EC pelo papa Leão I: o representante de Deus na Terra, segundo o pontífice, era o Papa; o poder do príncipe submeter-se-ia à soberania do papa.
No século IX, o rei Rostilav da Morávia (parte oriental da atual República Tcheca) correspondeu-se com o Imperador Bizantino, pedindo que lhe enviasse missionários, que celebrassem a liturgia em língua eslava, a fim de neutralizar a atividade de evangelizadores da Itália e da Baviera, que a celebravam em latim. O imperador enviou-lhe Metódio e Cirilo, irmãos e monges. No meio de muitas divergências entre as diversas correntes religiosas cristãs, os dois irmãos monges, já autorizados pelo papa, difundiram o cristianismo na Bulgária, Hungria, Rússia e nas regiões das antigas Tchecoslováquia e Iugoslávia. A Bulgária e a Rússia, em seguida, adotaram o cristianismo ortodoxo da Igreja Grega.
O primeiro missionário cristão da Escandinávia foi o monge franco Ansgar no século IX, bispo de Hamburgo, cuja atividade evangelizadora sofreu muita oposição. Assim, somente no final do século X, a Suécia é governada pelo primeiro rei cristão, Olaf Skutkonung, enquanto o rei Olaf Tryggvason impunha o cristianismo à Noruega. Nesse mesmo século X, o rei Harald Bluetooth da Dinamarca aceitou o cristianismo para obter a paz oferecida por Oto II, imperador do Sacro Império Romano. Naquela época, o cristianismo era também uma instituição de natureza política.
O Cristianismo difundiu-se pela Ásia Menor, Palestina, Norte da África e Europa à pé, no lombo de cavalos e mulas, sobre as rodas de carroças e carruagens, a bordo de barcos no Mar Mediterrâneo e nos mares da Europa setentrional, e em canoas pela vasta rede fluvial da Europa. Toda essa assombrosa evolução milenar processou-se a viva voz por milhares de missionários eloqüentes e fascinados pelo mito cristão, ou pela palavra escrita sobre papiro, depois pergaminho e, por fim, papel.