quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

485.José Amorim Rego



In Memoriam de Insuspeitada Grande Personalidade
Mais que adentrar este venerando recinto material, morada da Fraternidade, estou ingressando no templo espiritual de veneração ao Grande Arquiteto, que planejou engastar nessa estupenda obra do Universo a joia magnífica da Humanidade.
O grande filósofo Hegel ensinou à posteridade que a Vida é portentosa mágica transformista da Mente humana. O Grande Arquiteto conferiu-nos o poder de injetar no mundo material luz, cor, som, sabor, espaço e tempo, prazer e sofrimento, dor e bem-estar, tristeza e alegria, esforço e relaxamento, paz e guerra, ódio e amor. A Mente humana confere significado aos fatos materiais físicos do movimento das partículas-ondas constitutivas da Matéria, transformando-os magicamente nesse portentoso espetáculo que é a Cultura, a Civilização e a desafiadora aventura da Vida.
Meu pai foi uma Mente seduzida, sobretudo, pela magia da Terra e do Clã. Era uma personalidade atávica, atraída pela beleza inebriante dos carnaubais e dos canais d’água, que inundam de nutrientes os manguezais e a flora do exuberante delta do Rio Parnaíba, onde se acha incrustada a cidadezinha amada onde nasceu, Parnaíba, a joia dos manguezais opulentos.

Parnaíba, no século passado, quando meu pai nasceu, até a década de 40, situava-se entre as cidades mais operosas e progressistas do Nordeste brasileiro. As principais empresas parnaibanas competiam em desempenho com as similares dos Estados do Maranhão e Ceará. Ela era  notável polo brasileiro de comércio internacional. Era uma cidade aberta, para usar o maravilhoso qualificativo que Péricles pespegou a sua estupenda Atenas no famoso discurso. Naquela época, Parnaíba era uma cidade litorânea. Hoje, o antigo porto marítimo de Parnaíba, Amarração, é a sede do município de Luís Correia.

Amarração não era, contudo, a porta que conectava Parnaíba ao mundo. Ela era, e ainda é hoje, um porto onde o Igaraçu, o braço parnaibano do rio, arma ciladas aos raros navios que por ali se aventuram a adentrar. Ele vai abrindo hoje uma nova passagem, que logo amanhã caprichosamente entulha com a areia movediça, que atapeta aquela região submarina.



Parnaíba exportava babaçu, tucum, outras oleaginosas, couro de animais silvestres, algodão e cera de carnaúba. Importava muita coisa, quase tudo, do Exterior, não dos outros Estados brasileiros. O parnaibano comia manteiga e queijo inglês, e biscoito suíço. As refeições eram servidas em louça inglesa. Bebia-se cachaça e também uísque escocês em copos ingleses. Casas havia onde se degustava à tarde o chá das cinco, à inglesa, enquanto se jogavam partidas de bridge. As casas eram revestidas com estuque de procedência inglesa. Os homens vestiam linho inglês e as mulheres seda importada de Londres. As parnaibanas maquiavam-se com pó, rouge e batom inglês. Perfumavam-se com essências francesas. Os poucos carros, que trafegavam pelas ruas arenosas da cidade, eram Ford bigode, o produto revolucionário, produzido em série para a população de classe média pelo genial americano. Para completar a paisagem de cultura inglesa equatorial impunha-se a existência de um castelo. Havia-o, sim, o castelo do Tó, solteirão de sangue inglês, sócio da Casa Inglesa, a mais importante empresa parnaibana na época, de propriedade de meus bisavós maternos.

As mercadorias chegavam a Parnaíba pelo rio. As estradas eram imprestáveis para o trânsito de veículos motorizados, que praticamente inexistiam. Além do rio, apenas a estrada-de-ferro ligava Parnaíba à capital, Teresina. Assim, Parnaíba era o umbigo econômico e cultural do Piauí, que ligava o Estado ao Mundo, inclusive ao Brasil. Os abastados comerciantes parnaibanos eram conhecidos no Brasil e no Mundo: a Casa Inglesa, a Casa Marc Jacob, os Moraes Correia, Pedro Machado & Trindade, Casa Torquato, José Narciso. A Booth Line agenciava navios. Filhas de família da classe média casavam com ingleses. Algumas foram morar na Inglaterra. Agentes de empresas alemãs foram lá perseguidos e presos, quando os navios brasileiros foram bombardeados durante a Segunda Guerra Mundial.

Documentos comerciais, redigidos em inglês, atulhavam os escritórios das empresas parnaibanas: cartas, telegramas, faturas, letras de câmbio e ordens de pagamento. Parnaíba foi uma das primeiras dezenas de cidades brasileiras agraciadas com agência do Banco do Brasil. E, é óbvio, até a década de 60, a agência de Parnaíba era uma das poucas que possuíam a Seção de Câmbio.



Os jovens de famílias da classe média aventuravam-se no Rio de Janeiro, a capital da federação brasileira, ou nesta cidade de São Paulo, o fenômeno econômico brasileiro. Ou ficavam e se acomodavam lá mesmo, empregando-se no comércio local. Ou se submetiam a concurso para trabalhar no serviço público ou no Banco do Brasil.

Os cinco irmãos, filhos de meus avós paternos, ingressaram no Banco do Brasil, realizando inconscientemente desejo expresso pelo Pai, que, certa vez, passando pela frente do suntuoso prédio da agência do Banco do Brasil, situada na formosa Praça da Graça, em Parnaíba, confidenciou aos amigos o vaticínio que acalentava como sonho de vida: “Meus filhos ainda um dia trabalharão nesse Banco.” Percorreram toda a hierarquizada carreira funcional desse estabelecimento, todos eles. Meu pai optou pelo quadro da Tesouraria. E tem a sua explicação.

José tinha seis anos, quando meu avô Gonçalo faleceu, vítima da diabetes, aos 41 anos de idade, longevo já, para a época, em que a expectativa de vida do brasileiro se limitava a 37 anos.

Meu pai cresceu, portanto, numa família de sete irmãos sobreviventes de doze nascidos, conduzida por uma matriarca corajosa, de rosto tranquilo e doce, rasgado frequentemente por um sorriso crítico e zombeteiro. Minha avó materna, escrevia com caligrafia impecável textos gramaticalmente impecáveis. Falava sem incorreções e detestava impropérios e desrespeito, preocupada com o bem-estar da família e o futuro da prole. Criou os filhos com elevado senso de responsabilidade pelo próprio destino, com mesa farta, mas severamente limitados os gastos ao consumo de bens necessários à sobrevivência. Casa limpa, arejada e ensolarada através de seis janelas e três portas, abertas para amplo quintal ajardinado, cheirando ao jasmim do jardim nas tardes bucólicas e repleto de amplo conjunto de árvores frutíferas: mangueira, laranjeira, sapotizeiro, bananeira, romãzeira, ateira, umbuzeiro, limeira, cajueiro, araticunzeiro.

Nesse palco edênico, meu pai brincava de Tarzã, saltando dos galhos das árvores. Ou embalava-se nos balouços que neles dependurava. Ou fingia-se de pugilista nos ringues que armava à sombra das copas generosas das mangueiras. Ou jogava futebol e, até, na estação chuvosa, promovia a plantação de uma roça de milho e feijão. Não faltava a companhia do irmão caçula nem a dos colegas, filhos das famílias da mesma Rua D. Pedro II, vizinhança amiga e pacata.

A sua infância ainda recebeu a influência do pai, originário do interior do Piauí, da fazenda de Esperantina, hoje cidade, onde avultava a personalidade linda de minha bisavó, Loura, de olhos azuis como o céu e doces como o mel.

Parnaíba, polo comercial e cultural de todo o Norte do Piauí, naquela época não possuía hotel. A casa de meu avô abrigava os primos de todo aquele interior, que vinham à cidade de Parnaíba, para negócios e tratamento de saúde, assim como os filhos deles que vinham estudar na cidade. A estada dos parentes era mais que uma novidade, constituía época de prazeroso consumo de todo tipo de doces, que àquela época se fabricavam nas fazendas do Piauí, terra de exuberante quantidade e generosa qualidade de iguarias. Mesa farta e gostosa, armada às margens férteis do Rio Parnaíba. Foi nesse contato e nesse ambiente que se forjaram os vínculos atávicos da personalidade de meu pai. Não havia como não deixar-se cativar por tão generosa Terra e por tão aconchegante clã!

José ligava-se por intenso vínculo sentimental a toda a família. Era o sobrinho predileto da tia Carlotinha de Nequinha, a mãe de José. Tia Carlotinha habitava a casa da sobrinha, desde o falecimento do marido. Afinal de contas, naquela época ainda não existia Previdência Social no Brasil, instituto esse que naqueles tempos ainda engatinhava no Mundo todo. A sobrevivência, em casos de invalidez e morte, era em geral garantida pela descendência, a geração seguinte dos filhos, a realização prática da cobertura previdenciária por repartição simples, hoje tão vilipendiada pelos doutos teóricos do neocapitalismo.

Tia Carlotinha, a Mãeminha, como era conhecida na família, era um meigo vulto de mulher bonita. Branquinha, rosada, cabelos brancos, esguia, trabalhadeira, conversadeira, sabia de histórias do arco da velha e, o mais importante, exímia quituteira. Claro, os quitutes por ela feitos tinham sobretudo um destino: o José.

Havia intensa sintonia sentimental entre a tia velhinha e o elétrico sobrinho, garoto ainda, que adorava escutar-lhe as histórias da família. José deu às duas filhas, os nomes da Mãe, Maria Edith, e o nome da tia, Ana Carlota. Nós fomos para meu Pai, além de filhas, extremamente amadas, as lembranças vivas e permanentes, de dois dos seus grandes amores: a Mãe e a tia Carlotinha.

Garoto hiperativo e perspicaz, as excentricidades de seu temperamento configuravam estripulias, conflitantes com a pacata rotina da vida tranquila de uma família da classe média, daqueles longínquos idos das décadas de 20 e 30, de pequena cidade brasileira.

José, ainda garoto de dez, onze anos, era fascinado pela vida borbulhante de atividade do comércio de Parnaíba, onde dois tios possuíam bem sucedido escritório de representações, tanto de empresas estrangeiras, como de pequenos empresários, estabelecidos nas cercanias de Parnaíba. Agenciavam importações e exportações. Eram ativos, inteligentes, eficientes e confiáveis. Possuíam um Ford bigode, vestiam impecáveis ternos brancos de linho inglês. Eram falantes e comunicativos, interessados por novidades. José de Castro era um senhor exuberante, inteligente, louro, de olhos azuis, de caráter generoso e impetuoso, comunicativo, lindo e atraente. Eram homens de sucesso. José os admirava e eles apreciavam a esperteza do sobrinho. José adorava trabalhar para eles porque, além de lhe render umas comissões e lhe revelar os segredos da face econômica da esfinge da Vida, ainda o introduzia no burburinho do cais do Porto das Barcas e na azáfama da alfândega de Parnaíba.

Meu Pai deixou-se marcar, aí então, por visão muito pragmática da Vida. Escrevia com correção. Expressava com clareza e correção os pensamentos e os sentimentos. Conhecia os fundamentos da Aritmética. Apreciava informar-se dos acontecimentos sociais e políticos, através da leitura dos jornais, e, sobretudo, entender os acontecimentos econômicos nacionais e internacionais. Mas, não se sentia nada atraído pela vaidade da posse de vasta cultura, sem repercussão ponderável na rotina da vida de um cidadão comum. Sem dúvida, aqueles dois tios tiveram enorme influência na formação da personalidade de meu Pai. Ele percebeu que a Vida é uma conquista. Ele aprendeu que os negócios e a Vida são jogos, que têm normas próprias. Ele aprendeu que a Vida vale a pena ser vivida, quando se funda na fraternidade da convivência e se adquirem os meios materiais consentâneos.

E isso já o caracterizava na adolescência. Parnaíba nas décadas de 30 e 40 do século passado, restringia-se a oferecer a instrução média aos seus cidadãos: dois estabelecimentos de ensino primário, dois estabelecimentos de ensino secundário (o Ginásio Parnaibano e o Colégio das Irmãs) e a União Caixeiral, que ensinava Contabilidade.

Meu Pai se contentou com esse grau médio de aprendizagem. E o seu interesse teórico se limitava à prática da Língua Portuguesa e da Aritmética, bem como aos acontecimentos históricos contemporâneos, ocorridos no palco limitado dos grandes interesses políticos e econômicos. É claro que isso tinha influência no seu convívio com colegas e professores nas salas de aula do Ginásio Parnaíbano, onde a irmã Edmée trabalhava como professora e secretária.  

Certa vez, as divergências entre meu Pai e os colegas e professor se inflamaram a tal ponto que a aula teve de ser suspensa. Meu Pai ficou, então, preso na sala de aula, à espera do Diretor do Ginásio Parnaibano. Minha tia sentia-se arrasada com a expectativa da punição, que o irmão certamente iria padecer. Quando o Diretor chegou, se dirigiu à sala de prisão e a abriu, lá não encontrou o transgressor da ordem. Meu Pai já achara meios de escapulir para o seio aconchegante da Liberdade.

O Rio Parnaíba, sobretudo no Porto das Barcas, era o grande espaço de divertimento da garotada. Nadar no rio. Escalar o costado das barcas e lanchas. Delas saltar para mergulhar na água corrente e profunda. Todas essas deliciosas emoções fascinavam a garotada da cidade naquelas décadas. José, apesar de franzino, e isso preocupava muito a minha avó, enfrentava qualquer dificuldade para participar dessa esfuziante farra juvenil.

Na esquina fronteiriça à casa de minha avó, residia um casal amigo, Sr. Cristiano e D. Bela, numa casa bem construída. Era um casal sem filhos, que apreciava promover reuniões e festas. Sr. Cristiano, funcionário da Alfândega, acrescia seus rendimentos com atividades criatórias. Ele mantinha uma criação de vacas leiteiras no pequeno quintal de sua residência. Por vezes, meu Pai e o irmão caçula eram obrigados a ir lá beber leite mugido para se fortalecerem. Ele apreciava ver o Sr. Cristiano desfilar pela rua, montado no seu reluzente, vigoroso, insubmisso e lindo cavalo castanho, o Iconoclasta.  Outras vezes, assistia ao espetáculo de amansar os animais em plena Rua D. Pedro II.

Lá, no longínquo bairro da Coroa, na margem esquerda do Rio, fronteiriça à cidade, Sr. Cristiano possuía um sítio. Alí, na estação chuvosa, o caudal do rio se avolumava e descia rápido, forte e revolto, confrontando-se violentamente contra as margens, fazendo redemoinhos perigosos e até fatais. Certa vez, numa dessas épocas, minha avó sentiu ausência de meu Pai, mais longa que a habitual. Preocupou-se. Procurou obter notícias dele na vizinhança. D. Bela forneceu-lhe: deixei José lá na Coroa, no meu sítio; ele não para de atravessar o Rio, de um lado para o outro; não quis vir para casa comigo. Claro, minha avó foi busca-lo, puxando-o pelas orelhas.

Parnaíba era uma cidade progressista. Ela possuía uma usina elétrica, movida a energia térmica, obtida da queima de madeira. A usina funcionava todos os dias, mas apenas das 18 às 22 horas. Não encerrava suas atividades, sem antes avisar a clientela com longo apito. Certo dia, pelas 18 horas, meu Pai desapareceu e não se apresentou para a ceia. Claro, outra vez a ausência provocou preocupação em minha avó. Onde estava José? Simplesmente satisfazendo a sua curiosidade em saber como aquela usina funcionava.

Frequentemente, meu Pai partia para o interior do Estado, onde moravam os tios, os primos e os parentes do lado paterno. Conhecia-os todos e todas as suas propriedades.

Apreciava passar férias em Miguel Alves, cidadezinha comandada por José Rego, irmão de meu avô paterno, onde somente a casa de meu tio avô, a do vigário e a Igreja tinham, àquela época, coberta de telha. Grande era a mesa de refeições da casa de José Rego, ao redor da qual se sentavam quase duas dezenas de pessoas para alimentar-se: pai, mãe, avó, filhos e primos. A porta sempre aberta, ingresso franco para todos, parentes e amigos, e por onde com frequência penetrava em passos rápidos, quase correndo, o empregado carregando o boi, abatido para refeição!

Meu Pai montava em um cavalo e ia com os primos, especialmente o José Rego Filho, visitar os parentes. Passava por Porto Alegre, hoje Luzilândia, onde o primo Alcides de meu Pai, era líder político. Alcides era um comerciante lúcido, comunicativo e vitorioso. O tipo de gente por quem meu Pai nutria, desde criança, admiração. Esses eram os seus heróis. Esses eram os entes que habitavam o seu imaginário infantil e adolescente.

Ia até Barras, hoje cidade, visitar os Lajes, primos de meu Pai, que constituíam família importante da região, em razão de suas propriedades, atividades comerciais e liderança política.

Tinha extraordinária veneração pelo tio Alfredo, da região de Esperantina, como a avó Loura. Deleitava-se ouvir as histórias da família e as lutas políticas do tio Alfredo e dos primos, sentados em cadeiras confortáveis, no alpendre à frente da casa, de onde se abria vasta visão panorâmica sobre a redondeza. Por vezes, assustava-se com a aproximação de cavaleiros armados de facas e fuzis, para logo se acalmar percebendo que se tratava dos primos, prevenidos contra qualquer emboscada de inimigos da família. Esperantina também hoje é cidade.

Fez estreitos laços de amizade com as pessoas de todo esse imenso clã. Mais tarde, aqui em São Paulo, as portas de sua residência sempre estiveram abertas para aqueles parentes que a procurassem. Acolheu-os sempre que precisaram dele, por motivos de estudo ou por motivos de saúde, ou por motivos de negócio.

Pelo final da década de 40, meu Pai, já funcionário do Banco do Brasil, decide transferir-se para São Paulo, onde já trabalhavam dois irmãos. Ficaria próximo deles e de outro, o Haroldo, de quem sempre foi muito amigo e residia no Rio de Janeiro. Fixou-se inicialmente na cidade de Lins, onde conheceu um inspetor do Banco Bradesco, chamado Amador Aguiar. Os dois fizeram sólida amizade. Sob influência do amigo, José tornou-se acionista do Banco Bradesco. Essa amizade foi tão forte que se transferiu para os sucessores de Amador Aguiar na Presidência daquela instituição, perdurando até o fim da existência de meu Pai.

A mesma afeição que meu Pai dedicava ao Piauí e aos clãs dos Rego e dos Amorim, ele nutria pela cidade e pelo Estado de São Paulo e pelos paulistas. Orgulhava-se desta Terra e desta Gente. Além de Amador Aguiar, estreito foi o laço de amizade com Ernesto Prado. Apreciava o ambiente do Clube Hípico Paulista, onde mantinha cavalos que montava com assiduidade. Esta era a sua grande diversão.

         No ano de 1958, o tio Edgardo, irmão caçula de meu Pai, conhece uma jovem de São Luís do Maranhão numa festa no clube dos funcionários do Banco do Brasil, a AABB da Tijuca na cidade do Rio de Janeiro. O pai da moça, percebendo que o namoro rumava para casamento, procura o amigo, famoso inspetor do Banco, Rego Monteiro, que logo se tornaria o Gerente instalador da Carteira de Colonização do Banco do Brasil. É, o Banco do Brasil na época do Juscelino, época da Marcha para o Oeste, teve uma Carteira de Colonização! Pois bem, quis obter informações sobre o provável futuro genro. Rego Monteiro, confundindo meu tio com meu Pai, deu-lhe as melhores informações sobre o rapaz, mas com uma advertência: “Uma coisa não posso deixar de confidenciar-lhe, esse rapaz namora muito, mas não casa.”

         José casou-se logo depois do irmão caçula, com minha Mãe, Sônia, espírito prático e alma gêmea dele, dedicados à família, sentimentalmente ligados ao clã, e formaram um belo e responsável casal. Ambos, grandes cidadãos e grandes chefes de família.

Mas, não posso encerrar esta revelação da insuspeitada rica personalidade de meu Pai, sem me reportar à grande amizade que nutria pelo primo Francisco de Assis Gonçalves de Amorim Brandão, grande engenheiro químico nuclear, antigo professor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, o famoso ITA, em São José dos Campos, e Inspetor na AIEA em Viena na Áustria. Essa amizade nasceu em Parnaíba, na infância, quando ia visitar minha bisavó, que morava com a filha, a tia Eugênia, esposa do farmacêutico, Zeca Brandão, que foi professor concursado da Faculdade de Farmácia de Pernambuco, em Recife. Os dois se distraíam contando as novidades de Parnaíba, do Piauí e dos parentes ou analisando os acontecimentos políticos e econômicos, recentemente ocorridos no Brasil e no Mundo. O importante era o convívio e o relacionamento entre os dois.

Encerrando, é preciso que fique bem expresso o grande carinho e a imensa consideração que ele dedicava a esta Loja Maçônica e aos irmãos que aqui encontrou. Cada pessoa desta confraria ocupava um lugar especial no escaninho das amizades, que engrandeciam a pessoa de meu Pai, iluminavam o seu espírito e inundavam de satisfação a sua existência.

Nota.- Panegírico proferido na loja maçônica paulista, a que o homenageado pertencia, pela filha caçula, Ana Carlota, em sessão realizada em sua memória.









terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

484.A Marucha, Nos Seus 70 Anos



            Felicito-a hoje, no dia dos seus setenta anos, tomando emprestadas as produções de alguns poetas famosos.

            Inicio, utilizando-me de uma poesia de Olavo Bilac, dizendo-lhe que para mim nada existe de mais grandioso na face da Terra, que o amor entre o Homem e a Mulher, e isso é tão impressionante que na primeira lenda bíblica, a da criação, no Gênesis, elaborada há uns cinco mil anos, lá está, veja só, que Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, macho e fêmea o criou, isto é, o Amor é a Criação, o Amor é Tudo, o Amor é o Universo.

Criação
Olavo Bilac

Há no amor um momento de grandeza,
Que é de inconsciência e de êxtase bendito:
Os dois corpos são toda a Natureza,
As duas almas são todo o Infinito.

É um mistério de força e de surpresa!
Estala o coração da terra, aflito;
Rasga-se em luz fecunda a esfera acesa,
E de todos os astros rompe um grito.

Deus transmite o seu hálito aos amantes:
Cada beijo é a sanção dos Sete Dias,
E a Gênese fulgura em cada abraço;

Porque, entre as duas bocas soluçantes,
Rola todo o Universo, em harmonias
E em glorificações, enchendo o espaço!

            Assim, folgo em renovar hoje, no dia que completa 70 anos, através de lindos versos do poeta do amor, o grande Vinicius de Moraes, a confissão que lhe fiz, perante a sociedade e o Estado, há cinqüenta e um anos, numa radiosa manhã da cidade de São Luís do Maranhão, na igreja de Nossa Senhora dos Remédios :

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, ...,
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
(Soneto do Amor Total)




Eu te amo, Maria, eu te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.
(Soneto de Contrição)

Eu sem você
Não tenho porquê
Porque sem você
Não sei nem chorar
Sou chama sem luz
Jardim sem luar
Luar sem amor
Amor sem se dar

Eu sem você
Sou só desamor
Um barco sem mar
Um campo sem flor
Tristeza que vai
Tristeza que vem
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém.
(Samba em Prelúdio)

Vai tua vida
Teu caminho ê de paz e amor
Ah, tua vida
É uma linda canção de amor.

Abre teus braços e canta
A última esperança
Esperança divina
De amar em paz.

Se todos fossem iguais a você
Que maravilha viver
Uma canção pelo ar
Uma mulher a cantar
Uma cidade a cantar
A sorrir, a cantar, a pedir
A beleza de amar

Como o sol
Como a flor
Como a luz

Amar sem mentir
Nem sofrer
Existiria a verdade
Verdade que ninguém vê

Se todos fossem no mundo
Iguais a você.
(Se todos fossem no mundo iguais a você)

            Mesmo assim, não me furtarei a tomar de empréstimo versos de Luís de Camões, porque, na minha opinião, ninguém soube como ele expressar a intensidade de um amor humano:

I
Julga-me a gente toda por perdido,
vendo-me, tão entregue a meu cuidado,
andar sempre dos homens apartado,
e dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
e quase que sobre ele ando dobrado,
tenho por baixo, rústico, enganado,
quem não é com meu mal engrandecido.

Vão revolvendo a terra, o mar e o vento,
busquem riquezas, honras, a outra gente,
vencendo ferro, fogo, frio e calma;

que eu só em humilde estado me contento,
de trazer esculpido eternamente
vosso fermoso gesto dentro n'alma.

II
Olhos fermosos, em quem quis Natura
mostrar do seu poder altos sinais,
se quiserdes saber quanto possais,
vede-me a mim, que sou vossa feitura.

Pintada em mim se vê vossa figura,
no que eu padeço retratada estais;
que, se eu passo tormentos desiguais,
muito mais pode vossa fermosura.

De mim não quero mais que o meu desejo:
ser vosso; e só de ser vosso me arreio,
porque o vosso penhor em mim se assele.

Não me lembro de mim quando vos vejo,
nem do mundo; e não erro, porque creio,
que, em lembrar-me de vós, cumpro com ele

III

Quando da bela vista e doce riso,
tomando estão meus olhos mantimento,
tão enlevado sinto o pensamento
que me faz ver na terra o Paraíso.

Tanto do bem humano estou diviso,
que qualquer outro bem julgo por vento;
assi, que em caso tal, segundo sento,
assaz de pouco faz quem perde o siso.

Em vos louvar, Senhora, não me fundo,
porque quem vossas cousas claro sente,
sentirá que não pode merecê-las.

Que de tanta estranheza sois ao mundo,
que não é de estranhar, Dama excelente,
que quem vos fez, fizesse Céu e estrelas.

            Encerro esta confissão, valendo-me de versos de Cora Coralina, para afirmar-lhe que, de fato, não me atraiu o fascínio de realizações que me tornassem célebre na história de nossa sociedade, embora, sem dúvida, fui celebridade em minha época, você sabe, inclusive com retrato exibido com honra pelo Eximbank dos Estados Unidos na revista comemorativa do seu cinqüentenário. Meus planos sempre se concentraram na nossa vida familiar. E, por isso, você verá abaixo, concluo com versos de Fernando Pessoa, onde o grande poeta sintetiza notável visão da existência humana, fecunda em.revérberos de felicidade.
NÃO SEI...

Não sei... se a vida é curta...
Não sei...
Não sei...

se a vida é curta
ou longa demais para nós.

Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura...
enquanto durar.
         Cora Coralina

Ah, o mundo é quanto nós trazemos.
Existe tudo porque existo. Há porque vemos.
E tudo é isto, tudo é isto!
                                   Fernando Pessoa


Afinal, essa visão nos induz a pensar como Renan (O homem não se improvisa) e mais recentemente repetiu Sartre em pensamento mais afortunado (Tudo existe, mas o Homem, ele constrói a sua própria essência!). O que outros de forma mais vulgar também expressam, quando afirmam que a felicidade é o processo existencial, é a viagem, não é o destino!

Um beijo de quem muito a admira e ama


NOTA.- Composição produzida para comemorar os 70 anos de aniversário natalício, então completados por minha mulher.

           













segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

483. Os Fisiocratas


Os Fisiocratas

Os Fisiocratas são o conjunto de pensadores que escreveram trabalhos  importantes sobre economia opondo-se à ideia mercantilista de que a riqueza de uma nação consiste no entesouramento da riqueza (dinheiro),  e entendem que consiste na quantidade de matéria prima disponível para a produção de bens requeridos pela subsistência humana.

Fisiocracia significa o poder da Natureza. Os Fisiocratas entendiam que     a sociedade é um maquinismo natural, isto é, produto da Natureza, que, portanto, tem uma maneira própria de funcionar e produzir aquilo para o qual foi construída. Existe, pois, uma lei natural. Assim, a sociedade não seria uma criação do Homem, uma organização fabricada pelo Homem, um produto cultural. Se quiser que a sociedade realize a sua finalidade, uma vida rica, portanto, é deixa-la funcionar livremente, sem interferências humanas estranhas à ação da Natureza: “laissez faire, laissez passer (deixa fabricar, deixar passar=não cries obstáculos alfandegários). “O que farias, se fosses o rei?” questiona o príncipe francês, e Quesnay responde: “Nada”.

Quesnay era o médico de Madame Pompadour, a amante famosa de Luís XIV, eo rei francês, o astro sol da corte mais suntuosa do mundo em sua época. Foi pelo rei nomeado  médico da corte francesa. Ele concebia a sociedade como um organismo semelhante ao corpo humano que é vivificado pela circulação sanguínea. A sociedade é vivificada pela circulação do dinheiro e dos bens, que ele apresentou em 1766 na “Análise do Quadro Econômico”.

Boisguillebert ensinara que o dinheiro e os bens circulam pelo corpo da sociedade, porque a despesa do consumo de uma profissão é a receita e o lucro da venda de outra A riqueza é o volume de dinheiro (renda), que circula, não é o dinheiro que se entesoura e acumula, pensava ele. Quesnay adota essa ideia, mas adiciona outra de sua autoria: o dinheiro, que dá a partida para essa circulação do dinheiro (renda) e reconstitui os bens consumidos, é o dinheiro do capitalista.

Ele demonstrou esse seu pensamento no Quadro Econômico pulicado 1758.  Ele entende que a Economia possui três atores: o agricultor, o proprietário e o artesão. O proprietário compra produto, pelo custo do trabalho, do agricultor e do artesão.  O agricultor compra produto de outro agricultor e do artesão, pelo custo do trabalho, e o artesão compra de outro artesão e do agricultor, também pelo custo do trabalho. É claro, diz Quesnay, que no final as compras e vendas do artesão, se anulam, porque a manufatura apenas muda a forma das coisas, não lhes instila valor. A manufatura é estéril. No final, o artesão está com a mesma renda do início. O proprietário, comprando do artesão, não ganha nem perde, porque comprou pelo exato valor consumido na fabricação da manufatura. Mas, na compra que faz do agricultor, pelo valor do trabalho, ele adquire um bem que vale mais que isso, que é o valor instilado pela qualidade da terra (há terras mais produtivas e terras menos produtivas,; há terras que produzem com mais qualidade e outras com menos qualidade). Logo, no final, o agricultor se acha com o mesmo valor inicial em dinheiro, enquanto o Proprietário se acha de posse de matérias primas com valor superior ao inicial: o valor acrescentado pela terra.

Atualizemos as denominações de Quesnay para que a explicação se torne mais clara: agricultor é o trabalhador rural, Proprietário é o capitalista e artesão é o operário. O capitalista paga a ambos apenas o valor do trabalho, o necessário para a sobrevivência e se apossa do produto do trabalho de ambos. O produto do trabalho do operário está exato: só vale o seu trabalho. Mas o produto que o capitalista adquiriu do trabalhador rural vale mais que seu trabalho, tem o valor instilado pela terra: o capitalista adquiriu um bem por valor inferior ao que ele vale. O resultado final superavitário das trocas, das operações do mercado, na forma de matérias primas, isto é, produtos agrícolas e extração mineral, concentra-se todo na posse do capitalista, o produto líquido nacional. Trabalhador e operário se reencontram, no ponto final da circulação, na mesma situação inicial de dinheiro (renda). O capitalista, porém, está mais rico. A riqueza nacional é esse produto líquido da atividade econômica da nação. Não é a quantidade de ouro, de dinheiro, no cofre da nação, não é o entesouramento, não é o tamanho do tesouro nacional. A riqueza da nação vem da terra, tem origem na terra. Fisiocratas, Fisiocracia, o poder da Natureza.

O Capitalismo, pois, sintetiza Henri Denis, assenta na circulação permanente do capital. Ela aumenta a renda do capitalista, a renda da sociedade, a renda nacional. Ela garantiria o progresso econômico indefinido, segundo o pensamento fisiocrata. John W. McConnell ensina que os Fisiocratas pensam que a riqueza nacional se mede pelo montante do produto líquido nacional, e não, como pretendem os Mercantilistas, pelo tamanho do tesouro nacional.

O capitalista é como o coração humano: este é o motor da circulação sanguínea, enquanto aquele é o motor da circulação do dinheiro e dos bens. O motor capitalista da nação não para, está sempre acionado pela ambição do lucro, do aumento da riqueza, pela certeza de que há sempre possibilidade de venda lucrativa do produto, porque as necessidades humanas são inesgotáveis, infinitas, há sempre mercado para toda produção, como afirmava Quesnay: “Não é o consumo das produções que falta numa nação, onde a maior parte dos cidadãos nunca consome tanto quanto desejaria consumir; é o bom preço que falta quando não está assegurado por livre concorrência do comércio.” Quesnay subentendia que a superprodução é impossível. Ele não entendia que a procura econômica, a demanda é uma procura efetiva isto é, uma necessidade com poder de compra, com dinheiro em ação.

Essa é, pois, a oposição fundamental entre Mercantilismo e Fisiocracia, o conceito de riqueza nacional: o tesouro nacional para o Mercantilismo e a produção primária para a Fisiocracia. As principais consequências             econômicas também são opostas: para o Mercantilismo, a riqueza é uma propriedade do rei, do Estado e, portanto, pela população deve ser produzida sob o comando do rei, do Estado - Comércio e Protecionismo -; para  a Fisiocracia,  a riqueza é produção da Terra, propriedade do Capitalista e copropriedade do rei, do Estado – livre comércio, livre mercado (laissez faire, laissez passer), livre do comando estatal, da interferência estatal. A análise econômica de Quesnay é o primeiro estudo  de macroeconomia na História.

Até aqui as ideias econômicas. Henri Denis, todavia, esclarece que para os Fisiocratas a Economia era uma ciência do Homem e que, por isso, englobava o estudo da política, da sociedade e da moral. A Fisiocracia, diz ele, poder-se-ia sintetizar na famosa frase de Linguet: “Um só Deus, um só príncipe, uma só lei, um só imposto, uma só medida.”  Deus fabricou essa máquina que é a Natureza. Injetou-lhe um funcionamento, que é a lei natural. Erigiu um princípio de ordem para a sociedade social, que é o monarca absoluto, o coproprietário da riqueza que é propriedade do capitalista, e que precisa governa-la segundo a norma natural estabelecida por deus, para que a riqueza atinja a medida natural, nada mais prescrevendo que o imposto único sobre a renda do capitalista. Capitalista rico, Estado rico e poderoso.

Os Fisiocratas formam uma escola econômica, cujo chefe foi François Quesnay, ao qual se agregam vultos como Dupont de Nemour, Le Mercier de La Rivière e o Abbé Baudeau.                   








segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

482. Você É

Descanso do meu trabalho
Rima do meu poema
Coringa do meu baralho
Certeza do meu dilema.

Quanta cousa você é...
O vento do meu moinho
O roteiro do meu caminho
O açúcar do meu café
O fogo do meu cigarro
A força do meu carro.

Alegria do meu tédio
As cores do meu olhar
Efeito do meu remédio
Razão do meu amor.

Peixe do meu aquário
Manchete do meu jornal
Rei do meu rosário
Bem de todo meu mal.
Pedrinha do meu sapato
Sonho do meu viver
Verdade do meu ato
Conforto do meu sofrer.

Cigano da minha sorte,
Veneno da minha morte

Nota.- Poesia, que julgo antológica, composta, na década de 70 do século passado, por  minha mulher, Marucha, Maria de Aguiar Rego.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

481. Reflexões a Pretexto do Mercantilismo



Mercantilismo é palavra derivada de mercantil, derivada de mercante, derivada de merca, palavra portuguesa que significa merces, vocábulo latino indicativo do objeto de uma relação de troca, com o intuito de obter lucro, de aumentar o patrimônio, a propriedade. Mercado é qualquer tipo de grupo de mercadores - vendedores e compradores -, qualquer agrupamento de pessoas, promovido por relacionamentos com intuito de trocas lucrativas.

O Mercado não é instituição natural. Isto é, não é produto da Natureza, É criação humana. O Homem Primitivo, que vivia da colheita e da caça abundante, no restrito ambiente familiar, com restritas necessidades para a sobrevivência, na ampla vastidão de espaço geográfico despovoado, não tinha necessidade de troca para subsistir. Nessa sociedade humana, as coisas todas pertencem a todos, a propriedade é coletiva, é comum. Cada um delas se apossa na quantidade do que necessita para subsistir, à medida que necessita e quer.  

A troca surge com o aumento populacional e diversificação das necessidades de sobrevivência. As coisas necessárias para subsistir rareiam,  diversificam-se e encontram-se na posse de indivíduos diferentes. Cada um, com seu interesse próprio e específico de subsistência, guarda e acumula terras e bens,    precavendo-se contra a falta deles no futuro, garantindo a própria subsistência no presente e no futuro. As coisas passam de uma pessoa para outra ou de forma violenta, via extorsão, ou num relacionamento do tipo pacífico, amistoso ou até mesmo interesseiro, lucrativo. O mercado, criação do Homem, produto cultural, portanto, tem sua origem na propriedade privada, e esta nas necessidades humanas individuais, que Gilgamesh já nos ensinou: “Jamais encontrarás o que procuras”, isto é, são infinitas, O homem sempre quer possuir mais, melhor e com menos trabalho. Os livros didáticos de Economia expressam a mesma ideia através daquele princípio: “os recursos são escassos”.

Na época das cidades-estado gregas, em Esparta, a cidade que fez guerra vitoriosa contra a famosa cidade–estado de Atenas, a propriedade era coletiva. Platão, um dos maiores sábios da História, cidadão de Atenas, pensava que a propriedade deveria ser coletiva. Aristóteles, seu mais famoso discípulo, e tão eminente sábio quanto o mestre, discordava: “Sem dúvida é melhor a propriedade ser privada.” Mas adicionando “E função especial do legislador é criar nos homens um temperamento benevolente.” Aristóteles explicava que a propriedade privada estimula o sentimento da ambição que é o estímulo do progresso, enquanto a propriedade coletiva amortece o sentimento de responsabilidade pela sua permanência e acréscimo. John Locke, em Ensaios sobre o Governo Civil (1690), afirma que existem os direitos naturais individuais à integridade pessoal e à propriedade, que o Estado não pode ignorar. Sobre este último adiciona: “Na origem, o indivíduo pode, pois, apropriar-se apenas da quantidade de terra que pode cultivar e cujos frutos consumir. Mas, como os homens, desde que inventaram a moeda, podem acumular riqueza em quantidade ilimitada, consentiram, então, numa posse não proporcional e desigual de terra.” Entendia que o fim da sociedade é produzir a maior quantidade possível de coisas úteis, sem preocupação com a repartição e com as consequências de uma repartição desigual. 

Também o dinheiro é uma criação do Homem, um produto cultural. Primitivamente o que existiu foi o escambo, a troca simples, direta de uma coisa por outra. Posteriormente, o Homem inventou um meio de troca, o dinheiro. O dinheiro é uma medida de valor. Por muito tempo, o dinheiro se identificou com o ouro, metal precioso, valioso. Determinada quantidade de ouro era a unidade de valor. As coisas se trocavam por quantidades que tinham o mesmo valor. Trocas em quantidades de valor igual, troca honesta, preço justo, ensinava a Igreja e Tomás de Aquino: “Homem algum deve vender uma coisa a outro homem por mais do que ela vale.” 

O dinheiro facilita o comércio, a troca, porque viabiliza a troca descasada, pode-se ser apenas comprador ou apenas vendedor, e pode-se, consequentemente aguardar a melhor oportunidade para fazer o negócio de compra e o negócio de venda. No escambo, ao contrário, a troca é sempre casada, todo comprador precisa ser vendedor. Só existe a venda, se existir a compra,

O dinheiro hoje é mera medida de valor. Mera convenção. Nem quantidade física de coisa material valiosa é. É mera instituição, produto cultural, produto mental. O Estado imprime num papel, com determinada regulamentação, a expressão R$1.00 e esse papel adquire esse valor, e pode ser trocado por qualquer coisa que possua esse valor. Ou muito menos que isso, um banco simplesmente digita na conta bancária de uma pessoa R$1.000,00 e ela passa a possuir mil reais.

Já no século XVI, observou-se que o dinheiro não era medida muito confiável, pois a mesma quantidade de mercadoria, anos transcorridos, valia mais, seu valor havia subido. Em geral, atribuíram o fato à desonestidade dos banqueiros que frequentemente desvalorizavam o       dinheiro, dele subtraindo parcela de ouro. Um mercantilista famoso, todavia, Jean Bodin, atribuiu o fato, sobretudo, ao aumento da quantidade da moeda no mercado, resultante da própria política econômica mercantilista: o preço, o valor das coisas é função da quantidade de dinheiro no mercado, mais dinheiro, preço mais alto, as coisas valem mais; menos dinheiro, preço mais baixo, as coisas valem menos. Jean Bodin percebeu que dinheiro em excesso provoca a inflação dos preços. É o início da teoria quantitativa da moeda.

Mas, o dinheiro que se amontoava nas casas e nas organizações de mercadores precisava de depósitos mais amplos e mais seguros para sua guarda. Os banqueiros, que se dedicavam a emprestar dinheiro para os reis e negociantes, passaram a usar seus cofres para guardar dinheiro e tesouros de outros negociantes e famílias. Os recibos, as ordens de pagamento, os saques, as promessas de pagamento, tudo isso, em ultima análise, nada mais era senão dinheiro. Os bancos fabricam dinheiro. O dinheiro fabrica dinheiro. A letra de câmbio, a sociedade de responsabilidade limitada, a sociedade por ações, e as bolsas de valores e de commodities facilitaram agilizaram e expandiram o comércio, amenizaram os riscos de fracasso, forneceram mais segurança e estabilidade de recursos.

Já que o dinheiro nada mais é que uma medida de valor das coisas, não é de admirar que em 1690 William Petty, no seu Political Arithmetick, haja fornecido, como informa Roberto Campos, “contribuições pioneiras,,,à metodologia do cálculo de renda e da riqueza nacional, e,,, aos primórdios do cálculo estatístico.” A Economia Política  adentrava no grupo das ciências exatas. E passou a questionar o que é o valor das coisas, por que uma coisa é preciosa, é valiosa, e outra não é? por que uma coisa é cara e outra é barata? o que é o valor?

William Petty deixou sua opinião em Tratado das Taxas e Contribuições (1662): “Tudo devia ser avaliado segundo duas denominações naturais:
terra e trabalho... deveríamos dizer um navio ou uma vestimenta valem tal medida de terra ou tal medida de trabalho, posto que navio e vestuário são produtos das terras e do trabalho humano dispensado.” e, nessa mesma obra, parece atribuir o valor das coisas ao trabalho apenas: “A carestia e a barateza naturais das coisas dependem do maior ou menor número de braços requeridos para os produtos necessários à vida...” Esta ideia foi esposada por John Locke, em 1690, na obra supracitada: “...porque é o trabalho que estabelece uma diferença de valor entre as coisas,”  e explica:  “É, pois, o trabalho que dá a uma terra a maior parte do seu valor; sem ele, ela não valeria quase nada.”

Henri Denis assinala outra contribuição de John Locke à ciência econômica, em suas “Considerações sobre o Abaixamento do Juro e a Elevação do Valor da Moeda” (16910: a ideia da existência de uma taxa natural de juro do dinheiro, que não poderia ser modificada por medida legislativa.,. oportunidade em que “apresenta análise já muito elaborada da formação dos preços no mercado em função da oferta e da procura, onde parece abdicar da teoria-valor trabalho, ligando o valor à utilidade e raridade das coisas.

Nesse mesmo ano de 1691, Sir Dudley North, nobre inglês, comerciante,, presidente da Câmara de Londres, manifestava nos “Discursos sobre o Comércio” repulsa ao protecionismo estatal preconizado pelos mercantilistas:
“Do ponto de vista do comércio, o mundo inteiro nada mais é que uma só nação ou que um só povo, no interior do qual as nações são como pessoas...
“A moeda exportada no comércio constitui um aumento da riqueza da nação,”
“Toda medida a favor de um comércio ou de um interesse contra outro é um abuso e diminui igualmente o proveito do público.”
“Não cabe em nenhum caso à lei fixar os preços no comércio, porque os seus níveis devem fixar-se, e fixam-se por si mesmos.”
“Quando uma nação se tornou rica, o ouro, a prata, as joias e todas as coisas úteis e desejáveis... são abundantes.”
“Nunca nenhum povo se tornou rico por intervenções do Estado, mas a paz, a indústria e a liberdade, e não outra coisa, é que trazem o comércio e a riqueza.”

Pierre le Pesant, senhor de  Boisguillebert, em três livros, As Particularidades da França (1697), Memorial da França (1707) e Testamento Político do Marechal de Vauban (1712) contra os impostos  sobre a venda dos produtos e os direitos aduaneiros externos e internos, bem como a isenção da renda dos ricos, argumentava que eles restringem a procura dos produtos, quando o consumo é precisamente a fonte do desenvolvimento da riqueza. Assim, a causa da pobreza da França é o baixo nível de consumo da população. Uma nação atinge o nível máximo de riqueza quando atinge o nível máximo de consumo; e atinge o nível máximo de consumo, quando atinge o preço de viabilidade de todas as trocas  (o preço de justiça, isto é, que proporciona um ganho normal a todos os vendedores). A riqueza é, pois, produto do funcionamento do mecanismo da formação de preços normais. O protecionismo, a interferência  no funcionamento desse mecanismo, portanto, provoca a pobreza. A liberdade de comércio, pois, é condição necessária e suficiente para a criação da riqueza. A riqueza de uma nação se assenta na liberdade de comércio.

O Livro da Economia faz precioso resumo da ideia econômica mercantilista e da ideia econômica divergente de Boisguillebert, que resumo: a visão mercantilista cultural – a riqueza é o entesouramento-, e a visão boisguillebert naturalista – a riqueza é a abundância de dinheiro circulando no sistema. A visão mercantilista cultural consagra o papel do Estado, o grande negociante, que acumula ouro, e interfere na economia com tributos, subsídios e monopólios. A visão boisguillebert naturalista: o importante é o consumo dos bens, a circulação do dinheiro; mais vale o dinheiro gasto pelo pobre, que o dinheiro poupado pelo rico.
 







 

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segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

480. O Início da Ciência Econômica: o Mercantilismo.



No texto 472 vimos que a Humanidade, entre os séculos XIV e XVII EC passou por transformação profunda da mentalidade, do que pensa sobre si mesma, sobre a vida, sobre a existência, sobre o Universo. A Terra não é mais o centro do Universo. O Estado não é mais uma organização outorgada por Deus. Ele é uma construção humana.  A vida terrena não é mais um período de prova de submissão a Deus. Ela é o fugaz período da existência do indivíduo humano.  O Homem é o mais perfeito dos seres da Natureza e tem o poder de autoconstruir-se, e, portanto, de planejar e realizar uma vida boa.
     
Assim, vimos que, concumitantemente com a modificação da mentalidade, transformava-se seu comportamento, de modo que, impulsionado por vigorosa ambição, o Homem promoveu cultura e civilização bem diferentes, onde predominava a ambição de fruir de uma vida boa. A principal ambição daqueles tempos era a vida boa, A vida boa que se fruía nas cidades-estados e nos reinos, sobretudo por parte dos burgueses e das cortes. Os burgueses, os fidalgos e os reis haviam-se lançado no desenfreado empreendimento da construção da própria vida boa.

A novidade daquela época, a novidade espetacular, revolucionária, que toda a Europa constatava e vivenciava era que o comércio (comprar barato e vender caro) gerava a riqueza e que a riqueza gerava a vida boa bem como os reis e países poderosos. David S. Landes, em “A Riqueza e a Pobreza das Nações”, descreve como os comerciantes das cidades italianas desciam até a nascente do Nilo e aventuravam-se até os confins da Pérsia para comprar mercadorias – sedas, tecidos, especiarias, mantimentos, minérios e marfim- e adquirir ouro e prata. Will Durant descreve a extraordinária didática das persistentes e curtas viagens por entre as ilhas e ao longo do litoral africano, adotada pela escola de navegação organizada pelo Infante D. Henrique, que preparou Portugal para enfrentar façanha mais atemorizante, dizem os entendidos, que a hodierna viagem à Lua: as lendas apavorantes; a ampla realidade desconhecida e imprevisível de água e firmamento, calmarias e tempestade, escassez de água potável e alimento; a monotonia da diuturna convivência de uma população de aventureiros de baixíssimo nível educacional e ético ao longo de dias, semanas, meses, anos, em embarcações diminutas e sem acomodações confortáveis; fome e doença; encontros com populações de feições, cultura e língua diferentes, amistosas e desconfiadas umas, espertas e negociadoras e belicosas outras; o mero e inaceitável assentamento em terras já habitadas por outras gentes.

Os principados italianos tinham a amplitude e a tranquilidade do Mar Mediterrâneo para relacionarem-se com o mercado ofertante, bem como os rios navegáveis da Europa para atingir o mercado demandante. Mas Espanha e Portugal, a Península Ibérica, isolada, ao Norte, fisicamente pela cordilheira dos Pirineus, e ao sul, politicamente, pelo invasor árabe muçulmano, abria suas portas apenas para o tenebroso Oceano Atlântico. A Espanha, através de relacionamentos familiares avançou para Leste e estendia sua soberania sobre várias ilhas mediterrâneas, alcançando até a Sicília no sul da península italiana. Portugal, porém, somente contava com sua tecnologia de navegação oceânica de vanguarda, que estendia seu comércio à Inglaterra, à Alemanha e aos Países Baixos, os grandes centros comerciais do Mundo, Antuérpia, Amsterdã e Roterdã.

Cristóvão Colombo tentou várias vezes, sem sucesso, dissuadir reis portugueses da ideia de alcançar as Índias contornando a África e abraçar a sua proposta de financiar uma expedição pela rota oposta na direção Oeste. Ele tentava aliciá-los propondo regressar com as naus carregadas de metais preciosos, ouro e prata. Os reis portugueses não se deixaram persuadir pelo marinheiro genovês. Mas, ele teve sucesso em convencer, contra a opinião do conselho régio, a notável rainha de Espanha, Isabel de Castela, que financia quatro expedições de Colombo à América que ele persistia em afirmar que eram as Índias e de onde trazia ouro e prata.

Os reis de Portugal, então, intensificam sua tentativa de chegar às Índias pela rota Leste e Vasco da Gama consegue realizar o projeto lusitano, iniciando o primeiro império colonial da História, que durou um século e colocou Portugal à frente de todas as nações, nesse período. O rei de Portugal sarcasticamente envia ao rei espanhol carta, descrevendo as terras indianas por Portugal descobertas, precisamente em acordo com as expectativas, ao contrário das que estavam sendo percorridas por Colombo. Portugal desde a primeira viagem de Vasco da Gama interessou-se pelo comércio.

 Logo, as duas nações, Espanha e Portugal. trataram de excluir os demais países europeus, de se beneficiarem dessa fonte de enriquecimento, as terras recém-contatadas a Leste e a Oeste, o abastecimento de ouro e prata e o comércio de mercadorias, principalmente especiarias. Assim, essas duas nações foram beneficiadas, com a repartição das terras descobertas entre elas, por decisões dos Papas Sisto IV, Nicolau V e, por fim, Alexandre VI, papa espanhol,  concluindo-se na demarcação do Tratado de Tordesilhas.

Por essa época, a fé de muitos príncipes europeus na soberania universal da Igreja já não lhes era tão profundamente arraigada na mente que os submetessem, quando os interesses materiais e políticos fossem contrariados pelo Papa. Assim, os reis europeus, sobretudo dos Países Baixos, Inglaterra e França desenvolveram suas frotas navais e lançaram-se também nas rotas líquidas dos vastos mares oceânicos, à cata de ouro e prata ou estabelecendo bases de comércio. O rei de Portugal reclamou do rei francês o seu desrespeito pela repartição papal das terras do Mundo entre Portugal e Espanha, e este galhofeiramente lhe indagou em que parte do testamento de Adão se acha essa repartição registrada.  

Como se vê, os reinos daqueles anos da Renascença já se dedicavam com o máximo empenho na criação de um império colonial, com a finalidade da   acumulação de ouro e prata, ou extraindo-os da própria terra agregada ao seu domínio, ou através do comércio internacional.  Os reinos queriam ser poderosos. Para ser poderosos, queriam ser ricos. Para ser ricos, queriam ter dinheiro, isto é, ouro e prata. Para ter ouro e prata, eles queriam ter colônias, de onde extrair ouro e prata, ou mercadoria para comerciar, recebendo ouro e prata pelas mercadorias fornecidas. As cidades da Itália ensinaram ao Mundo que se fica rico através do comércio. E logo o hábito do comércio se espalhou pela continente europeu.

Durante quase um século Espanha e Portugal se colocaram como as mais ricas nações da Europa, acumulando ouro e prata, e Portugal, à frente de todas as nações, a mais rica, precisamente mediante o comércio das especiarias, até que surgissem os primeiros tratados sobre economia, redigidos por comerciantes ou por conselheiros reais.  O foco desses estudos, portanto, era a riqueza. A finalidade era saber como se deveria proceder para enriquecer, sobretudo, o rei. O pressuposto básico desses estudos era o conceito de riqueza. Essa fase moderna inicial do pensamento econômico, apelidou-se de Mercantilismo, “a primeira tentativa de produzir-se uma teoria econômica da Sociedade: o fim da sociedade é a riqueza e os meios de conseguir a riqueza são os negócios comerciais dos cidadãos, expandidos sob o amparo do poder do Estado”, explica Henri Denis. Compulsando os livros sobre História da Ciência Econômica,  encontra-se vasta lista de autores incluídos no grupo Mercantilismo.

A Ciência Econômica, portanto, surgiu em razão de um fato histórico: os grandes e poderosos reinos surgidos nos séculos finais da Idade Média, precisavam ser poderosos e, sobretudo, ricos. Poderoso para subsistir, em meio a impérios rivais e ambiciosos. Rico, para ser poderoso, e subsistir em meio a súditos ambiciosos e igualmente aspirantes a uma vida boa.

O conceito básico da teoria mercantilista é, pois, o conceito de riqueza. Riqueza para o Mercantilista era, antes de tudo, o dinheiro (o tesouro= ouro e prata), porque o dinheiro tudo adquire, os bens de consumo e armas para guerra, inclusive paga os mercenários contratados para a guerra, faz os impérios fortes. É provável que a maioria entendesse que a abundância de bens de consumo fosse mais importante que o dinheiro. Mas, para os reis e para os reinos, sobretudo, o mais importante era o dinheiro, que por tudo se troca, tudo compra.

É amplo o elenco de personalidades incluídas nesse grupo de pioneiros da teoria econômica, o Mercantilismo: Azpilcueta, Tomás de Mercado, Botero, Jean Bodin, Antoine de Monchretien, James Steuart, William Petty, Jean Baptiste Colbert e outros muitos. Mas, três são principalmente citados como os principais vultos do Mercantilismo: Antonio Serra, Antoine de Monchretien e, o mais importante, Thomas Mun.

O Livro da Economia resume o Mercantilismo em duas palavras: comércio e protecionismo. E explica :
A riqueza consiste na posse do ouro (dinheiro); logo,
 a riqueza de uma nação é medida pelo tamanho de seu tesouro (a quantidade de ouro existente nos cofres do reino); logo,
a exportação enriquece a nação (enche o tesouro)
a importação    empobrece a nação (esvazia o tesouro);
ora, a quantidade de ouro existente no mundo é fixa, inalterável;
logo, o que uma nação ganha, a outra perde;
logo, o rei precisa promover a exportação e impedir a importação.

Entendo, pois, que Wikipédia haja resumido corretamente o Mercantilismo nos seguintes princípios:
Incentivos às manufaturas
  Produzir tudo o que possível for, e com o maior valor agregado, e exportar o excedente ao consumo interno..
Protecionismo alfandegário
  Promoção da exportação, sobretudo de manufaturas, e aos meios nacionais de transporte.
  Restrição à importação, dificultando e até impedindo a importação de bens estrangeiros.
Balança comercial favorável
O esforço era para exportar mais do que importar, de modo que os ingressos de moeda fossem superiores às saídas, deixando boa situação financeira.(Soma zero, isto é, volume do comércio mundial seria inalterável, fixo, a vantagem de uma nação seria desvantagem da outra)
Colônias de exploração
Suprimento de matéria prima barato e monopólio de comércio.                  Formaram-se dessa forma os impérios.

Antoine de Montcrethien era um mercantilista puro extremado: advogava a autossuficiência da França e vituperava a permissão para qualquer importação. Mas, seu conceito de riqueza não se atinha exclusivamente à abundância de ouro, incluía igualmente a abundância de todos os bens necessários para a subsistência. E John W McConnell adiciona que Montchretien entendia que a principal finalidade do Estado é fazer que haja abundância de bens materiais à disposição de todos os cidadãos. E arremata que, por isso, os estudos econômicos passaram a denominar-se Economia Política.