terça-feira, 18 de janeiro de 2022

529. Ainda Sobre o Estado Grande

             Alguns pensam que, estabelecido o Estado Grande, uma nação marchará inelutavelmente para o progresso. A História dos nossos dias não convalida essa opinião.  

Tenho absoluta certeza de que, pelo menos desde o ano de 1966, vozes autorizadas e sensatas do meio acadêmico, do meio econômico e mesmo do meio financeiro se faziam ouvir, vaticinando que a atividade bancária exacerbada dos empréstimos da subprime e dos derivativos não se sustentaria.

Governo algum tomou providência. Todos os governos estavam satisfeitíssimos com os resultados auspiciosos do curto prazo, que alimentavam o próprio marketing de sucesso político. O meio financeiro norte-americano tocava a música e o resto do mundo dançava aloucado.

Uma instituição, que facilitou a excessiva alavancagem bancária, responsável por toda essa farra, foi o paraíso fiscal. Ora, o paraíso fiscal existe, pelo menos, desde a década de 60 do século passado, com o conhecimento e sob a complacência dos Governos de todos os países.

 E os governantes sabiam e sabem que os paraísos fiscais existem para lá se realizarem operações bancárias legais e ilegais, sobretudo as ilegais. Entre essas operações ilegais, além da lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio criminoso, inclui-se a sonegação de impostos. Vejam só: os Governos faziam e fazem vistas grossas exatamente a essa burla fiscal.

E há ainda Governos que surpreendem, eles mesmos praticando burlas inacreditáveis, que conduzem a prejuízos gigantescos à própria nação e até aos parceiros políticos, como o caso atual do Governo grego que, poucos anos atrás, para obter o ingresso na União Européia, não teve escrúpulo algum de contratar peritos financeiros para maquiar as suas contas públicas. Hoje está aí a Grécia soçobrando sob as conseqüências de sua farsa e provocando grandes problemas à economia da União Européia.

Estado não é garantia de legalidade, nem de moralidade, nem de sucesso econômico nem político nem militar. Não existe garantia absoluta para nada disso. Ainda assim, a maior garantia, que pode existir para tudo isso e para a sobrevivência de uma Nação, é o alto nível de moralidade e de cultura de seu povo. Instruir e educar. Educar. Educar. Educar.  

(escrito em 02.01.2007)

 

           

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

528. Cidadão (escrito em 02.03.2011)

Não sou escravo, nem servo, nem súdito: sou cidadão.

Não me sujeito a homem algum, só à Lei: sou livre!

Perry Scott King inicia o seu opúsculo Péricles com uma análise de um dos mais famosos discursos da História, ou talvez o mais famoso, a oração fúnebre, proferida pelo grande ateniense em homenagem aos atenienses mortos na Guerra do Peloponeso.

Entre outras originais afirmações que se tornaram valores da Civilização Ocidental ele afirma: “Somos ricos, porque somos livres, e somos livres, porque somos ousados.” A mais importante entre todas, porém, é aquela outra: “Sou livre, porque só me submeto à Lei, que eu próprio promulgo.”

Antes da Cidade ateniense, o poder político, o poder de mando numa sociedade, cabia ao indivíduo mais ambicioso, mais audacioso, mais astuto, mais hábil na arte da luta e de maior sorte. Este era o senhor de tudo e de todos. Todas as demais pessoas se subordinavam à vontade do chefe de clã ou de tribo, ou rei. Os favoritos do Rei, dele recebiam terras e nelas também mandavam como o Rei, desde que colaborassem com ele e a ele se sujeitassem. Todas as demais pessoas nada mais eram que propriedade do Rei, máquinas de produção daquilo que o Rei queria possuir. Eram escravos. Os escravos obedeciam à Lei do seu proprietário. A vida, tessitura de guerras e trabalho, não merecia o mínimo valor: “Não ter nascido, não ver jamais o sol, acaso existirá bênção maior?”( Teógnis de Mégara, século V AEC)

 

Antes da Atenas Democrática, a dignidade do indivíduo humano consistia na dominação sobre os demais indivíduos. Estes indivíduos possuíam as grandes qualidades humanas: Ambição, Coragem, Astúcia, Habilidade bélica e Sorte (a simpatia dos deuses). E os grandes valores humanos eram o Poder, a Honra, a Riqueza (a posse de terras) e o Ócio. O trabalho era vilania, coisa de escravo. O rei e os favoritos só se dedicavam à guerra, à pilhagem.

Muito disso, muito mesmo, permaneceu na Atenas Democrática, sobretudo a escravidão. Uma ideia inovadora, todavia, surgiu: a Cidade Grega, a sociedade grega, é formada de cidadãos, isto é, de homens livres, homens que se regem pela Lei, se submetem à Lei e não a um outro indivíduo qualquer. A Lei é elaborada através do debate amplo entre todos os cidadãos. É que ela é a Ordem, a Lei imposta por Zeus ao Cosmos e especialmente a Lei por ele imposta, através de Atená, à sociedade de Atenas. E essa Ordem, essa Lei divina, só é conhecida através do debate democrático.

A Lei para os gregos não era uma vontade humana, a vontade de um indivíduo. Ela era a mera descoberta da ordem social, através do debate dos assuntos de interesse da Cidade por todos os cidadãos. Para o Ateniense o debate democrático descobre a Ordem, a Lei da Cidade, e submeter-se a esta a todos interessa. E ninguém dela pode escapar sem prejuízo, porque o Destino (as Moiras ou as Parcas) se encarregam de recolocar na Ordem social, os que delas se desviam, mediante os castigos, as Desgraças.

Foi a mentalidade política de Atenas que produziu o prodigioso Império Romano. Todo romano era cidadão, guerreiro e dirigido pelo Senado do Povo Romano. O povo romano não trabalhava. Ou guerreava para se tornar dono de terra, ou governava províncias conquistadas, ou vivia gratuitamente de pão e circo, concedidos pelo Imperador. O trabalho era função do escravo, ser abjeto, vil. Roma subjugou o Mundo inteiro, então conhecido, para que todos os estrangeiros, todos os bárbaros, para ela trabalhassem, enquanto o Povo Romano ou usufruísse do ócio prazeroso (pão e circo) ou se empregasse nas guerras de conquista nobilitantes.

O Cristianismo modificou essa mentalidade. Somos todos iguais, somos todos filhos de Deus, somos todos irmãos. A Terra é um lugar de passagem, de prova, de sofrimento, de conquista da Felicidade. Entre esses sofrimentos e castigos, existe um muito especial e geral: o Trabalho. Ao criar o Homem, Deus criou uma ordem social: criou os que mandam e os que obedecem. Uns trabalham mandando (fazendo guerras de pilhagem), outros trabalham obedecendo. Deus criou os Senhores (reis, senhores feudais, papas, sacerdotes) e criou os servos. Aqueles mandam, estes obedecem. Aqueles sabem, estes ignoram. Não existem escravos, mas existem servos. O servo obedece à Lei de seu senhor.

A partir do século XIV, acentua-se a presença da burguesia na Itália, o negociante rico, o povão rico, que sustentava o Rei contra o Senhor feudal e contra o Papa. A riqueza fortificou o Rei, destruiu o feudalismo, e criou o súdito. Passou a existir o Rei e o súdito. O Rei manda e faz guerras de conquista e o súdito trabalha. O súdito obedece à Lei do Rei. Quando interessa ao Rei, até morre nas guerras de conquista. A burguesia, o povão rico, descobriu o valor do trabalho (para Adams Smith a riqueza é o trabalho eficiente) e o valor dos prazeres terrenos adquiridos pelo trabalho: “Terra, melhor que o céu!” (Olavo Bilac)

No fim do século XVIII, no continente chamado América, ocorre extraordinária revolução política, cria-se um Estado, um País, uma Nação, sem Rei. Um Estado sem Rei e sem súditos. Um Estado onde os conviventes são iguais politicamente, onde não há essa divisão entre os indivíduos que mandam e os indivíduos que obedecem. Todos mandam e todos obedecem. E todos trabalham. Todos fazem a Lei e todos obedecem à Lei. Todos se autogovernam. Todos somos cidadãos.

Foi assim que surgiram os Estados Unidos da América. Tenha a América do Norte os defeitos que  tiver, ninguém lhe tira a glória de ter por primeiro implantado na face da Terra, nos tempos modernos, o Estado Democrático sem Rei. Instituição política tão revolucionária, que ainda precisa ser aperfeiçoada. E, segundo “Os clássicos da política” de Franciso C. Weffort, foi lá que se discutiram os institutos da representação e dos partidos políticos.

As lições que pretendo tirar de tudo isso são, sobretudo, estas:

- não sou escravo, não sou servo, não sou súdito, sou cidadão.

- só obedeço à Lei, que eu faço através dos representantes meus, isto é, do Povo.

- a representação existirá na Democracia, enquanto ela for necessária e a Democracia direta for inviável.

- a representação já se modificou ao longo destes últimos dois séculos.

- a representação modificar-se-á com o formidável progresso das comunicações e, talvez, até se extinguirá em parte ou totalmente.

- o instituto corporativo atual, a empresa, sofrerá modificações, à medida que o nível de conhecimento se elevar, a tecnologia de comunicação progredir e a tecnologia de produção se aperfeiçoar.

- as relações econômicas subordinam-se às relações sociais e políticas, afirma Paul Krugman, isto é, o mercado livre, o instituto fundamental de produção e distribuição da riqueza subordina-se ao tipo de sociedade que os cidadãos de um Estado pretendem organizar para conviver pacificamente.

- a sociedade começa a incomodar-se vivamente com o tipo de organização econômica que permite a existência dos CEOS e outras classes de privilegiados, com acesso a todos os bens (desde a Medicina de ponta até o turismo dos sonhos), enquanto outros trabalhadores, colaboradores desses CEOS e desses grupos de privilegiados, partilham renda que não lhes permite mais que viver em palafitas infectas.   

  

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

527. A Felicidade

 Kant e Hegel ensinaram que EU VIVO O MUNDO QUE EXISTE EM MINHA MENTE. Existe o mundo do interior da casa da vizinha. Esse mundo, eu não vivo. Existe o mundo do mulçumano que mora no Mali. Esse mundo, eu não vivo. Existe o mundo do interior da minha mente. Esse mundo, você não vive. 

Eles ensinaram outra coisa tão importante, quanto essa. A MINHA MENTE CONSTROI O SEU MUNDO. Vou com minha amiga andar por Copacabana e na esquina da rua Santa Clara (ah! Como é gostoso, como sou feliz em recordar o passeio que dei com minha amiga pela Rua Santa Clara, há poucos anos atrás, quando ela aqui esteve!) com Av. Copacabana deparamos com um atropelamento. E eu digo: a culpa foi do motorista. E ela discorda: não, amigo, a culpa foi do pedestre. O que aconteceu: ela construiu a realidade dela e eu construí a minha realidade! Isso é a fonte dos debates, das discussões, das desavenças, das brigas, das ameaças, dos assassinatos, das guerras... 

A realidade é uma só. Mas, cada pessoa forma na sua MENTE A SUA REALIDADE! A Mente não é apenas a cabeça. A Mente é o corpo todo, dos pés à cabeça. É a sensação, é a emoção, é o sentimento, é a paixão, é o interesse, é a atenção, é o sangue, é a pressão do sangue, é a composição do sangue no momento, são os hormônios, são os órgãos de cada pessoa, é o grau de instrução, a formação, a educação, a experiência, a história de vida, as circunstâncias de vida de cada pessoa. Assim, a realidade é uma só. Mas, a REALIDADE VIVIDA É TANTAS QUANTAS SÃO AS PESSOAS QUE EXISTEM! 

Conclusão: cada um é responsável pela VIDA QUE VIVE; cada um é responsável pela SUA SORTE. CADA UM É RESPONSÁVEL POR SER OU NÃO SER FELIZ. 

Estou-lhe dizendo que CADA UM CONSTROI SUA FELICIDADE. 

Para mim a FELICIDADE É UMA FORMA DE SENTIR E VIVER A VIDA. Veja o faquir indiano: ele quer viver deitado em uma cama de pontas de faca!! Por que? Por que se sente infeliz? Alguém me retorquirá: não, mas porque é louco. Pode até ser que seja louco. Que seja anormal, concordo. Mas, que certamente não é infeliz, eu tenho certeza, pois, se fosse infeliz, ele não suportaria essa situação. 

É, por isso, que para mim, Virgílio, o maior poeta latino, que teve a felicidade de poder viver numa vila numa das colinas da cidade de Roma, sem ter que trabalhar, porque era sustentado pelos ricaços da cidade que adoravam a companhia dele e ouvi-lo recitar os lindos poemas, achava que “Feliz é a pessoa que compreende a VIDA e controla todas as suas angústias, o inevitável destino e a tragédia da morte.” 

Cada um tem a sua própria história – E eu sou eu mesmo e minhas circunstâncias!, afirmou Ortega y Gasset. A Vida é MUITO MAIS QUE CADA UM DE NÓS. 

Você ainda é a menina apaixonada. Ele não é mais o rapaz apaixonado por você. Essa é a SUA CIRCUNSTÂNCIA. 

Ou você ENTENDE ISSO, DOMINA ESSA ANGÚSTIA, CURVA-SE A ESSE INEVITÁVEL DESTINO E SERÁ FELIZ, ou você não entende a Vida, não domina essa angústia, continua inconformada com o INEVITÁVEL e será INFELIZ. 

Para ser feliz não se precisa de muita coisa, basta ajustar a MENTE e adotar a FORMA EXATA DE SENTIR E VIVER A VIDA. 

Vocês se apaixonaram. Viveram momentos maravilhosos. Brigaram muito. Você brigava, mas achava que ele sempre permaneceria a seu lado e isso a fazia feliz. Isso era e é sua felicidade: viver sempre ao lado dele. Para ele, as coisas são diferentes: para ele ser feliz é ter uma vida sem dificuldades financeiras e de certo luxo. 

São duas concepções de FELICIDADE QUE NÃO SE JUNTAM DE FORMA ALGUMA. 

Minha amiga, decida-se. Trate de ser feliz. E já. MUDE, e já, A SUA FORMA DE SENTIR E VIVER A VIDA. 

Você nem perdeu nem ganhou nada. Você viveu. E, de agora para a frente, trate de continuar vivendo, e vivendo feliz. Adote a FORMA EXATA DE SENTIR E VIVER A SUA VIDA.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

526. Resposta a Uma Amiga

 

Estou satisfazendo ao seu pedido de meu comentário sobre recente carta dos militares, que o autor do e-mail acha ter sido provocada por manifestação do senador Antônio Carlos Magalhães.

Ouvi a manifestação do senador na TV Senado. O manifesto dos militares desconheço. Se ele veio anexo ao e-mail sobre o qual estou discorrendo, não consegui abri-lo. Seja como for, estou manifestando-me sobre o conteúdo do e-mail. 

Em primeiro lugar, o e-mail coloca uma posição filosófica: a evolução como um projeto inteligente em oposição à teoria evolucionista de mera adaptação às transformações da natureza.

A respeito disso, quero manifestar que respeito a posição do autor, mas acho que ele, que demonstra excepcional erudição, diverge muito de mim a respeito do conhecimento. Ele deixou-me a impressão de que pensa que existe um conhecimento definitivamente verdadeiro, no qual todos os homens acabarão concordando, desde que examinem convenientemente um assunto. (Essa é a concepção socrática).

Outros acham que o exame de um assunto poderá conduzir a diversas opiniões verossímeis, isto é, que explicam satisfatoriamente o assunto, podendo até umas explica-lo melhor que outras. Assim, tem-se a explicação dada pelas crendices afro-asiáticas, a dos muçulmanos, a dos budistas, a dos bramanistas, várias dos protestantes (cada seita com sua explicação), a dos católicos, várias dos filósofos (cada um com sua explicação), as dos cientistas. 

Para mim, a melhor explicação das coisas é dada pelos cientistas, porque é o conhecimento mais preciso (tem a precisão da matemática, toda ciência tem que usar a matemática) e o mais comprovado (é comprovado por experimentos e todos poderão repetir os mesmos experimentos e chegar aos mesmos resultados). 

Acontece que a ciência parte do pressuposto de que todos os fenômenos naturais (inclua na natureza o homem e a sociedade humana) têm sua explicação noutros fenômenos naturais. A ciência é uma explicação naturalista da natureza. Ela prescinde (não toma em consideração) do sobrenatural para explicar a natureza . Não nega o sobrenatural. A ciência não aceita explicar a natureza pela intervenção de Deus, simplesmente porque não leva em consideração Deus. A ciência acha que todo fenômeno natural pode ser explicado por outro fenômeno natural e procura esse fenômeno natural explicativo, usando a matemática e o experimento.

Assim, o conhecimento científico é, para mim, o melhor tipo de conhecimento que o homem possui, o mais perfeito. Mas, ele não é absolutamente perfeito. Por isso, ele está a cada dia se renovando, se aperfeiçoando. 

Veja, por exemplo, a Cosmologia (o estudo do Universo, a Astronomia). Aristóteles dizia que a Terra é uma esfera, o centro estático do Universo, que todos os astros giram em torno da Terra e que o mundo supralunar é de natureza diferente (incorruptível) da natureza terrestre (corruptível). Isso permitia fazer cálculos astronômicos (a duração do dia, a duração do ano, o tamanho da Terra, a distância do sol, a posição do sol e das estrelas, etc). 

Ptolomeu (II século EC) dizia que a terra é uma esfera, o centro estático do Universo; que há esferas que giram circularmente em torno da Terra, uma dentro das outras; a maior e mais externa das esferas é o limite do Universo e nelas estão pregadas, fixas, as estrelas; cada uma das esferas internas contém um planeta e uma delas o Sol; os planetas não estão fixos nas respectivas esferas, mas giram circularmente sobre elas. Isso permitia cálculos astronômicos mais precisos. 

Copérnico, no século XVI, afirmou que os planetas e o sol não giram em torno da Terra; disse que a Terra e os planetas giram circularmente em torno do Sol, centro estático do sistema solar de astros. Isso permitiu cálculos astronômicos mais precisos. 

Galileu viu através de um telescópio que Júpiter tem luas, isto é, que astros giram em torno de Júpiter e não em torno da Terra. Confirmou, assim, o sistema heliocêntrico de Copérnico. 

Keppler fez cálculos matemáticos mais precisos sobre a movimentação dos planetas em torno do sol, supondo que eles giram em trajetória elíptica e que o sol ocupa um dos focos dessa elipse. 

Newton afirmou que as leis da física valem para a Terra (gravidade terrestre) e para todo o Universo (lei da gravitação universal), o mundo supralunar não é diferente do mundo terrestre; que a força da gravidade põe os astros em movimento; que a força da gravitação equilibra o Universo e evita a junção de todos os astros num único ponto. Isso permitiu cálculos astronômicos mais precisos. 

Einstein disse que a gravidade não é uma força de atração de um corpo por outro (como pensava Newton), ela apenas encurva (dobra) o espaço-tempo na sua vizinhança; que, portanto, a luz e os planetas seguem numa linha reta nesse espaço-tempo curvo. Isso permitiu cálculos mais precisos do movimento de Mercúrio e dos demais planetas em torno do sol; explicou o desvio da luz das estrelas nas vizinhanças do sol; possibilitou a produção da bomba atômica; explica por que cada coisa tem o seu tempo (o tempo nos satélites artificiais das transmissões a longa distância passa mais rápido – é mais curto – que o tempo na superfície terra), que a massa se transforma em energia e a energia se transforma em massa. 

Assim, o conhecimento do Universo progrediu: nem tudo que Aristóteles afirmou estava errado, muita coisa se corrigiu e muita coisa se acrescentou. Mas, quem pode afirmar que tudo o que Einstein afirmou está certo? Ao contrário, sabe-se que muita coisa tem que ser esclarecida e aperfeiçoada. 

Então, o conhecimento mais perfeito, pois, é o conhecimento científico, que se tem no momento presente. Ele poderá ser diferente, mais perfeito, no futuro.

 

Em segundo lugar, o comentarista fala da teoria evolucionista como algo desprezível. Ora, o evolucionismo, juntamente com a astronomia de Copérnico e a física de Galileu, Keppler e Newton, constituiu a maior revolução na História do pensamento humano. Mudou o rumo da cultura ocidental e da cultura humana. 

Ninguém pode negar que o Universo está em contínua transformação. O Big Bang, ocorrido há 15 bilhões de anos, foi captado em forma de microondas por Panzias e Wilson, ganhadores do Nobel de Física, na década de 30 do século passado. Hubble comprovou na década de 20 que o Universo se expande. Astrônomos comprovaram posteriormente que ele está em expansão acelerada. O sol só surgiu há 5 bilhões de anos. A Terra tem 4,5 bilhões de anos. 

De bola incandescente a Terra passou a ser coberta de vulcões sem atmosfera. Os vulcões proveram-na de atmosfera sem oxigênio. Seres vivos diferentes dos atuais surgiram e transformaram a atmosfera injetando-lhe o oxigênio. Surgiram os micróbios nas águas. Desenvolveram-se formas vivas cada vez mais complexas. Muitas foram desaparecendo. Os continentes, que eram uma só massa de terra (a Pangea), se desmembraram nos continentes que hoje conhecemos. Até que surgiram os primatas, os australopitecos, o homem hábil, o homem erecto, o homem de neandertal e, por fim, a espécie humana que denominamos homem (o homo sapiens sapiens). Não se pode negar que essa evolução ocorre: basta visitar os grandes museus do mundo. Ridículo, insano é negar essa transformação. 

A explicação mais simples, a explicação científica (explicação dessa transformação por outro fenômeno natural) é a explicação de Darwin: na luta pela sobrevivência sobreviveu o organismo (a planta e o animal) mais adaptado ao meio ambiente (ao clima e à alimentação existente). 

Presentemente, na mesma Ilha Galápagos, onde Darwin comprovou sua teoria evolucionista, um casal de cientistas americanos assistiu surpreso à comprovação da teoria de Darwin: eles foram para Galápagos em 70; lá assistiram à chegada de aves alienígenas chamadas de tentilhões; essas aves eram mais aptas para captar os alimentos que os tentilhões nativos; a população dos tentilhões adventícios aumentou consideravelmente e a população dos tentilhões nativos foi reduzida drasticamente; mas, surgiram tentilhões nativos de bico reduzido e mais apto para captar alimento; conseguiram, por isso, recolher mais alimento que os tentilhões adventícios; e essa nova geração de tentilhões nativos, de bico reduzido (mutação genética), voltou a dominar nas terras da Ilha de Galápagos. 

Por fim, o comentarista fala que o marxismo e outras teorias são conseqüências da teoria evolucionista de Darwin. Não duvido. Mas, é do conhecimento geral que Darwin se inspirou no livro Riqueza das Nações de Adam Smith, o pai da ciência econômica, o economista da liberdade econômica, da livre concorrência e do capitalismo. Por outro lado, o Capital de Marx teve a sua época e deixou marcas indeléveis no pensamento e na cultura, de tal forma que, nos dias de hoje, temos em todos os países do mundo os partidos políticos socialistas e os partidos da social democracia (a chamada terceira via, entre o capitalismo e o comunismo). 

Concluindo: respeito a opinião do comentarista sobre o evolucionismo, mas acho-a muito parcial (mais parcial que a Igreja católica, que procurou adaptar o evolucionismo à doutrina cristã) e pouco científica; mas, é um pensamento bem estruturado e bem exposto; o comentarista tem erudição. 

Já sobre o que ele fala sobre a atitude atual das forças armadas brasileiras, acho que ele tem razão: os tempos são outros, a sociedade humana transformou-se muito nestes últimos 40 anos. A mentalidade pacifista da cultura européia não aceita a iniciativa da beligerância, nem mesmo por parte do Estado. A sociedade norte-americana divide-se entre Bush e os democratas. Já o mundo mulçumano advoga a solução dos problemas via terrorismo. A América do Sul aceita a violência como arma dos marginalizados e não aceita a força como defesa legal da sociedade. Parece-me que as forças armadas brasileiras estão muito conscientes dessa nova sociedade: temos que fazer o que o povo politizado quer, mesmo que seja ignorante, manipulado pelos interesses políticos de espertalhões, mesmo que essa orientação nos conduza ao desastre social e político, porque a sociedade somos todos e o Estado existe para dar paz à sociedade fazendo a vontade da maioria. 

Essa visão pacifista da elite mundial dominante tem história evolutiva milenar: Confúcio, Buda e Cristo. Antes deles, os gregos guerreiros achavam que os homens primitivos (os solitários coletores e caçadores de alimentos) eram silvícolas, que os habitantes de aldeias eram bárbaros e que os habitantes de cidades eram civilizados (urbanos). Essa visão pacifista de que a civilização faz o homem urbano, educado, civilizado e apto para o convívio em sociedade assumiu forma moderna com Thomas More, Erasmo de Roterdâ e os humanistas do início do segundo milênio da Era Cristã. Os Iluministas franceses colocaram no convívio social pacífico, consensual, o máximo da perfeição humana. A violenta Revolução Francesa procurava paradoxalmente a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Os grandes nomes do mundo contemporâneo são Gandhi e Luter King. Os mais respeitados políticos atuais são Kenedy, Gorbachov, Bill Clinton, Hilary Clinton, John Blair, Chirac. 

O ideal humanista da Terra para todos os homens, da convivência consensual entre os homens, vai paulatinamente, muito paulatinamente, com passo milenar, se tornando o pensamento fundamental da sociedade humana, a marca da civilização. E nisso o comentarista tem razão: não há mais ambiente no Brasil para a revolução militar como a de 64. Há, ainda, para a revolução de massa de Evo Morales. Mas, acho que nem esta se sustentará por muito tempo. 

Os tempos modernos são os tempos do Lula, os tempos da democracia, os tempos do Brasil de todos. Pode até ser o Brasil dos ignorantes e dos pobres, o Brasil do atraso, mas é o Brasil de todos. Acho que a sociedade humana marcha para uma forma de governo mais democrática ainda. Acho que vamos marchar para a forma de governo dos Anarquistas: democracia é participação, não é representação. Não se fez, há pouco no Brasil, um plebiscito sobre armas? 

A informática e os celulares permitirão participação maior ainda da população no governo. A forma de governo será menos representativa. Acho que toda representação é corrupta. E quanto mais forte a representação, mais corrupção. A informática e os celulares difundirão a educação. Quanto mais educação, maior a responsabilidade que cada indivíduo quererá assumir e mais sociabilidade. Acho que o mundo passará por grande transformação e para melhor. Isso levará talvez milênios... se não acabarem antes com a Terra numa guerra atômica!

sexta-feira, 28 de maio de 2021

525. O Atraso de Bolsonaro

             Fernando Henrique Cardoso reagiu à máxima (“Brasil acima de todos. Deus acima de tudo.”) que o Presidente Bolsonaro consagrou como resumo da orientação que pretende imprimir ao seu período de governo presidencial brasileiro, com uma palavra: “Atraso”.

            Entendemos que o cientista, ex-presidente do Brasil, se referia a regredir o Brasil num período multissecular, extenso de mais de dois mil anos, já que pretende governar o Brasil, na Era Moderna com mentalidade da Era Cristã.

Os evangelistas Lucas e Mateus disseram que Jesus ensinou a oração do Padre Nosso: “Pai nosso, que estais no céu, santificado seja o vosso nome. Venha a nós o vosso reino. Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Perdoai-nos nossas dívidas assim como perdoamos aos nossos devedores. Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do Maligno.”

Essa oração é oração paulina, oração que resume a concepção que Paulo de Tarso, judeu e cidadão romano, possuía do Mundo e da Vida. Essa concepção está repleta de irracionalidades, pensamentos que não resistem ao princípio da contradição, tais como um homem, Jesus, um judeu que foi julgado criminoso pelo seu povo, o povo judeu, e condenado à morte, é deus e criador do Universo!

Essa oração nos diz que existe um deus, ser absoluto e Pai amantíssimo, que tudo criou para manifestar a sua grandeza e riqueza, para sua glória!

 Assim, existem três reinos: o reino de Deus, o reino celeste, reino espiritual e eterno, o reino da Perfeição infinita, o reino da Verdade e do Bem; o reino terrestre da Humanidade, contaminada pelo vírus do mal, introduzido pelo pecado de Adão; e o reino do Maligno, o Inferno, local de sofrimentos infinitos, onde se padece o sofrimento infinito da ausência de Deus!

Ela também revela que o Maligno tenta persuadir o homem a não observar os mandamentos divinos, um dos outros inumeráveis mistérios que compõem a doutrina cristã católica.

 O reino terrestre terá um fim, que consistirá na fusão dele com o reino de Deus, após o Juízo final, quando Jesus voltará à Terra, para encerrar o reino terrestre, lugar e tempo de prova, para premiar quem na vida terrestre cumpriu os mandamentos divinos e castigar com pena eterna os que a eles não se sujeitaram (“Ele descerá de lá dos céus com suas milícias angélicas, em chamas de fogo para fazer justiça àqueles que não reconhecem a Deus e aos que não obedecem ao Evangelho de Nosso Senhor Jesus. Terão como castigo a pena eterna, longe da face do Senhor e de sua suprema glória. Naquele dia ele virá e será a glória de seus santos e a admiração de todos os fieis e vossa também, porque crestes no testemunho que vos demos.” Tessalonissenses 2-1-7/16), conquanto tal fidelidade seja uma Graça divina, pura benevolência divina para alguns dos homens (“Com esse pensamento rezamos sem cessar por vós, para que vosso Deus vos faça dignos de sua vocação e com poder cumpra toda a sua vontade para o bem e a obra de vossa fé. Para que seja glorificado o nome de Nosso Senhor Jesus em vós e vós nele, segundo a graça de nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo.” Ibidem-11/12). Essa graça Deus reserva, todavia, para poucas pessoas (“Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos.” Mateus 22-14).  

Nada obstante, Jesus preocupa-se com a satisfação das necessidades da subsistência, da vida terrena. E como tudo é feito e doado ao homem por deus, ele inclui na oração a petição da dádiva dos bens de subsistência (“O pão nosso de cada dia nos dai hoje.”). Ingressam na oração como meio provedor de vida, não como elemento constitutivo da felicidade, pois esta somente se goza no reino de Deus, como dádiva divina eterna aos poucos escolhidos por Deus para viver honestamente no reino terreno, o período de provação, segundo os seus mandamentos.

A oração do Pai Nosso, pois, coloca a felicidade humana na outra vida e no outro reino, o reino de Deus, após a morte. Os bens materiais não integram as condições e fatores que produzem a felicidade humana. A felicidade humana é resultado de um estado mental, a contemplação de deus, doação de Deus, inteiramente graciosa, não resultante de mérito algum, totalmente graciosa, como explicou Jesus, a pedido dos discípulos, no sermão das Bem-aventuranças: Bem-aventurados os pobres de espírito,( o homem é a incapacidade, tudo deve a deus, até sua capacidade); os que choram (quem sofre e procura em Deus a força de suportar o sofrimento alcança o consolo nesta vida e a felicidade na vida eterna); os  mansos (os que  não sentem o ímpeto de reagir com violência à violência alheia, porque sabem que somente de Deus vem que são o que são); os que têm fome e sede de justiça (a felicidade não é o gozo de bens materiais , mas da vida em conformidade com a vontade divina, que, justo, confere a cada um o conforto de vida segundo o critério de sua Justiça, ainda nesta vida terrena, mas plenamente na vida eterna); os misericordiosos; os puros de coração (os que possuem personalidade pura, o íntimo da personalidade, do eu, desse feixe de pensamentos, emoções e motivações, é puro, sem defeito, sem maldade); os pacificadores; os que sofrem perseguição por causa da justiça (do comportamento honesto);  quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo, falarem todo mal contra vós por minha causa; exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus.     

Mil anos transcorridos, um monge compõe, inspirado nessas ideias, a oração da Salve Rainha, a terceira mais rezada oração pelos cristãos católicos romanos: “Salve Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, salve! A vós bradamos os degredados filhos de Eva. A vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. Eia pois advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei. E depois deste desterro, mostrai-nos Jesus, bendito fruto de vosso ventre. Ó clemente! ó piedosa! ó doce sempre Virgem Maria! Rogai por nós Santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Amém.”

O homem é um ser degradado, intrinsecamente mau, corroída a sua natureza pela herança da culpa de Adão e Eva. Seus pensamentos, emoções e desejos de vida terrena confortável, prazerosa e alegre, tudo que hoje a Psicologia ensina como produção do sistema nervoso sob influência das condições vividas pelo organismo humano, são ilusões provocadas pelo Maligno, que insiste em tentar fazer abortar o plano divino da criação, a glorificação de Deus.

Essa mentalidade criou os eremitas dos primeiros tempos do cristianismo e os monges das abadias e conventos da Idade Média. Estes passavam a vida orando diante do ostensório da hóstia consagrada, o corpo real de deus, Jesus Cristo, na expectativa de serem incluídos no restrito grupo dos escolhidos para habitar o Reino dos Ceus.  

Bem diversa é a concepção que o homem moderno alimenta com relação à existência e à vida. Ele tem consciência de que existe e vive no planeta Terra, um astro do sistema solar. O sistema solar faz parte do Universo, que é o conjunto de todos os seres existentes. O Universo é caracterizado pela multiplicidade e transitoriedade dos seres que o compõem. O Universo se acha em permanente transformação segundo determinadas leis. Tudo começa e tudo acaba. Tudo é devir.

O Homem percebe-se como ser vivo e dominante na superfície terrestre. Essa predominância se deve à riqueza da sua vida mental, dotada de racionalidade, emotividade, sensibilidade, necessidade e atividade que lhe proporciona amplas condições de conseguir a sobrevivência própria individual e da espécie.

O homem é um ser silvestre, brotou da selva, mas não quer viver na selva.  Ele quer conforto e a satisfação de todas as suas necessidades. O homem moderno não mais entende a felicidade nem mesmo como o poeta romano Virgílio: “Feliz é o homem que compreende a existência e domina todas as suas angústias, a inevitabilidade do destino e a tragédia da morte.” Ele pretensiosamente tenta até mesmo conseguir eximir-se da lei da finitude. A felicidade na Terra é tentativa consciente ou inconsciente de todos os indivíduos humanos, até dos suicidas, num gesto de violenta e irracional tentativa de consegui-la.

A felicidade nestes tempos da Era moderna é concebida como um estado de vida terrena que um cidadão romano, há dois mil e poucos anos, deixou descrita numa gravação no piso de um anfiteatro e um boêmio do povo no século passado reescreveu num depósito de lixo de Montmartre: “amar, comer, beber e cantar, isso é ser feliz.” E a genial loucura de Nietzsche reconhece a laicidade da Era Moderna, que recoloca a felicidade na vida terrena. 

Com muito mais precisão e sabedoria, Epicuro sintetizou a ideia fundamental da civilização da Era moderna: “(A felicidade é uma vida) sem dor no corpo e sem angústia na alma.” A felicidade é estado de vida na existência terrena, que consiste na satisfação de todas as necessidades humanas, materiais e mentais.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

524. A Disputa pela Hegemonia Econômica Mundial.

             O plano econômico de Joe Biden para os USA: 3 trilhões de dólares em investimento, metade em infraestrutura e metade na área social.

Os USA entrarão em ritmo de progresso igual ao da China?!   

 A ciência econômica ensina que a economia é um comboio que faz o trajeto pendular entre as estações população e empresas. Aqui compram-se os fatores produtivos e lá os bens de subsistência. Quanto mais produtiva uma nação, mais rica ela é e mais confortável a vida da população.

O comboio é puxado pela locomotiva do consumo da população. A locomotiva é movida pela energia do investimento das empresas.

Os USA tem mediana população com formidável poder de consumo. A China, o contrário.

 Os USA precisam de mercado externo. A China tem mercado interno e externo, este principalmente os USA, além de ampla possibilidade de expandir o mercado interno. OS USA precisam do mercado da América Latina, África e Oceania.

A luta econômica USA e China recrudescerá. A China tem a vantagem da mão-de-obra barata. Os USA tem vantagem do petróleo barato e da liderança tecnológica.

A força de empuxo da locomotiva dos USA conseguirá manter-se por longo prazo? Muitos bens de consumo são de duração média e longa. Não nutrem a permanência do empuxo econômico.

No longo prazo, a locomotiva norte-americana me parece sofrer mais resistência que a chinesa, enquanto no curto prazo a dificuldade da China é maior, porque logo os USA se estarão abastecendo internamente de bens de consumo mais barato do que os ofertados pela China e provavelmente de qualidade superior.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

523. As Três Datas Magnas da História

 

            A História da Civilização apresenta três datas magnas.           

A primeira é a própria data inicial da História, entre três mil e dez mil anos antes de Cristo, quando o .Homem começou a viver em grandes aglomerações organizadas, as cidades, e inventou a escrita. O nível de vida ainda era então extremamente precário, e tanto que os sábios gregos preferiam a morte à vida, não nascer a viver. 

A segunda data magna é o ano do nascimento de Jesus Cristo, o ano zero do calendário mundial. Jesus Cristo é o homem que Paulo de Tarso divinizou e que o imperador Constantino, poucos séculos depois, erigiu a deus único do Império Romano, o império universal do mundo então conhecido. O nível de vida continuava bem baixo ainda. Tanto assim que o cristianismo entende que existem duas vidas, a vida terrena transitória e a vida celeste eterna. A vida terrena é época de provação e passageira. A vida celeste é eterna e definitiva. A vida terrestre é vida de provação, onde cada indivíduo humano deve viver segundo as normas de vida impostas por Deus. Os que as observarem irão, através da morte, para a vida celeste perpétua, gozar da companhia de Jesus Cristo, a perfeição infinita, a felicidade eterna. Os que não observarem  as normas divinas de vida humana não serão admitidos na companhia de deus, Jesus Cristo, depois da morte; ficarão privados eternamente de sua companhia, serão perpétua e infernalmente infelizes. Nada obstante tudo isso, o ingresso no céu não é efeito da vontade, do trabalho, do esforço individual humano. É uma graça divina, uma dádiva divina plenamente gratuita, à qual nenhum indivíduo humano tem o menor direito, o menor merecimento. Muitos são chamados e poucos os escolhidos. 

A vida terrestre, pois, segundo o pensamento da segunda fase da História, é época de provação, não época de felicidade. A felicidade está na vida celeste, após a morte, é um prêmio, uma dádiva de Jesus Cristo, e somente para poucos, os escolhidos, os amados de Deus, Jesus Cristo, um presente inteiramente gratuito, que ele dá a quem ele livremente quer dar e escolhe. 

A terceira data magna é o final do século XVIII, mil e oitocentos anos depois de Jesus Cristo, época da Revolução Francesa, da invenção do país sem rei, do país do povo, da Revolução industrial e do Iluminismo, isto é, só tenho certeza de que existe o que constato aqui e agora, e tudo que constato aqui e agora já é uma construção mental pessoal e somente minha. Na minha opinião, o filósofo, que melhor explicou essa época e esse Homem, foi José Ortega Y Gasset, naquela expressão famosa: “Eu sou eu e minhas circunstâncias.” Eu sou meu DNA e minhas circunstâncias todas de vida, materiais e sociais.  Eu sou o momento presente, as coisas que me rodeiam e que  eu não as conheço em si mesmas, apenas conheço na imagem interior, mental, que delas formam as faculdades mentais que possuo. A Razão é a mais perfeita dessas faculdades, cuja luz deve guiar o indivíduo humano, que é a referência de toda a realidade existente. O Homem é o mais importante ser sobre o planeta Terra, ser racional e livre, e a felicidade é um  momento presente, quando tudo no interior e no exterior do indivíduo humano se acha em consonância com o seu ser. A felicidade é o momento presente de existência, a vida mental do indivíduo humano em que o meu ser e o mundo em seu redor se acham em harmonia. Ela é em parte fabricação do próprio indivíduo. A felicidade é qualidade desta vida terrena passageira, fugaz. A felicidade é resultado das minhas decisões assim como das circunstâncias de minha vida terrena. A felicidade é acontecimento existencial pessoal da vida de um indivíduo humano na sua vida terrena, a única de cuja existência no momento presente se tem certeza que existe. E só tenho certeza de minha existência agora, neste instante que já passou!!!

 Entendo, pois, o que quis dizer Fernando Henrique Cardoso quando ouviu a máxima de Governo de Bolsonaro (“Pátria acima de todos. Deus acima de tudo.”): “Atraso.” Bolsonaro estava regredindo o Brasil para a época do cristianismo paulino, de Constantino e Jesus Cristo. O Brasil estava regredindo do Iluminismo para a época de Jesus Cristo, mil e oitocentos anos!