Em 1844 Marx produz “Crítica da
Filosofia do Direito de Hegel” e “A Questão Judaica” e, segundo Gorender, “Ambos
marcam a virada de perspectiva, que consistiu na transição do liberalismo
burguês ao comunismo.” Já Reale e Antiseri explicam que Marx entende “que as
instituições jurídicas e políticas e as diversas formas de Estado não podem se
explicar por si mesmas e em virtude de um chamado desenvolvimento do espírito
humano, mas são o resultado das condições materiais da vida...
Substancialmente, para Marx, a filosofia de Hegel interpreta o mundo de cabeça
para baixo: é ideologia. Hegel raciocina como se as instituições existentes...
derivassem de puras necessidades racionais, legitimando assim a ordem
existente... transforma em verdades filosóficas dados que são puros fatos
históricos e empíricos...”
Esses autores, depois de explicitarem as
duas principais acusações de Marx contra Hegel – subordinação da sociedade
civil ao Estado e inversão de sujeito e predicado (os indivíduos humanos, os
sujeitos reais, tornam-se predicados da substância mística universal), pois
patente é que “não é a religião que cria o homem, mas o homem que cria a
religião, da mesma forma não é a constituição que cria o povo, mas o povo que
cria a constituição.”, concluem que, segundo Marx, “Hegel não deve ser
censurado por descrever o ser do Estado moderno tal como é, mas sim por
considerar aquilo que é como essência do
Estado.”, isto é, ”Hegel pensa que está descrevendo a essência do Estado, ao
passo que, de fato, está descrevendo e legitimando a realidade existente que é
o Estado prussiano.”
Em 1844, Marx publica a “Ideologia
Alemã” e, coautoria com Engels, “A Sagrada Família”, crítica aos hegelianos de
esquerda, que consideravam a religião cristã fato puramente humano e,
professando ideias democráticas, se opunham ao Estado prussiano. Segundo Marx,
a ideia básica da esquerda hegeliana consiste na convicção de que a atividade humana é
gestada e conduzida por sua consciência. Assim, pede aos homens que “substituam
sua consciência atual pela consciência humana...a de interpretar diferentemente
o que existe.” Ora, “não é a consciência que determina a vida, é a vida que
determina a consciência.” A esquerda hegeliana, portanto, nada tem de radical,
de libertadora. “Ser radical significa colher as coisas pela raiz... E, para o
homem a raiz é o próprio homem.” A libertação do homem não consiste em reduzir
“a filosofia, a teologia, a substância e toda a imundície à
auto-consciência.... A libertação é ato histórico e não ato ideal,
concretizando-se por condições históricas, pelo estado da indústria, do
comércio, da agricultura...”
Reale e Antiseri explicam que Marx concorda com Feuerbach: a
religião é antropologia, mas constatando-lhe a incapacidade de apreender o
problema principal que é o motivo por que o homem cria a religião: “ O homem
aliena o seu ser, e projeta-o em um deus imaginário, somente quando a
existência real na sociedade de classes lhe impede o desenvolvimento e a
realização de sua humanidade.” E citam Marx: “O Estado e a sociedade produzem a religião,
que é a consciência invertida do mundo.... A miséria religiosa é a expressão da
miséria real em um sentido e, em outro, é o protesto contra a miséria real. A
religião é o suspiro da criatura oprimida...é o ópio do povo.” Assim, a
primeira função da filosofia a serviço da história é desmascarar a auto-alienação
religiosa: “Os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de modos diversos;
agora, trata-se de transformá-lo.”
(continua)
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